A crónica do destampatório: não só dos sujeitos camilianos

 A crónica do destampatório: não só dos sujeitos camilianos

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Camilo Castelo Branco (pt.wikipedia.org)

No capítulo décimo ou penúltimo da novela camiliana “Eusébio Macário”, leio que o filho do boticário, já depois de a irmã ter casado com o barão endinheirado, apesar da “compostura dos atavios corporais” que parecia formalizar-lhe as ideias, experimentava usar “as palavras penteadas, correctas, e às vezes rendilhadas de locuções de Virgílio”. No entanto, nem sempre conseguia evitar dizer “destampatórios”. Gosto desta palavra e da sua múltipla capacidade de entendimento.

Naquelas circunstâncias fingidas do cunhado do barão – José Fístula, que tinha da avó materna, a Pucarinha de Penaguião, “a brotoeja, a musculatura; e do avô o pendor para a tasca” –, Camilo Castelo Branco acentuava-lhe a dissimulação e os discursos disparatados, sem nexo nem propósito; ou seja, uns destampatórios.

De facto, é uma pena que a nossa língua esteja a deixar escapar vocábulos tão surpreendentes como esta palavra que, consoante o contexto, significa que estamos perante um disparate ou uma falta de tampa (actualmente, diríamos de filtro); podendo ainda expressar o lado desconfortável da gritaria, da algazarra ou do tumulto.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Nem todos os sujeitos camilianos gostavam do “bate-boca” ou das discussões acaloradas e violentas (verdadeiros destampatórios), porque, na ideia de Eusébio Macário, que “meditava no casamento do filho com Felícia”, nesta “boa comédia da sua fantasia risonha, o personagem do abade pertencia às ‘figuras que não falam’”. Mas isso não o livrava da descompostura das mulheres beatas por ter andado “fora da graça de Deus”, em pecado dezasseis anos com Felícia. E, como tal, exposto a destampatórios; aos quais, se calhar, também se submeteria se vingassem as ideias de se propor deputado, de querer ir para Lisboa, para ver mundo e divertir-se.

No final da novela de Camilo, o abade de Santiago da Faia, ficou destroçado quando soube – pelo doutor Viegas – que a Felícia tinha casado, na véspera (às seis horas da manhã), em Santo Ildefonso, com o José Macário e que, de imediato, partiram no vapor para Lisboa. Disposto a escrever uma carta ao Fístula a dizer-lhe que “ia atirar às folhas a vida de Felícia” (a safardana que tirou de guardar cabras em Barroso), intenção que pareceu destampatória ao Viegas e que o aconselhou: “Não faça isso […], que lhe fica mal, e nada remedeia. Coração ao largo, abade.”

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

De coração ao largo temos, todos, andado! Neste convívio aparentemente desatento à dinâmica das personagens reais, muito mais egocêntricas do que as de Camilo e mais cruéis na capacidade de retirar a terra e o pão a biliões de pessoas. De facto, a frequência dos conflitos acalorados, polarizados e populistas banaliza o significado de uma palavra rara na geopolítica e nas nossas vidas.

Camilo Castelo Branco teve uma vida atribulada, que lhe
serviu muitas vezes de inspiração para as suas novelas.
(portaldaliteratura.com)

Na dedicatória a uma “querida amiga”, o representante literário da segunda geração romântica, Camilo Castelo Branco escreveu: “Perguntaste-me se um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os ‘tiques’ do estilo realista. Respondi temerariamente que sim e tu apostaste que não. Venho depositar no teu regaço o romance, e na tua mão o beijo da aposta que perdi.”

Hoje, Camilo encontraria muitas figuras que se fazem notar pelas decisões imprevisíveis e comportamentos destemperados como Donald Trump, nos Estados Unidos da América, ou Vladimir Putin, na Rússia. Já o presidente Xi Jinping – o qual, quando rapaz, viveu numa caverna da aldeia de Liangjiahe (na árida província de Shaanxi), após a purga da Revolução Cultural que expurgou politicamente o seu pai, Xi Zhongxun, um veterano comunista – tem a habilidade de centralizar o poder institucional sem alaridos, talvez avesso aos algoritmos que promovem o “bate-boca”. Mas isso não faz dele uma boa pessoa nem o afasta do autêntico destampatório diário das guerras e dos terríveis impasses das organizações globais.

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 20 de Setembro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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21/09/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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