A lei que sempre incomodou a direita

 A lei que sempre incomodou a direita

(sns.gov.pt)

Na vigência do XXI governo constitucional, quando se iniciou a discussão sobre a substituição da Lei de Bases da Saúde de 1995, não foram poucas as vozes que se levantaram contra tal iniciativa, argumentando que era escusado, porque com a lei, então, em vigor era possível aplicar todas as medidas julgadas necessárias para o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Sabemos, contudo, que ela foi a porta que se abriu para que o SNS começasse a ser delapidado, ao ponto de estarmos hoje como estamos. Aprovada em 2019, chegaram meia dúzia de anos para o XXV governo, chefiado por Luís Montenegro, anunciar a intenção de rever a actual lei. No entanto, caso tal revisão venha a concretizar-se, a lei de 2019 ficará para a História como a legislação que melhor defendia a natureza pública do SNS, herdeira natural da lei de 1979, de António Arnaut.   

A então ministra da Saúde, Marta Temido, realçava a importância da
nova Lei de Bases da Saúde. (portugal.gov.pt)

O incómodo da direita com essa lei, que na Assembleia da República foi contra a sua aprovação, tem, sobretudo, a ver com a defesa que faz da separação de sectores, reconhecendo a cada um deles a natureza que lhe é própria. No sector público, é a solução que garante o acesso universal e gratuito aos cuidados de saúde. Tratando-se do sector privado, a sua natureza é lucrativa. Só quando fica demonstrada a sua necessidade, de maneira a não prejudicar o acesso da população, é que o recurso aos outros dois sectores, privado e privado social, é desencadeado, não significando com isso que não desenvolvam o seu negócio, como é do conhecimento geral. 

Tendo tido, na altura, a marca dos partidos que lhe deram o seu voto – Partido Socialista (PS), Bloco de Esquerda, Partido Comunista Português, Livre, Pessoas-Animais-Natureza –, a lei que eventualmente se seguir, para ser aprovada, terá de merecer a concordância da Aliança Democrática (AD) e da Iniciativa Liberal, cabendo ao PS e ao partido Chega o papel de balança sobre o destino da proposta que vier a ser apresentada. Este é o aspecto político que interessa, porque está em causa a escolha que o PS vier a fazer. É da sua responsabilidade os pactos que deseja fazer com a AD, tendo já anunciado as áreas em que os deseja realizar, deles não fazendo parte, contudo, a Saúde. Independentemente do juízo que se possa fazer do valor dos pactos propostos, será a revisão da Lei de Bases da Saúde que irá merecer todas as atenções políticas, podendo mesmo vir a marcar o mandato deste governo e o futuro próximo do PS, consoante o lado em que se posicionar. 

(Créditos fotográficos: jeshoots.com – Unsplash)

Não foi indiferente antes, e não será agora, o impacto que a anunciada revisão terá sobre o SNS, conhecidas as intenções do governo: de globalmente público passar a parcialmente público, de público-público para público-privado. Se bem que as leis não prestem cuidados de saúde, como por vezes é argumentado, são elas, contudo, que os condicionam, e sendo o desempenho profissional tendencialmente igual, seja qual for o caso, a diferença reside na emergência do conflito de interesses, que seria ainda maior do que o actualmente existente. Com mais facilidade, os profissionais de saúde circulariam entre os dois sectores, ou transitariam mais facilmente do público para o privado, dadas as razões financeiras a que cada um está submetido. 

(Créditos fotográficos: Tung Nguyen – Pixabay)

Prevendo-se que o governo não irá desistir deste propósito, cabe à sociedade e ao PS terem uma palavra a dizer sobre o assunto, porque partiu da sociedade o agendamento político da actual lei e coube ao PS o principal papel na sua aprovação. Porque a existência deste, como de qualquer SNS, está intimamente ligado à sua natureza exclusivamente pública. O contrário é considerar que os contextos são dispensáveis, quando se está a tratar de um sector social como o da Saúde; e quando é o Estado a conseguir garantir as prestações indispensáveis à vida em sociedade, seja da Saúde, da Educação ou da Segurança Social. É por todas estas razões que é reprovável a revisão da actual Lei de Bases da Saúde, sendo todos quantos a defenderam e aprovaram chamados a impedir que tal propósito se venha a verificar. 

Uma vez que a actual tendência para os regimes políticos na Europa é de resvalarem para a extrema-direita, a maneira como o acontecimento se está a verificar em Portugal não deixa de ser preocupante. Se, a propósito da lei da nacionalidade, a AD acabar por ver aprovada a proposta apresentada na Assembleia da República com os votos do Chega, ficará aberta a porta para futuros entendimentos, um dos quais será, certamente, a alteração da Lei de Bases da Saúde. A acontecer, o recuo na política de saúde poderá vir a ser ainda maior do que o consignado na lei de 1995 e o SNS ver, por fim, acabado os seus dias. Já estivemos mais longe. 

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Nota do Director:

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07/07/2025

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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