A revolução começa no sabão
(© Marco Dias Roque)
Cada nova geração é mais esperta que a anterior e, se não acreditam em mim, perguntem a alguém mais jovem. Eles explicam. A juventude traz consigo uma arrogância refrescante e, honestamente, algo irritante, uma energia transformadora que não se sente limitada pelo passado. O contraponto é a juventude ser desperdiçada nos jovens que dedicam tempo a atividades sem futuro e se negam a ouvir conselhos. Esta discussão entre os “velhos do Restelo” e as Gretas Thunberg vai durar para sempre, mas pode resumir-se assim: os jovens podem e não sabem, os velhos sabem e não querem. À medida que os mais novos envelhecem, o ciclo renova-se e a roda reinventa-se sem que ninguém dê por isso. Olhemos para um humilde sabão, por exemplo.

Quando eu era miúdo, os sabões eram de barra sólida. O rei desta época era o famoso Sabão Azul, um portento da cultura portuguesa, tão poderoso que limpava roupa e pele. O sabão azul continua vivo – com direito a um momento de fama durante a epidemia de 2020 –, mas, quando apareceu o gel de banho, a transição foi rápida. Sabão em barra era coisa de velhos. Gel era o futuro. E, após viver tanto tempo no futuro, podem imaginar o meu espanto quando comecei a ser inundado com publicidades de sabão para homens de barba rija. São coloridos – alguns parecidos com o sabão azul – com nomes e cheiros apelativos: Barril de Carvalho para Bourbon, Alcatrão de Pinheiro ou Eucalipto no Gelo. Por trás destas imagens poderosas, um simples sabão quase artesanal já que – uma vez que o futuro tem demasiados microplásticos – os produtos naturais voltam a estar na mó de cima. É uma boa reinvenção, claro, mas faz-me pensar em todas as coisas novas que, afinal, são velhas – e toda uma geração que não saberá o quão fixe era ter gel de banho com a textura de areia.

Pensemos também nos food trucks ou camiões de comida, restaurantes ambulantes que servem comida rápida. A versão gourmet deste tipo de produção de comida popularizou-se nos Estados Unidos da América, muito à custa da comida de inspiração mexicana, e conseguiu ocupar um nicho importante no mundo da restauração, construindo uma boa reputação num mundo de higiene questionável. Ora bem, qual é a diferença entre um food truck e uma roulotte (notem a luta idiomática: uma guerra cultural que o Francês perdeu há muito) de bifanas ou de frangos na feira? Puro marketing, com a diferença de que uma rulote da feira cria uma comunidade. Pedir qualquer coisa lá é uma aventura, cotovelo com cotovelos desconhecidos, bebidas oferecidas entre amigos, a partilha da mostarda. Contudo, comer no food truck é cool, ir à feira é coisa de velhos.
A compra a granel é outra “inovação”, com lojas onde o plástico é proibido e temos de trazer recipientes para evitar desperdício. Se reduzir plásticos de uso único é um imperativo ambiental, antigamente era uma necessidade. Tudo se aproveitava e reutilizava – as garrafas de cerveja vinham com “tara”, que acabou perdida –, a compra à medida é tão antiga quanto as feiras e os mercados. A tradição ainda continua viva também nos talhos onde ainda se pode pedir exatamente o necessário. Foi o advento dos supermercados que nos fez esquecer que ninguém deve definir por nós as quantidades de que precisamos, ou corremos o risco de desperdiçar comida. Claro que, para quem cresce com supermercados e nunca viu uma feira, este é um conceito novo.

Parece que, afinal, o futuro é um espelho do passado e eu gostaria de receber um jovem estudante do ano 2126 que nos explicasse o que pensa de nós e das nossas modas. Espero que me dissesse que “vocês eram mesmo parvos, então passaram anos com o nariz no telemóvel sem olhar para o que tinham à volta?” Ou, “então esta gente comia plástico?” E dariam umas boas risadas num mundo futuro sem fronteiras à nossa custa. Como todas as gerações anteriores, não sabíamos bem o que estávamos a fazer.
Infelizmente, nem todas as reinvenções são inofensivas. Mesmo que cada nova geração seja a mais rebelde da História (pelo menos, até ter de pagar contas), às vezes, acabam por reinventar modas que não são precisas: não dá para ignorar quantos jovens acabam presos na armadilha do chauvinismo ou da misoginia. Contudo, os mais jovens, hoje, bebem menos e cuidam do seu corpo melhor do que nunca. São mais conscientes de questões ambientais e sociais, têm o Mundo na ponta dos dedos – e, se evitarem estas armadilhas, podemos olhar para o futuro com otimismo. Nunca se sabe se a revolução não começa com um simples sabão.
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05/01/2026