À beira de um ataque de nervos entre a memória e o algoritmo
(totvs.com)
Quando parto para este espaço que me ajuda a descobrir uma crónica que justifique os meus e os vossos interesses comunicacionais, sinto que reinicio uma aventura que coloca sempre em confronto a minha memória e a actualidade que nos atropela. O meu ponto de vista, porque não pairo nos céus nem tenho uma objectiva de microscópio, é praticamente o do cidadão comum, que vive, muitas vezes, angustiado com o que lhe permitem observar e com o que lhe contam os jornais, as rádios e as televisões…

As redes sociais digitais deixam-me sempre de pé atrás, apesar das frequentes deambulações nessas malhas logarítmicas, capazes de nos manipularem, de nos tomarem o pulso e de se aperceberem dos nossos acelerados batimentos cardíacos. Embora desconfiemos das intenções dos donos disto tudo, reincidimos nessa conectividade em tempo real que, supostamente, nos facilita a troca imediata de mensagens, fotografias, vídeos e muita baboseira, no impulso da partilha de coisas que só a nós dizem respeito com amigos que nunca viremos a conhecer.
Nestes corredores virtuais e virais que, se bem utilizados, poderiam servir de verdadeiras pontes de oportunidades e de humanidade, tornamo-nos consumidores acéfalos, com muita pressa de chegar a lado nenhum, cada vez mais desinformados e bastante inseguros quanto aos dados que cedemos e àqueles a que acedemos, sujeitos a ameaças, a humilhações e a outras formas de “ciberbullying”, bem como à condição de meros espectadores da derrocada dos processos democráticos.

Por falta de leitores – há quem insista que não –, os jornais e as revistas são raros e cada vez mais caros, enquanto o jornalismo de investigação perde terreno perante a guerrilha da desinformação, a par das guerras híbridas e das sombras mantidas pelos ditadores do Mundo. Assim, se ainda não caímos no abismo, estamos à beira de um ataque de nervos. O que nos desorienta e nos remete para a comédia dramática de Pedro Almodóvar, protagonizada por Carmen Maura e Antonio Banderas.
No filme “Mujeres al borde de un ataque de nervios”, de 1988, sabemos que Pepa se afunda no caos da vida por ter sido abandonada pelo amante. Todavia, nós – ao sentirmo-nos também sozinhos, vulneráveis e desamados – somos potenciais destinatários de livros de auto-ajuda, como aquele que o ex-jornalista britânico Matt Haig publicou. A obra “Notes on a Nervous Planet”, em que o autor cruza o desenvolvimento pessoal com o ensaio, é motivada pela ideia de que as sociedades de consumo procuram criar em nós o desejo de ter o “último modelo”, em vez de nos satisfazermos com o que temos. “Como manter o equilíbrio num planeta que nos enlouquece?” é uma questão que ainda acolhe boas respostas, embora não haja receitas infalíveis para a felicidade.


Por me parecer uma digressão deveras útil e agradável, naturalmente desfasada do ritmo do século XXI, marcado pela inovação tecnológica e pela crescente influência das redes sociais digitais, regresso à escrita de um homem que, nas palavras de Eugénio Lisboa, “nunca se curvou” e “nunca se vendeu por um prato de lentilhas”. Esse “grande cronista e também um grande jornalista”, como sublinhava o mesmo poeta e crítico literário, é Armando Baptista-Bastos.
O livro que ando a ler – “As Bicicletas em Setembro” – permite-nos revisitar um tempo e um lugar que, segundo dizem os editores, não existem para lá da memória. Baptista-Bastos fala-nos de um bairro lisboeta onde se inventava “a felicidade em jogos de cartas numa obscura taberna” e se descobria “a medo a iniciação sexual”, surpreendentemente na casa de Jesuína que, “às vezes, falava em voz alta, sobretudo quando se acomodava no quarto dos jornais”. Ela estava só e inventava coisas: “Sabes?, há pessoas que tinham perdido a esperança de que alguma coisa mudasse a sua vida. Ao contar estes episódios estranhos e confusos, talvez possa distrair as pessoas.”
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 4 de Outubro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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05/10/2026