A voragem do “progresso” e o Colégio Almeida Garrett no Porto

 A voragem do “progresso” e o Colégio Almeida Garrett no Porto

O antigo Colégio Almeida Garrett, n Porto, em avançado estado de degradação. (Créditos fotográficos: Rita Neves Costa – jpn.up.pt)

Uma das coisas que dá prazer ver em séries ou em filmes britânicos é a reconstituição de ambientes e de espaços urbanos de há 50, 100 ou mesmo 150 anos. É relativamente “fácil” porque conservam muito do essencial arquitectónico e paisagístico, incluindo o chamado mobiliário urbano, como as cabinas telefónicas; tal como o desenho das carrocerias dos autocarros ou os letreiros do Metro, etc.

E, ainda assim, o progresso efectivo é bem maior do que o nosso. Aqui, a voragem de um “progresso” que não tem escala humana e é medido pela alteração sem critérios do património e do próprio quotidiano, destrói a memória e o auto-respeito do carácter de um país, de uma cidade, de um lugar.

Nem o facto de ter ficado na posse da Universidade do Porto, nem de ser um ícone portuense, onde estudaram figuras marcantes da cidade (incluindo Francisco Sá-Carneiro), salvou o Colégio Almeida Garrett de ser vendido a um “Golias” da imobiliária e ir dar lugar a mais um hotel! Sim, alienação patrimonial da Universidade do Porto!

A entrada principal do antigo Colégio faz-se pela Praça Coronel Pacheco. (Créditos fotográficos: Rita Neves Costa – jpn.up.pt)

Se isto é o “progresso”, desejo ardentemente que o não haja. Mas acho que não é. O progresso, mesmo, combina com a conservação em evolução da memória e no respeito das pessoas. Isto é o “chulé de patos-bravos” que não distinguem a caxemira da estopa e que preferem esta, desde que tenha pechisbeque a dar lucro imediato, para amanhã falir, se preciso for. Um nojo! Primeiro deixa degradar-se, depois vende-se. Tudo está à venda porque, há muito, o Porto vendeu o seu carácter. Tal como Lisboa, Coimbra ou Braga. Londres não. A Câmara Municipal do Porto devia intervir, nem que fosse num plano meramente institucional. E o Ministério da Cultura também. E também os cidadãos que de “mui nobres e sempre leais” vão dando lugar a “mui pobres sem ideais”.

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22/01/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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