A fila que se fura por cima

 A fila que se fura por cima

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

O silêncio da sala de espera

“Existem em São Petersburgo lugares muito insólitos. Nesses sítios, dir-se-ia que não penetra o mesmo sol que brilha para os outros habitantes da cidade.” (Fiódor Dostoiévski, “Noites Brancas”)

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Em Lisboa, existem duas filas. Não são sítios. São condições. Na primeira, uma senhora de 78 anos espera, há 14 meses, por uma consulta de Cardiologia no Hospital de Santa Maria. Tem uma reforma de 480 euros. Não recebe o Complemento Solidário para Idosos, porque o limiar anual é de 8040 euros e ela, com os seus 480 mensais, ultrapassa-o por pouco – o suficiente para ser considerada “não pobre o suficiente”. Paga do próprio bolso os comprimidos que lhe mantêm o coração a bombear.

Na segunda fila, a mesma secretária do mesmo secretário de Estado marca, em 5 de dezembro de 2019, uma consulta de Neuropediatria para duas gémeas brasileiras, recém-adquiridas da nacionalidade portuguesa. Em dias, o caminho está aberto para um tratamento de quatro milhões de euros – o Zolgensma, o medicamento mais caro do Mundo, pago pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). As duas filas existem no mesmo país, tuteladas pelo mesmo ministério, sob a mesma luz de inverno. Mas, como escreveu Dostoiévski, não é o mesmo sol.

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O caso só veio a público anos depois. A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) concluiu, em abril de 2024, que o acesso àquela primeira consulta fora irregular – marcada por telefonema de uma secretária do então secretário de Estado António Lacerda Sales, sem passar pelos canais normais. Uma comissão parlamentar de inquérito ouviu 37 depoimentos ao longo de sete meses. O relatório final, votado em março de 2025, “chumbou” a versão mais dura do Chega – que acusava o, então, Presidente da República de abuso de poder – mas manteve duas conclusões queimadas: houve uma “intervenção especial” da Casa Civil da Presidência e houve “instrução direta” de Lacerda Sales à sua secretária pessoal. O governante, Lacerda Sales, manteve sempre a “consciência tranquila”. O processo segue na Procuradoria-Geral da República.

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Enquanto isso, no mesmo SNS, mais de 1,08 milhões de utentes aguardavam consulta de especialidade em dezembro de 2025 – um aumento de 13,8% em relação ao ano anterior. Mais de 264 mil pessoas esperavam por cirurgia. Mais de 1,56 milhões de cidadãos não tinham médico de família. Os hospitais fecharam o ano com um prejuízo de cerca de 1,35 mil milhões de euros e com uma dívida a fornecedores de 1,47 mil milhões, apesar de a despesa total rondar os 18 mil milhões anuais, sensivelmente o mesmo que toda a receita prevista de IRS. Não falta dinheiro no sistema. Falta a decisão de destinar para onde ele vai.

E no meio destas duas filas – a da urgência negada e a da urgência telefonada – existe uma terceira, mais silenciosa: a das farmácias comunitárias que, a partir do terceiro trimestre de 2026, passaram a dispensar metadona a toxicodependentes. O Estado paga 30 euros por mês, por cada beneficiário, ao farmacêutico – valor fixado pela Portaria n.º 248/2026/1, de 5 de junho. É um serviço legítimo, necessário. Mas a sua existência ao lado das outras duas filas desenha um mapa: 30 euros automáticos, sem burocracia de prova, para um programa de substituição; zero euros de comparticipação total para a senhora dos 480 euros de reforma, porque o limiar administrativo a exclui. Nenhum funcionário público decidiu, com má vontade, que ela deveria pagar. Decidiu-se, noutro gabinete, com a mesma frieza, que ela já não estava pobre o suficiente.

