Crónica da China: 15.º dia
(© RUNA – Rute Norte)
Praça Tianfu / Museu de Chengdu / Rua Chunxi
Hoje é quinta-feira, 23 de abril de 2026.
Despertar às 5h30, pequeno-almoço às 6h10.







É preciso passar o QR Code no retângulo branco, em baixo. Diz ali “Scan QR Code”.
E o círculo amarelo ao centro, que diz “Touch here”, é uma versão simplificada do símbolo da cidade de Chengdu: é o chamado “Pássaro do Sol”.

O nome oficial “Pássaro do Sol” é “Ornamento de Ouro do Sol e dos Pássaros Imortais”. E é um dos símbolos mais importantes e antigos da cidade de Chengdu. Trata-se de um disco fino feito de ouro (folha de ouro), com apenas 0,02 centímetros (cm) de espessura e 20 gramas de peso, 12,5 cm de diâmetro. Foi descoberto em 2001, no sítio arqueológico de Jinsha, aqui em Chengdu. Tem cerca de três mil anos e pertence à antiga civilização de Shu (período dos Estados Combatentes). O design deste artefacto é muito rico em simbolismo:
no centro, há 12 pontas do Sol que representam os 12 meses do ano ou os 12 períodos do dia na cosmologia antiga; ao redor do Sol, existem quatro pássaros a voarem no sentido anti-horário – eles representam as quatro estações (primavera, verão, outono e inverno) ou os quatro pontos cardeais.
Este design reflete a antiga lenda chinesa de que o Sol era carregado através do céu por pássaros. Em 2005, o governo chinês escolheu-o como o símbolo nacional do património cultural da China. Tornou-se, assim, a representação e o símbolo de todos os tesouros históricos do país, e foi escolhido entre 1600 alternativas.1
Este ornamento está exposto no museu de Jinsha, aqui em Chengdu, e espero visitá-lo em breve.

Eu já estava dentro do metro quando me lembrei de tirar este print do caminho. Linha 9 do metro até à estação Incubation Park e, depois, linha 1 até ao museu.

Cada estação tem dois funcionários para anunciar que as portas vão abrir ou fechar, bem como para gerir as filas de passageiros ou para controlar o fluxo destes.


Esta placa indica: “Acelerar o desenvolvimento do transporte ferroviário urbano, rumo a uma vida melhor.”




É de louvar o esforço na cidade de Chengdu – e, particularmente, do metro – em colocar tudo inteligível para os estrangeiros. Por isso, consegui andar tantas vezes de metro. Mas, enfim, não é “Intellegent”, é “Intelligent” 🙂.

Novamente, o “Pássaro do Sol”, na parede.


A linha 1 do metro é a mais antiga em Chengdu, começou a funcionar em 2010.






A estátua de Mao Zedong (1893–1976) – também conhecido como Mao Tsé-Tung em transcrições mais antigas. É uma figura controversa: foi responsável pela “Grande Fome” (1959–1961), resultado da sua política do “Grande Salto em Frente”. Estima-se que tenha causado milhões de mortes (as estimativas variam bastante, mas são sempre muito elevadas, entre os 15 e os 45 milhões de pessoas). E nunca mais me esqueci do livro que li, de uma mulher chinesa – Jung Chang – que viveu durante a Revolução Cultural (1966–1976); o livro chama-se “Cisnes Selvagens – Três Filhas da China” (em Inglês: “Wild Swans: Three Daughters of China”), o qual narra a história de três gerações de mulheres da mesma família (avó, mãe e filha) durante estas duas épocas, da “Grande Fome” e da “Revolução Cultural”, esta última marcada pela perseguição de intelectuais e de professores, pela destruição de património cultural, pela forte repressão política e pelo controlo do Estado, com purgas internas. O livro é muito marcante e inesquecível, e relata detalhadamente os horrores vividos durante a época maoista. Mas o Mao Zedong consolidou o Estado chinês moderno, após décadas de guerra civil, e aí está a sua estátua. Moral da história: mata quem quiseres, o que interessa é que avançaste e toma lá uma estátua.


