Bush, Trump e Netanyahu: a mesma luta

 Bush, Trump e Netanyahu: a mesma luta

(Créditos de imagem: Saifee Art – Unsplash)

Mais de uma vez, a Agência Internacional de Energia Atómica afirmou que o Irão não possui armas nucleares. Sendo isto verdadeiro, e nada existindo para o não considerar, estamos perante a repetição da História que levou os Estados Unidos da América (EUA) a intervir e invadir o Iraque. Nessa altura, eram as armas de destruição massiva, sobretudo bacteriológicas, que estavam em causa. A estas juntava-se o alegado apoio do Iraque aos autores do ataque às Torres Gémeas, em 11 de Setembro de 2001.

George W. Bush, Donald Trump e Benjamin Netanyhau. (pt.wikipedia.org)

Ao longo de dois anos, o governo de George Walker Bush foi construindo uma narrativa, da autoria de Dick Cheney e de Donald Rumsfeld, respectivamente, vice-presidente e secretário da Defesa, que invocavam aqueles argumentos para justificar a invasão. Como se não bastasse, ainda lhe acrescentaram outro ingrediente: a compra de urânio à Nigéria, facto que, logo na altura, se mostrou infundado por um agente da CIA (Central Intelligence Agency), especialmente destacado para o comprovar.

A Operação Choque e Pavor, levada a cabo pela aviação da coligação então constituída, revelou-se a autora da destruição das principais cidades iraquianas, dando origem a uma onda de refugiados, só ultrapassada mais tarde pelos acontecimentos da Faixa de Gaza. A finalidade foi o acesso ao petróleo iraquiano e, de passagem, a partir deste acontecimento, elaborar a doutrina que passou a vigorar de “guerra preventiva”, argumento agora utilizado por Donald Trump no ataque ao Irão.  

Bagdá, a capital do Iraque, alvo de explosões que afectaram milhares de civis durante a invasão norte-americana em 21 de Março de 2003, no âmbito da ”Operação Choque e Pavor”. (x.com/FotosDeFatos)

Vinte e três anos depois (de 20 Março de 2003 a 28 de Fevereiro 2026), a história repete-se, desencadeada agora pela coligação EUA-Israel. Se os EUA, como aconteceu com a Venezuela, desejam poder manejar um governo que esteja às suas ordens para melhor fazer uso do petróleo que está ao seu cuidado, o objectivo de Israel é ver-se livre das influências de uma potência regional para passar a ser ele a fazer valer a sua vontade.

Como já aconteceu com o Japão, no Extremo Oriente, e a Itália, na Europa, nos tempos da democracia cristã, ter um país armado até aos dentes, como principal potência daquela região, é de vital importância para os interesses dos EUA, na perspectiva de continuar a ser ele a dominar a economia mundial e, por via disso, continuar a ser o dólar a moeda de troca e de venda.

Veja-se: com as reservas de petróleo da Venezuela, da Arábia Saudita e do resto dos países do Médio Oriente sob sua alçada, pode decidir quem compra e a que preço, continuando a ser ele quem comanda as operações da economia mundial, visto o seu principal opositor, a China, ser importador desse produto, precisamente da Venezuela e do Irão.

O Estreito de Ormuz é considerado um dos principais pontos de tráfego
de petróleo mundial. (economia.uol.com.br)

Por outro lado, a Rússia viu, deste modo,  legitimada a invasão da Ucrânia, tendo caído por terra, em 28 de Fevereiro, todos os argumentos justificativos da aplicação das sanções que lhe foram impostas pela UE, além das acusações de que Vladimir Putin foi alvo. Salvo as decisões da Espanha e da Grã-Bretanha (Reino Unido1) de proibir a utilização das suas bases para ataques ao Irão, os restantes países mantiveram-se numa atitude reservada, como se nada fosse com eles.  

As elites ocidentais, pelo menos uma parte, embora sejam virtualmente defensoras do conjunto de regras que regulamentam o relacionamento entre os países, o designado “direito internacional”, logo que foram chamadas a pronunciar-se sobre os acontecimentos, renderam-se de imediato ao pragmatismo – o que é, é. Afinal, se o Mundo estava a habituar-se a viver sem regras, por que razão haviam de continuar a invocar essas regras para julgar o que se estava a passar à sua frente?

“Mad Max”: épico notável, distopia possível. (outraspalavras.net)

Basicamente, passaríamos a ser figurantes de um distópico e pós-apocalíptico “Mad Max”, a imagem do planeta onde, como se sabe, a aplicação da lei passou a ser, nem sequer a excepção, uma aberração anedótica. Sobrara Max, o ex-polícia que ia procurando pôr ordem no caos. Apesar de tudo, e de essas elites terem nascido e crescido num mundo conflituoso, mas organizado, isso não foi suficiente para ficarem invulneráveis ao enxame de mensagens que lhes chegavam de todo o lado, principalmente das redes sociais, rendidas a Dementus, o senhor da guerra.  

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

A mudança de regime – trocar uma teocracia por uma democracia liberal –, invocada por Trump como uma necessidade, constitui um argumento falsificado, vindo de quem vem, devendo ser, por isso, veementemente repudiado. É também a expressão de um pensamento que lhe poderíamos atribuir: “Se não me deram o Prémio, faço a guerra.”

Se estes acontecimentos fossem a conclusão de uma linha de pensamento histórico, a instauração de regimes democráticos poderia, similarmente, ser feita pelas cegonhas, que transportariam no seu bico não bebés, mas bombas carregadas de igualdade e bons sentimentos. Porém, e é isso o que os cronistas de todas as épocas têm deixado escrito, são os povos que decidem quando e como querem mudar de regime ou mudar o regime — cada regime dura o tempo que os povos levam a rejeitá-lo, a substituí-lo ou a retocá-lo, mas ninguém tem autoridade para o fazer em vez deles. E não será decapitando a cúpula do poder iraniano, como já aconteceu,  que a dupla EUA-Israel consegue impor as lideranças que mais lhe convém. Isto é tão verdade em Teerão, como em Telavive ou em Washington. 

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Nota da Redacção:

1 – O Reino Unido está localizado na Grã-Bretanha. A 31 de Janeiro de 2020, ocorreu a saída formal do Reino Unido da União Europeia, após mais de três anos e meio do referendo do Brexit.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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05/03/2026

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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