Babel – Babell

 Babel – Babell

O BABELL é um festival literário e cultural criado pela Fundação Livraria Lello, em coprodução com a Câmara Municipal do Porto. (danielrodriguesphoto.com)

Consultando a programação e a informação disponibilizadas pela organização, verifica-se que o Festival BABELL foi um evento literário e cultural que decorreu em espaço público, nas praças e ruas da cidade do Porto, entre os dias 24 e 29 de Junho de 2026. Idealizado e produzido pela Fundação Livraria Lello, no ano em que se assinalou o 120.º aniversário da histórica livraria, e realizado em coprodução com a Câmara Municipal do Porto, constituiu o resultado de uma política de responsabilidade cultural que visa valorizar o território através do investimento na cultura.

20 mil exemplares do jornal BABELL distribuídos pelas ruas do Porto. (babell.fundacaolivrarialello.pt)

Trata-se de um evento que saudamos e que veio acrescentar mais um momento cultural à cidade do Porto, desta vez contando com convidados de reconhecido prestígio no mundo literário. Entre eles destacaram-se escritores distinguidos com o Prémio Nobel da Literatura, como Salman Rushdie, Margaret Atwood e o escritor húngaro László Krasznahorkai, galardoado em 2025, que conversou com Pedro Abrunhosa.

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A identidade do Festival BABELL – com dois LL

Em tempo de incompreensões, ódios e conflitos, o Festival BABELL, com dois LL, evoca o mito bíblico da Torre de Babel para afirmar a diversidade cultural e linguística como a maior riqueza da Humanidade, e não o seu contrário (segundo informação da organização).

(instagram.com/invoga.news)

O episódio da Torre de Babel exerceu sempre sobre mim uma atracção muito especial. Explica a origem de muitas coisas, mas também a negação de outras. Se consultarmos as Escrituras, verificamos que a narrativa da Torre de Babel constitui o mito fundador que explica a existência de diferentes línguas e, consequentemente, de diferentes nações associadas a essas mesmas línguas.

De acordo com a narrativa, em Génesis 11:1–9, a Humanidade unida nas gerações seguintes ao Dilúvio, falando uma única língua e migrando para o leste, chega à terra de Sinar. Lá, eles concordam em construir uma cidade e uma torre alta o suficiente para alcançar o céu. Deus, observando a cidade e a torre,  confunde a sua fala, para que não se entendam mais e os espalha pelo Mundo.

Uma vez mais, Deus rompe o compromisso de uma época de harmonia – também denominada Idade do Ouro – iniciada no Paraíso, prolongada após o Dilúvio (a Arca de Noé) e, simbolicamente, retomada nesta torre que, sendo a imagem de uma civilização em construção harmoniosa, permanece inacabada. Essa imagem encontra-se representada nas grandes obras pictóricas dedicadas a este tema, muito particularmente na magnífica pintura de Pieter Bruegel, o Velho, onde se podem observar os alicerces sólidos e concluídos dos muros iniciais (ou iniciáticos) e o esqueleto labiríntico que se eleva em direcção ao céu.

“A Torre de Babel”, por Pieter Bruegel, o Velho (1563). (pt.wikipedia.org)

No filmeA Bíblia”1, de John Huston, um dos grandes realizadores norte-americanos, é explorado este episódio, personificando-se a prepotência e a insolência desta torre na figura bíblica do rei Nimrod (ou Ninrode), bisneto de Noé, interpretado por Stephen Boyd, o inesquecível Messala do épico Ben-Hur”. Nimrod desafia Deus, disparando uma seta em direcção ao céu e desencadeando, desse modo, a catástrofe.

A Babel(l) do Porto foi, sem dúvida, um êxito de organização e de afluência de público. O evento encerrou com um espectáculo mediático – se a expressão tem aqui pleno sentido – durante o qual 600 drones cruzaram os céus sobre o rio Douro, desenhando, com recurso à pólvora, diversas figuras, entre elas um gigantesco papagaio e páginas em azul e branco. A obra, concebida especialmente para esta ocasião pelo artista chinês Cai Guo-Qiang (1957) e intitulada One Page”, assumiu, nas palavras do seu autor, a forma de um “verso breve” desenhado no céu.

A afluência foi notável. Centenas de pessoas acorreram ao espectáculo, embora muitas delas parecessem esperar um evento de maior duração. Talvez tenha faltado informação mais clara sobre o carácter efémero da realização.

À noite, Luís Osório2, encerrava o ciclo de actividades com um monólogo junto à Torre dos Clérigos. Na voz singular do autor, Aparição” (Monólogo) transformou-se numa viagem pelos escritores portugueses, pelas palavras que habitam o espaço entre a vida e a morte, entre a esperança e a criação.

(facebook.com/luis.osorio.940)

Assisti a este último evento sentado junto da estátua do Bispo do Porto, o insigne D. António Ferreira Gomes (1906-1989). Enquanto escutava as palavras, detinha o olhar nas casas e nos edifícios que ladeiam o Jardim da Cordoaria. À minha frente, erguiam-se mais de vinte edifícios abandonados, com apenas os pisos térreos ocupados por lojas cada vez mais vocacionadas para o turismo. Entre elas, a inevitável loja das latas de sardinha e o verdadeiro atentado cometido contra o bolinho de bacalhau, transformado em suporte para um recheio de queijo da Serra.

Numa dessas lojas, pendem de uma varanda roupas e adereços cenográficos que fingem a presença de pessoas que já não habitam a cidade. Como seria belo que essas varandas e essas janelas estivessem verdadeiramente iluminadas pela vida dos seus moradores, assistindo às palavras de Luís Osório.

O escritor assumia quase a dimensão de um protagonista grego, à espera do segundo actor que Ésquilo acrescentou à cena. Os ausentes poderiam constituir esse coro que, ao longo do tempo, se foi esbatendo no teatro clássico até praticamente desaparecer.

Luís Osório na Torre dos Clérigos, com “Aparição”, no Festival Babell.

Precisamos – e já alguém o disse antes de mim – de figurantes para as casas do Porto, para os seus edifícios, para repovoar uma cidade que já foi Babel. Precisamos das suas gentes, dos comerciantes, dos sapateiros, dos operários das pequenas fábricas e oficinas, dos pomares (que bela palavra!), dos cinemas e das salas de teatro. Precisamos de recuperar a cidade do trabalho, hoje transformada, quase exclusivamente, na cidade do serviço e do turismo.

Foi assim que esta “Babell”, para mim, se transformou num ponto de reflexão sobre a cidade perdida e sobre aquela que desejamos voltar a ver habitada. Uma reflexão que conduz inevitavelmente a uma pergunta: quantas cidades se poderiam construir com as cidades que o Porto perdeu?

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Notas:

1 – O título correcto do filme em espanhol é “La Biblia… en su principio”(1966) (ou, simplesmente, “La Biblia”, conforme a edição).

2 –  Luís Osório é escritor, cronista e jornalista português, autor de vários livros, conhecido pelo seu estilo confessional e pela reflexão que desenvolve em torno da sociedade portuguesa.

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20/07/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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