A casa do papel e a cidade digital: como ler no século XXI

 A casa do papel e a cidade digital: como ler no século XXI

(Créditos fotográficos: Vitaly Gariev – Unsplash)

O digital democratizou a leitura; o papel aprofunda-a. Só juntos fazem sentido.

Há uma ironia de base nos discursos que denunciam os “cretinos digitais”: quase todos circulam exclusivamente online, dependem do digital para existir e para serem lidos, e só chegam ao público graças aos mesmos ecrãs que pretendem condenar. Sem o digital, não teríamos acesso ao sinalAberto, nem ao texto que critica o digital. Esta contradição não é um detalhe: revela que o problema não está nos ecrãs, mas na forma como os usamos e como os pensamos.

(Créditos fotográficos: Vitaly Gariev – Unsplash)

O texto de José Vieira Lourenço, apoiado na obra de Michel Desmurget, alerta para os riscos reais do consumo recreativo excessivo: dispersão, perda de tempo de leitura, empobrecimento da atenção, substituição do diálogo familiar por estímulos rápidos. Estes riscos existem e não devem ser ignorados. A leitura profunda continua a ser uma prática insubstituível para o desenvolvimento da linguagem, da imaginação e da cultura geral.

Mas é, precisamente, por levar a sério estes riscos que importa desmontar a narrativa que transforma o digital num inimigo civilizacional. Há, pelo menos, quatro equívocos que empobrecem o debate.

(Créditos fotográficos: Zulfugar Karimov – Unsplash)

O primeiro é confundir ecrã com digital. Desmurget estuda, sobretudo, a televisão, os videojogos recreativos e as redes sociais de consumo rápido. O digital, porém, é muito mais: inclui bibliotecas online, arquivos históricos, plataformas de aprendizagem, ferramentas de escrita, instrumentos de investigação científica, sistemas de inteligência artificial que ampliam capacidades humanas. Confundir tudo isto com “ecrãs recreativos” é um erro categorial.

O segundo equívoco é tratar a leitura como propriedade exclusiva do papel. A leitura é uma prática cognitiva, não um suporte. O papel é uma casa antiga que devemos preservar; mas o digital é a cidade onde agora vivemos. Hoje, milhões de leitores profundos leem livros digitais, artigos científicos online, ensaios longos em plataformas digitais. O digital multiplicou o acesso à leitura, não a destruiu.

(Créditos fotográficos: GN Group – Unsplash)

O terceiro equívoco é reduzir o desenvolvimento cognitivo ao impacto dos ecrãs. A inteligência depende de múltiplos fatores: nutrição, escolaridade, contexto socioeconómico, saúde mental, estímulos culturais, estabilidade familiar. Culpar apenas o digital é uma simplificação sedutora, mas cientificamente frágil.

O quarto equívoco é ignorar a literacia digital. A escola não pode limitar-se a proibir ecrãs; tem de ensinar a usá-los bem. Sem literacia digital, informacional e mediática, os jovens ficam vulneráveis ao ruído, à desinformação e à superficialidade.

Todavia, há um ponto decisivo que raramente entra neste debate: nunca crianças e jovens leram e escreveram tanto como hoje. O telemóvel tornou-se o maior programa de alfabetização massiva da História. Milhões de mensagens escritas e lidas todos os dias, comentários, chats, fóruns, redes sociais – uma prática textual contínua que, para muitos jovens, foi a verdadeira porta de entrada na leitura e na escrita. Não substitui o livro, mas democratiza a literacia. Ignorar este fenómeno é ignorar a realidade cultural das novas gerações.

(Créditos fotográficos: Amanz – Unsplash)

O desafio não é escolher entre papel e digital. É aprender a habitar ambos: o papel aprofunda, o digital democratiza. Recuar no digital seria tão grave quanto recuar na alfabetização; abandonar o papel seria perder a profundidade que dá sentido à leitura.

A casa do papel e a cidade digital não são inimigas. São complementares. E só juntas fazem sentido.

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10/09/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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