Buraco negro

 Buraco negro

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Há algum tempo, deparei-me com um conjunto de textos que escrevi na década de 1990, guardados num dossiê adormecido numa prateleira pouco acessível de uma estante. Lembrava-me de os ter escrito usando o computador e o processador de texto que tinha na altura e, como tenho o hábito de arquivar cuidadosamente os documentos que produzo, não tive qualquer dificuldade em encontrá-los no meu atual computador. O problema foi que, ao tentar abri-los, o sistema avisou-me de que não dispunha de nenhum programa que conseguisse fazê-lo. Tinham passado apenas três décadas desde a escrita dos documentos, mas a dura realidade demonstrava-me que o suporte em papel tinha vencido o suporte digital.

Não importa, aqui e agora, analisar e discutir possíveis soluções para este episódio particular, mas tudo isto fez-me pensar no problema a uma escala muito maior. Hoje, quase tudo é digital. Livros e artigos científicos existem cada vez mais em suporte digital, sem que haja cópias em papel. As comunicações pessoais e institucionais são feitas por e-mail ou utilizando plataformas efémeras. Arquivos judiciais, bancários, médicos, escolares ou governamentais são, hoje, predominantemente, digitais. Registos de redes sociais, blogs, fóruns e websites representam expressões culturais e históricas riquíssimas que nunca chegam a existir num suporte físico. Porém este universo assenta em infraestruturas frágeis, centralizadas e sujeitas a interesses comerciais. Basta que uma plataforma caia, que uma empresa feche, que um servidor se apague e perde-se uma fatia da História.

Ouvimos constantemente defender que digitalizar documentos físicos é uma forma de “salvá-los” para o futuro. É comum associar o digital à ideia de imortalidade da informação. Supõe-se que tudo o que é digitalizado ou criado em suporte digital permanecerá acessível indefinidamente. No entanto, essa é uma ilusão perigosa, já que, se não forem adotadas práticas robustas de preservação digital, essas versões digitais podem desaparecer muito antes dos documentos em papel.

Os documentos digitais estão, na verdade, presos a ecossistemas altamente voláteis, compostos por hardware, software, sistemas operativos, formatos de ficheiros e normas técnicas. Qualquer componente desses ecossistemas pode tornar-se obsoleto em poucos anos, colocando em risco a acessibilidade futura dos conteúdos.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Por exemplo, documentos guardados em disquetes, “zip drives” ou em CD são, já hoje, de difícil acesso por falta de leitores compatíveis. Ficheiros em formatos proprietários ou formatos não documentados correm o risco de se tornarem ilegíveis à medida que os programas que os abrem desaparecem. A própria Web, com os seus conteúdos dinâmicos, efémeros e dependentes de servidores e de scripts, é um ambiente onde a perda de informação é constante, fenómeno esse conhecido como link rot.

De facto, um pergaminho do século XIII pode ainda ser lido. Por outro lado, um ficheiro mal arquivado ou dependente de um codificador, ou de um sistema de encriptação fechado, pode estar ilegível agora. E isto não é algo que afeta apenas utilizadores individuais. Infelizmente, há exemplos de perdas digitais envolvendo instituições de grande projeção. Por exemplo, na década de 1970, a norte-americana NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço) recolheu dados importantes sobre as primeiras missões espaciais, incluindo as missões Apollo. Grande parte dessa informação foi armazenada em suportes magnéticos (fitas e discos) e em formatos proprietários. Na década de 1990, descobriu-se que muitos desses dados eram já irrecuperáveis, por deterioração dos suportes e por falta de leitores. Perdas substanciais de dados aconteceram também com o BBC Domesday Project e com o encerramento da plataforma Yahoo! GeoCities.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Este cenário levanta uma questão inquietante: estaremos a criar uma “Idade das Trevas Digital”, um futuro onde os nossos descendentes terão acesso ao mundo antigo, mas não aos séculos XX e XXI? Se não forem tomadas medidas sérias e coordenadas para garantir a preservação digital, poderemos estar a condenar a nossa memória coletiva ao esquecimento tecnológico.

Vivemos numa época de produção exponencial de informação. Nunca a Humanidade gerou tantos textos, imagens, vídeos, registos científicos, comunicações privadas e públicas, conteúdos culturais. Contudo, paradoxalmente, esta abundância de informação digital pode tornar-se irrelevante a longo prazo se não for acompanhada de estratégias eficazes de preservação. Tudo isto torna claro que o verdadeiro desafio não é armazenar dados, mas, sim, garantir a sua legibilidade e inteligibilidade ao longo do tempo, considerando os tipos de suporte disponíveis (ver tabela em anexo).

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Todavia, manter a legibilidade e a inteligibilidade da informação digital não é apenas um problema técnico. É, também, uma questão ética, cultural e política. Obriga-nos a repensar o valor da memória, a responsabilidade das instituições e a nossa relação com a tecnologia. Implica decisões conscientes sobre formatos abertos, sobre acessibilidade, sobre investimento em meios humanos e em infraestruturas de preservação; e sobre o papel das bibliotecas, dos arquivos nacionais, das universidades e das entidades públicas. Obriga-nos, ainda, a enfrentar a realidade de que o digital não é eterno e de que a permanência exige esforço, estratégia e vontade.

A obsolescência digital ameaça a continuidade do conhecimento humano e o próprio conceito de legado. Muitas das nossas expressões culturais mais autênticas – desde filmes independentes armazenados em discos digitais até diários pessoais, blogs, fóruns, redes sociais, artigos científicos ou documentos administrativos – podem tornar-se inacessíveis a qualquer momento. É, por isso, fundamental trabalhar no sentido de evitar que o final do século XX e o princípio do século XXI se transformem num “buraco negro” da memória coletiva da Humanidade, numa era sem vestígios legíveis para os historiadores do futuro.

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ANEXO

(© Fernando Boavida Fernandes)

02/02/2026

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Fernando Boavida Fernandes

Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sendo docente do Departamento de Engenharia Informática. Possui uma experiência de 40 anos no ensino, na investigação e em engenharia, nas áreas de Informática, Redes e Protocolos de Comunicação, Planeamento e Projeto de Redes, Redes Móveis e Redes de Sensores. É membro da Ordem dos Engenheiros. É coautor dos livros “Engenharia de Redes Informáticas”, “Administração de Redes Informáticas”, “TCP/IP – Teoria e prática”, “Redes de Sensores sem Fios” e “Introdução à Criptografia”, publicados pela FCA. É autor dos livros “Gestão de tempo e organização do trabalho” e “Expor ideias”, publicados pela editora PACTOR.

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