A insanidade instalou-se

 A insanidade instalou-se

(Imagem gerada por IA – firefly.adobe.com)

Os conflitos bélicos recrudescem e, a dada altura, já é impossível saber onde terminou a razão de uns e onde possa estar a de outros. Assistimos a uma guerra multipolar larvar. É demasiado fácil dizer, sem mais, que a culpa é de Khamenei ou de Trump, de Putin ou de Rutte, do Afeganistão ou do Paquistão, para só citar o que é mais mediático. Ou, mesmo, de uma abelha que picou um pinguim e morreu. Ou de uma árvore que caiu e esmagou a cabeça de um professor universitário.

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A guerra é algo que já se estendeu para lá de países, de sistemas políticos, de interesses económicos e geoestratégicos, de religiões, de etnias, de complexos industriais marciais, da loucura, do medo e das fobias. A Humanidade, no seu próprio dia-a-dia, entrou numa guerra (neuronal?) que começa na pressa de um cláxon e acaba com Beirute, com Oslo, com Chicago, com Xangai ou com Vila Franca de Xira bombardeadas sem razão qualquer, nem se saber por quem.

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Nem o olhar compassivo de Cristo demove os que se julgam cristãos, nem um argumento sólido de um filósofo demove um professor. A insanidade instalou-se. Duvido que haja algum Noé que nos salve do nosso próprio dilúvio. Quiçá nem uma oliveira cresça, quanto mais uma pomba que nos traga uma folha no bico. A paz só vem com um milagre, mas até Ele deve ter dúvidas sobre se vale a pena. Com razão. Resta-nos a coragem de dar a mão a uma criança, uma rosa a um velho, um sorriso ao primeiro que encontremos. Talvez Deus ainda se apiede na Sua infinita misericórdia. Depende do livre-arbítrio que nos deu, não da Sua vontade.

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09/03/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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