A saudade
(Créditos fotográficos: Kelly Sikkema – Unsplash)
Portugal es un pueblo triste, y lo es hasta cuando sonríe. La literatura, incluso la literatura cómica y jocosa, es una literatura triste.1 (Miguel de Unamuno)

Estado de São Paulo, no Brasil – arteeartistas.com.br)
Num artigo publicado, neste espaço (edição de 07/07/2025), sobre Camões, eu lamentava o meu desconhecimento sobre a literatura portuguesa, durante quase 20 anos, até chegar a Portugal. Entre os autores citados e as suas obras, não podia faltar esta palavra tão expressiva, tão ampla e também inexata e de difícil tradução, além de não a encontrarmos noutras línguas: “saudade”.
Para me situar, auxilio-me de autores e de textos que abordaram este tema. Assim, o artigo de hoje é uma compilação de citações, pretendendo-se, de certa forma, ordenar conceitos e pensamentos, para atingir o universo poético fechado ou aberto na palavra “saudade”.
Comecemos! Em Espanhol, podemos encontrar sinónimos próximos2 como “melancolia”, “nostalgia”, “pesar”, “tristeza”, “lembrança”, “solidão”, “desamparo” e “falta”, juntando-se ainda a palavra “añoranza” (sentimento de pena pelo afastamento, pela ausência, pela privação ou pela perda de alguém querido ou de algo). Também a encontramos no Catalão, com o vocábulo “enyorar”, de igual significado, resultando este do Latim “ĭgnōrāre” (ignorar), mas no sentido de “não ter notícias de alguém ausente”.

A propósito, cito Carolina Michaëlis de Vasconcelos: “É inexa[c]ta a ideia de que outras nações desconhecem esse sentimento. Ilusória resulta a afirmação (já quase secular) que diz que esse mesmo vocábulo, saudade, nas palavras de Almeida Garrett, o ‘delicado nome que tão doce soa nos lábios lusitanos’, não seja conhecido pelos bárbaros estrangeiros (estrangeiro e bárbaro são sinónimos), não tenha equivalente em língua alguma do globo terráqueo e distinga unicamente a faixa atlântica, faltando mesmo na Gal[iz]a para além do Minho. Existem quatro vozes peninsulares, de origem neolatina, todas elas, que são sinónimas. Só é verdade que não correspondem completamente ao termo português. É certo, sobretudo, que nem de longe têm, na economia dos respectivos idiomas-irmãos, a importância e frequência da saudade na língua portuguesa. Isto é válido tanto para o espanhol soledad/soledades (do mesmo modelo etimológico, evidentemente) como para o asturiano senhardade, de singularitate. É válido tanto para a palavra comum galega morriña como para o catalão anyoransa, anyorament, usado frequentemente por Ausiàs March, esse Petrarca catalão, nas suas sentidas Canções de amor e Canções de Morte, e também utilizado [em] Castela. Há, no entanto, total concordância entre saudade e a Sehnsucht dos [A]lemães, tão penetrantemente exteriorizada na figura comovente de Mignon, a expatriada (a hematosei), e nas belas canções de Goethe que começam assim:
– Conheces o país onde o limão floresce? / Kennst du das Land wo die Zitronen blühn?
– Somente quem conhece saudade sabe o que eu sofro. / Nur wer die Sehnsucht kennt, weiss was ich leide.”

Considerando a obra “A Saudade Portuguesa”, da autoria de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, registe-se o que escreve Manuela Molina Cerezo (em “Saudade: pilar poético da cultura portuguesa e brasileira”, publicado 2020): “Principalmente, a saudade tem sido associada a uma construção nacionalista e simbólica da alma lusitana, como refere Pablo Javier Pérez (‘Fado, saudade e tragédia’), no seu estudo sobre o fado e a saudade:
Saudade foi, é e será o coração e as entranhas da alma portuguesa. Não é apenas uma palavra, mas uma cicatriz, talvez a cicatriz de uma batalha, uma batalha que não é muito clara se ganha ou perdida está presente na pele e no olhar de um povo. É uma palavra, e como qualquer palavra intraduzível, a cicatriz de algo difícil de entender pelo conceito. Essa intraduzibilidade conceitual para outras línguas terrestres torna a Saudade um emblema identitário de um povo, de seus mistérios e de seus segredos íntimos e ao mesmo tempo paradoxalmente públicos.”

