Balanços de 2025: a publicidade

 Balanços de 2025: a publicidade

(garotasdepropaganda.wordpress.com)

Por natureza, a publicidade está em linha com as mentalidades e a capacidade de atracção das mensagens. Quando integrei a McCann/Erikson/Hora, em 1990, lembro-me de, na entrevista como seu director-geral, António Silva Gomes, este me ter perguntado o que achava eu de um anúncio completamente “fatela” de um vinho que existia. Respondi-lhe que me parecia muito bom, dado o público-alvo que perseguia. Sei que isso valorizou imenso a minha contratação, apesar de, quer Silva Gomes quer eu, do ponto de vista da nossa sensibilidade e gosto, acharmos aquilo deplorável.

Só que hoje, o lado “fatela” desse mesmo anúncio reina noutros produtos ou serviços, cujo público-alvo, naquele tempo, os repudiaria. É um bom barómetro para atestar da baixeza (ou devo mesmo dizer “baixela”?) do desnível de mentalidades e de sensibilidade que nos vitima.

A publicidade “cumpre” o seu papel. O papel que tem de cumprir é que está ao nível de 0º Kelvin de Cultura. Figurativamente, é como vender um Rolls-Royce na base de ter um baixo consumo, por exemplo!

Rolls-Royce Phanton Série II (press.bmwgroup.com)

25/12/2025

Siga-nos:
fb-share-icon

Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

Outros artigos

Share
Instagram