Chega de “Politics of Fear”
(illiberalism.org)
O fenómeno populista pode ser compreendido mediante variadíssimas abordagens. Algumas sublinham a sua dimensão ideacional, como fazem as de Cas Mudde e de Cristóbal Rovira Kaltwasser; outras privilegiam o plano filosófico e discursivo, como nas propostas de Ernesto Laclau e de Chantal Mouffe; outras ainda, sobretudo por Benjamin Moffitt, analisam o populismo enquanto estilo performativo.


Hoje, porém, importa considerar uma outra via: a discursiva, desenvolvida por Ruth Wodak na obra “The Politics of Fear: What Right-Wing Populist Discourses Mean”. A autora identifica um padrão retórico recorrente nos discursos populistas – uma sequência relativamente estável de movimentos que tende a organizar-se em quatro momentos: o escândalo, a negação, a vitimização e a mobilização do medo.
Convém percorrê-los brevemente.
- O primeiro movimento consiste no proferir de uma afirmação escandalosa, formulada de modo a provocar choque, indignação ou uma reação emocional intensa. O objetivo, para lá de afirmar uma posição política, é perturbar o espaço discursivo e deslocar o debate para um terreno altamente emocionalizado.
- Segue-se um segundo passo: a recusa ou relativização do que foi dito. Quando confrontados com críticas – ou com a verificação factual – às suas afirmações, os agentes populistas tendem a negar a intenção que lhes é atribuída, a reinterpretar as próprias palavras ou a relocalizar o foco da discussão.
- O terceiro momento corresponde à vitimização. A crítica recebida é então enquadrada como perseguição, censura ou tentativa de silenciamento por parte de elites políticas ou institucionais. O ator populista, que se apresenta como alvo de um sistema injusto, procura assim reforçar a narrativa antagonista entre “o povo” e “as elites”.
- Surge, por fim, o quarto estágio: a ativação do medo. O segundo momento, à boleia do fôlego interpretativo que lhe é imputado no terceiro, é no quarto reinterpretado como indício de uma ameaça mais ampla – à liberdade, à democracia ou à segurança coletiva. O objetivo último, claro está, é a mobilização emocional dos apoiantes e o reforço da perceção de cerco.

Poder-se-ia recorrer a exemplos hipotéticos para ilustrar este mecanismo. Mas não é necessário: episódios recentes da política portuguesa permitem observá-lo com particular nitidez.
Exploremos um que teve lugar na semana passada.
Num debate solicitado pelo Chega sobre alegadas acusações de racismo na sociedade portuguesa, André Ventura encerrou a sessão acusando deputadas de partidos à esquerda – nomeadamente, Isabel Moreira, do Partido Socialista, e as líderes parlamentares do Livre e do Partido Comunista Português, Isabel Mendes Lopes e Paula Santos – de ignorarem crimes cometidos contra mulheres quando os suspeitos são estrangeiros. A intervenção sugeria que estas deputadas preferem “proteger criminosos” a defender vítimas. Cá está, com pompa e circunstância, o primeiro momento descrito por Wodak: uma acusação deliberadamente escandalosa, capaz de inflamar o debate parlamentar.

Populist Discourses Mean”, da autoria de Ruth Wodak.
(Direitos reservados – populismstudies.org)
Perante estas afirmações, a social-democrata Teresa Morais, que presidia à sessão na qualidade de vice-presidente da Assembleia da República, sentiu-se na obrigação de evidenciar o óbvio: que nenhuma mulher no parlamento deseja ocultar violações ou proteger violadores, sejam eles quem forem. Seguiu-se, de imediato, o segundo movimento: Ventura contestou a intervenção da presidente da sessão, argumentando que cabia às bancadas – e não à Mesa – fazer discurso político, afirmando mesmo que Teresa Morais constituía “uma vergonha” para as funções que exercia. Deslocou-se o foco da intervenção de André Ventura, que havia sido descabida e desumana, para o reparo de Teresa Morais, natural num qualquer democrata humanista que se encontre perante tais alarvidades.

O terceiro momento – a vitimização – emergiu logo depois: o deputado do Chega, Filipe Melo, abandonou o seu lugar na Mesa para se juntar à bancada do seu partido. Durante o trajeto, dirigiu-se repetidamente à vice-presidente com gestos provocatórios, enviando-lhe “beijos” num registo ostensivamente desrespeitoso. É uma atitude com marca de autor: em dezembro, por gestos do mesmo calibre, Filipe Melo foi visado pela Comissão Parlamentar de Transparência.

Reconstituída e na plenitude das suas forças, a bancada do Chega iniciou-se numa ronda de protestos ensurdecedores. Teresa Morais reagiu de imediato: “Senhor deputado Filipe Melo, faça o favor de ficar calado, porque já toda a gente percebeu que o senhor deputado está na Mesa a fazer trejeitos infelizes e depois sai da Mesa quando lhe apetece para vaiar a Mesa.” O episódio, que abunda em condutas impróprias por parte do Chega, culminou com a saída coletiva dos próprios deputados do Chega antes do encerramento da sessão.
Pensará o leitor, aqui chegado, que está em falta a disseminação do medo para que se feche a quadra wodakiana. E que, assim sendo, não estamos perante um caso que descreva com precisão o processo de que a autora nos fala. Desengane-se: as mensagens de alarme tornaram-se visíveis no dia seguinte – através de várias publicações, oriundas de vários membros e simpatizantes do Chega, nas redes sociais. Filipe Melo, autor de quatro delas, reinterpretou o episódio como prova de um alegado autoritarismo institucional: a atuação da presidente da sessão foi descrita como “pidesca”, associada a “tiques ditatoriais”, protagonista da deslocação de um conflito parlamentar para um sinal de ameaça à liberdade política do partido.

Aqui estão eles. By the book. Um por um: escândalo, negação, vitimização e mobilização do medo.
O aspeto mais relevante, contudo, reside no facto de não se tratar de um episódio isolado. Antes pelo contrário: acontecimentos deste tipo surgem com tal frequência que se tornam quase rotineiros. Não é necessário aguardar por grandes acontecimentos para o reconhecer; basta observar, com a atenção devida, o funcionamento diário da política mediática e parlamentar.
Se, como diz Cas Mudde, “combater a ultradireita não fortalece necessariamente a democracia liberal, mas fortalecer a democracia liberal irá, por definição, enfraquecer a ultradireita”, empenhemo-nos coletivamente no robustecimento da maior invenção social que a História já testemunhou. Agora, antes que seja tarde demais.
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Nota do Director:
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12/03/2026