No artigo intitulado “O panteísmo da saudade”, da autoria de César Antonio Molina, publicado em 1 de Fevereiro de 2001, na Revista de Libros, lemos: “Em ‘Senhora [Dama] da Noite’ está o essencial do pensamento saudosista. É um longo poema elegíaco dividido em três partes, um prólogo e uma ‘Canção final’. É também uma espécie de conto, de oração. A Senhora da Noite é a sombra da morte. Ela abrange tudo: pessoas, animais, Natureza e transforma-os na mesma matéria fundida do enigma. Mas Teixeira de Pascoaes não percebe esta destruição como algo negativo, [antes] pelo contrário, como um elemento criador. A Senhora da Noite é a Sibila, é a Musa inspiradora da própria vida.”
Resumindo, sendo a saudade uma experiência do presente ou recordação de algo vivido e de algo perdido, confesso a minha experiência de saudade na noite das últimas eleições para a Assembleia de República, no dia 18 de Maio, quando a direita e a extrema direita conquistaram uma maioria parlamentar, identificada com a xenofobia, com o retrocesso e a antidemocracia… Tenho saudades daquele Portugal a que cheguei, no mês de Janeiro de 1975, há já cinquenta anos, quando iniciei neste país o meu exílio voluntário e libertário!
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Notas:

1 – Este aspecto (“Un Pueblo Suicida”) da alma portuguesa foi levado por Unamuno a obras como “A agonia do cristianismo”, “Do sentimento trágico da vida” ou “Solilóquios”. E, de certa forma, Unamuno também se suicidou pela lenta agonia existencial que saturou o seu confronto com o general Millán Astray em Salamanca, poucos dias após o levantamento militar. Laranjeira disse a Miguel de Unamuno: “Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença na morte libertadora. A Europa nos despreza, nos ignora, nos detesta como a pessoas sem dignidade e, acima de tudo, sem dinheiro. Quando Portugal atravessava os dias terríveis da ditadura de Franco (João Franco, ministro do rei português Carlos I) acreditava que íamos ressurgir. Hoje, no entanto, há uma tranquilidade pútrida que me assusta de verdade. Este já não é um povo, mas o cadáver de um povo.”
A página electrónica Como un Libro recorda-nos que em Espanha houve várias guerras civis ao longo do século passado, que dividiram os intelectuais em dois blocos, os exilados e os que ficaram. Portugal sofreu o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, que durou até 1974, sem que os escritores abandonassem o país, sucumbindo perante a impotência da incompreensão autoritária. Por essa razão, poderia falar-se de uma geração perdida em Espanha e de uma geração suicida em Portugal.

Por sua vez, na página electrónica “Mais que Poesia”, Julia Calzadilla observa que, nesse sentido, no que diz respeito à referida “intraduzibilidade”, Manuel de Faria de Sousa (1590-1619), na sua obra “Os Lusíadas comentados” (publicada em 1639), menciona a discussão surgida em torno da diferença de matizes existente entre a saudade portuguesa e a solidão espanhola, e alude ao critério sustentado por alguns de que, em Castelhano, não existe palavra que defina com exactidão esse vocábulo português.
2 – Recorrendo ao blogue Español día a día, é-nos dito o seguinte, sem traduzirmos: “Los sustantivos más próximos, que a su vez tienen sus propios matices, son morriña (de la palabra de origen gallego ‘murria’ [tristeza], que significa, según el DLE [Diccionario de la Lengua Española], ‘tristeza o melancolía, especialmente nostalgia de la tierra natal’); nostalgia (‘pena de verse ausente de la patria o de los deudos y amigos’ o ‘tristeza melancólica originada por el recuerdo de una dicha perdida’) y añoranza (‘acción de añorar, es decir, recordar con pena la ausencia, privación o pérdida de alguien o algo muy querido’, también según el DLE). Como se ve, uno de los matices que agrega la palabra ‘saudade’, sinónimo según nuestro diccionario de añoranza y nostalgia, es el de soledad […]”
17/07/2025