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“Opõem-se, como contrários absolutos, a inteligência e a estupidez, a verdade e a mentira; mas, postos frente a frente, o tolo e o mentiroso de Estado são a mesma pessoa.” (Eça de Queirós, “O Primo Basílio”)

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A frase de Eça, escrita no século XIX, cabe no corredor de qualquer hospital público português do século XXI. A “mentira de Estado” não é, aqui, uma conspiração. É a soma de duas verdades isoladas: sim, o Zolgensma salvou duas crianças; sim, a senhora de 480 euros paga os seus comprimidos. O crime está no silêncio entre as duas. No facto de ninguém, no mesmo edifício, ter de olhar para as duas filas ao mesmo tempo. É isso o que significa racionar a vida por desenho: não é preciso um vilão. Basta que ninguém tenha o trabalho de somar.

A vítima real não tem nome neste capítulo – e é, precisamente, isso que a torna real. É a mulher que o dossiê descreve como exemplo: reforma modesta, acima do limiar, abaixo da dignidade. É o milhão e meio de utentes sem médico de família, que não têm um Nuno Rebelo de Sousa a telefonar do gabinete presidencial. É o silêncio da sala de espera, onde o tempo não é medido em dias, mas em deterioração. A “traição institucional” de Jennifer Freyd, já citada noutras circunstâncias, aplica-se aqui na sua forma mais pura: a instituição que devia curar atrasa e quem confia nela é punido pela própria espera.

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Do outro lado, a saúde privada cresce – e um dos maiores grupos é a CUF, rede de hospitais do Grupo José de Mello, a mesma linhagem que, no que se refere às fortunas, esteve ligada ao império colonial da CUF. Não há estudo em Portugal sobre o efeito dos fundos de “private equity” na subida de preços, como nos Estados Unidos da América. Mas a pergunta impõe-se: quando a saúde privada cresce mais depressa do que a pública consegue recuperar, é o mercado a responder a uma procura – ou é o mesmo dinheiro de sempre a preferir o lado onde há lucro?

A fila não desapareceu para ninguém. Só ficou, para quem tem o contacto certo, mais curta. E o sol que brilha sobre a secretária que marca consultas por telefone não é, como sabíamos, o mesmo que entra pela janela da sala de espera do SNS.

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Fontes:

  • Caso Zolgensma: RTP, 4 abr. 2024 – relatório da IGAS. CNN Portugal / Correio da Manhã / ECO / Renascença, fev.-mar. 2025 – Comissão Parlamentar de Inquérito (37 depoimentos).
  • Serviço Nacional de Saúde (SNS) e listas de espera: ACSS, relatório interno, fev. 2026 (citado por CNN Portugal, Observador, Jornal de Notícias): 1,08 milhão em espera por consulta de especialidade (dez. 2025, +13,8%); 264.615 em espera por cirurgia; 1.563.710 sem médico de família.
  • Prejuízo hospitalar: ~1,35 mil milhões€; dívida a fornecedores: 1,47 mil milhões€ Metadona em farmácias: Portaria n.º 248/2026/1, de 5 jun. 2026; Ordem dos Farmacêuticos, página oficial do programa; Público / Jornal de Notícias / Observador / SOL , 5-6 jun. 2026 – valor de 30€/mês CSI: Segurança Social / gov.pt, Portaria n.º 480-D/2025/1, de 30 de dezembro; Conselho de Finanças Públicas, ficha sobre o CSI (Decreto-Lei n.º 37/2024, de 28 de maio).
  • Teoria: Jennifer Freyd, Betrayal Trauma, Harvard University Press, 1996.

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Nota do Director:

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06/08/2026

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Ana Paula Cruz

Ana Paula Cruz é jornalista investigativa, fotógrafa, compositora e escritora brasileira, radicada entre o Recife e Lisboa. Desenvolve o projeto VINCERE (código em “Python” e dados públicos e verificáveis), um eixo de investigação sobre fraude institucional, desigualdade estrutural e arquitetura do poder entre o Brasil e a Europa. Assina poesia e prosa sob o pseudónimo Cinza Viva; e fotografia sob o nome Apcruz. Tem licenciatura em Estudos Europeus; pós-graduação em Direito Penal e Medicina Forense, Compliance e Governança, além de estar na etapa final de um MBA (Master of Business Administration).

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