As fronteiras são um estado mental

 As fronteiras são um estado mental

A Eurostar dispõe de comboios de alta velocidade para viagens entre Paris e Londres. (viagemlowcost.com)

Muitos ignoram – ou preferem ignorar – que as fronteiras, como hoje as entendemos, onde cada centímetro tem dono, são uma invenção relativamente moderna e bastante arbitrária. Exemplo disso é a fronteira entre a Inglaterra e a França, que encontramos no coração de Paris. Na Gare du Nord, uma das estações de comboios da capital francesa, mostramos o nosso passaporte à “Police aux frontières française” (PAF), damos uns passos e estamos em frente à “Police aux frontières britannique” (conhecida como “Border Force”). Revista a documentação, somos logo recebidos no Reino Unido! Ou melhor, somos bem-vindos à sala de espera do Eurostar, o comboio de alta velocidade que liga Londres e Paris. Embora estejamos a 344 quilómetros da capital inglesa, para efeitos legais, já atravessámos a linha imaginária que divide os dois países.

(Créditos fotográficos: Cécile de Sortiraparis – sortiraparis.com)

Escrevo estas linhas debaixo do Canal da Mancha, uma fronteira bem mais real e fácil de entender: um mar que separa dois países. Mas a política nem sempre se alinhou com a geografia. Em 1066, Guilherme, duque da Normandia, atravessou o canal e venceu Haroldo II, rei anglo-saxão local, ganhando o título de “O Conquistador” e iniciando a sequência histórica que levaria à criação do Reino Unido, 650 anos depois. Depois desta conquista, a Coroa inglesa manteve territórios em França durante séculos e o Canal da Mancha nada dividiu. Quando caiu Calais, em 1558, deixou de haver uma Inglaterra em França. O que não impediu as muitas guerras entre os dois países, claro. As fronteiras não evitam guerras, mas ajudam a criá-las.   

O Estreito de Dover visto da França, olhando para a Inglaterra. Os penhascos brancos de Dover na costa inglesa são visíveis da França em um dia claro. (Créditos  fotográficos: Rolf Süssbrich – pt.wikipedia.org) 

Ainda hoje, o Reino Unido continua a ter outra fronteira pouco alinhada com a geografia. A fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte foi o acordo possível para separar um espaço geográfico único entre dois países com uma cultura partilhada, divididos pela identidade nacional e pela religião. Em 1998, o Acordo da Sexta-feira Santa pôs fim aos “Troubles” entre nacionalistas e unionistas sobre a questão da união da Irlanda do Norte e permitiu o fim dos controlos e da infraestrutura de fronteira, tornando-a nada mais do que uma linha num mapa entre duas nações, então unidas pela União Europeia (UE). Outra fronteira que existia porque alguém a imaginou. Posteriormente, apareceu o Brexit.

Brexit Ilustração sobre a saída do Reino Unido da União Europeia.
(vermelho.org.br)series for FT.

A saída do Reino Unido da União Europeia criou uma situação desconfortável: ninguém tinha interesse em revisitar o Acordo de Sexta-Feira Santa, mas o Reino Unido e a Irlanda partilham uma zona de viagem comum. Assim, seria  impossível manter uma fronteira aberta entre o mercado único europeu e um país fora da UE, certo? Só que foi. Para evitar a reabertura dos problemas, ambas as partes se puseram de acordo e permitiu-se que a Irlanda do Norte continuasse a operar dentro das regras do mercado único europeu para bens. É espantoso quão flexível o Mundo é quando existe vontade política. Ou fechado quando essa vontade não abunda.

(instagram.com/sol.em.portugal)

O Brexit mudou, como se viu, a fronteira que abre esta crónica, tornando os controlos, que até existem há décadas, mais reais do que meras formalidades. Deve ser por isso que o espaço de espera nos faz sentir tão apertados. Embora sejam imaginárias, as fronteiras têm impactos bem reais. São vistos de trabalho, oportunidades de mobilidade limitadas, papéis dedicados aos deuses da burocracia que pouco acrescentam à vida das pessoas. O Reino Unido abandonou a União Europeia para proteger a sua fronteira, mas quantas oportunidades se perdem pelo caminho? Em particular, quando surgem novas opções políticas. Porque nem tudo é mau no mundo das fronteiras imaginárias.  

O primeiro-ministro Mark Carney participava numa coletiva de imprensa
durante a Cúpula Canadá-UE em Bruxelas, na Bélgica, a 23 de junho de
2025. (Créditos fotográficos: THE CANADIAN PRESS/Sean Kilpatrick –
ctvnews.ca)

Em setembro, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, convidou o Canadá a ser o primeiro “membro associado” da União Europeia. Ora bem, o Canadá é um país conhecido por, entre outras coisas, não estar na Europa. O conceito de “membro associado” também não existe nas leis da União. Contudo, a ideia parece ter sido bem recebida nos dois lados do Atlântico. A partilha de maneiras similares de ver o Mundo e interesses económicos alinhados faz maravilhas na hora de pensar onde começa e acaba a Europa. O Canadá está noutro continente e, ainda assim, parece estar mais próximo do que a Turquia ou de qualquer país do Norte de África, na hora de estender as nossas fronteiras. Ou até o Reino Unido.

Não tenho grandes problemas com que a UE organize a sua comunidade como quem prepara a Eurovisão. Afinal, as fronteiras são paredes imaginárias que só são sólidas quando as pessoas querem. Um dia existem; no outro, não.

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05/10/2026

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Marco Dias Roque

Jornalista convertido em “product manager”. Formado em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra, com uma passagem fugaz pelo jornalismo, seguida de uma experiência no mundo dos videojogos, acabou por aterrar no mundo da gestão de risco e “compliance”, onde gere produtos que ajudam a prevenir a lavagem de dinheiro e a evasão de sanções. Atualmente, vive em Londres, depois de passar por Madrid e Barcelona. Escreve sobre tudo o que passe pela cabeça de um emigrante, com um gosto especial pela política e as observações do dia a dia.

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