Uma escultura urbana chinesa contemporânea, com uma versão simbólica e estilizada do “Pássaro do Sol”. É mais conceptual do que representacional. Pega no conceito do círculo solar, simplifica-o para uma forma geométrica dourada e elimina a leitura direta das aves.
No entanto, esta escultura (são duas: na foto anterior, atrás de mim, vê-se a outra) está deliberadamente aberta a outros símbolos tradicionais, ao mesmo tempo. Nela também coexistem referências a dragões, nas fontes de água (que agora não estão ligadas). Nesta escultura, o dragão de 40 metros simboliza o rio Amarelo. Na outra, o dragão de 58 metros simboliza o rio Yangtzé. Numa das fotos abaixo, irei explicar isto.
Na parte de baixo, tem lojas e o acesso ao metro.


Esta placa explica as esculturas centrais da praça e fala de outro aspeto que só conseguimos ver do ar: o símbolo do Yin-Yang. O Yin-Yang refere-se ao equilíbrio entre forças opostas, fluxo e transformação, prosperidade e continuidade.

A placa acima diz o seguinte: “[O Pássaro de Sol, os dragões e o símbolo do Yin-Yang] […] formam uma trindade da paisagem artística do Taiji, sugerindo a harmonia natural entre o céu, a terra e o ser humano, bem como a contribuição de Chengdu, enquanto centro de origem da antiga civilização nas regiões superiores do rio Yangtzé, para os dois principais dragões culturais dos rios Yangtzé e Amarelo.”
Na placa, a frase “cultural Dragons of the Yangtze River and the Yellow River” não se refere a dois dragões literais, mas a uma metáfora cultural chinesa. Na cultura chinesa, o dragão é um símbolo de poder e autoridade, prosperidade e vitalidade, origem civilizacional, ligação entre Natureza e ordem cósmica. Ou seja, ‘dragão’ pode significar uma civilização, uma tradição, não um animal. Os dois “dragões culturais” referem-se ao rio Amarelo (que é, tradicionalmente, considerado o berço da civilização chinesa clássica, associado ao desenvolvimento da agricultura e à escrita antiga); e ao rio Yangtzé, que é associado ao desenvolvimento económico e cultural posterior.
Assim, “dragões”, neste caso, significa duas grandes forças civilizacionais que moldam a identidade da China. A cidade de Chengdu é, portanto, apresentada como um centro antigo importante ligado simbolicamente a essas duas grandes tradições culturais (o Yangtzé e o rio Amarelo) dentro de uma visão mais “cosmológica” (céu–terra–humano / Taiji).
E o que é o Taiji? Cito o sítio eletrónico “The Academy of Contemporary China and World Studies”: “De acordo com uma antiga crença chinesa, o Taiji é a origem do universo, no qual todos os fenómenos são compostos por dois aspetos elementares: yin e yang. Os dois são opostos, mas equilibram-se, contêm-se mutuamente e interconvertem-se. Tudo no universo continua em ciclos sob as forças dialéticas do yin e yang. O símbolo do Taiji ilustra esse conceito.
O símbolo é circular, representando a origem e a unidade do universo; uma curva em forma de S divide o símbolo em duas partes semelhantes a peixes: o “peixe” preto representa o yin e o branco o yang; dentro do peixe yin há uma mancha branca, significando que o yang existe no yin; e dentro do peixe yang há uma mancha preta, significando que o yin existe no yang. Os peixes yin e yang estão conectados ponta a ponta, representando a interconversibilidade do yin e do yang, bem como a circulação do universo.
Apesar da sua simplicidade, o símbolo expressa graficamente os ricos significados de harmonia, simetria, equilíbrio, estabilidade e circulação, que norteiam uma visão de Mundo e do Universo – uma característica definidora da civilização chinesa. O símbolo também é utilizado em muitos outros países, por exemplo, nas bandeiras nacionais da Coreia do Sul e da Mongólia.2

Há nove anos, em 2017, fiz cerca de uma centena de quilómetros de bicicleta ao longo do rio Yangtzé e também uma soberba caminhada por um desfiladeiro.


Entremos, pois, no Museu de Chengdu. Já temos, todos, uma breve lição sobre o significado da escultura contemporânea na Praça Tianfu – que não tem autor, em lado nenhum é indicado quem imaginou esta trindade numa praça parcialmente afundada, o que cria um grande efeito – e vamos então à História detalhada no museu. Vou optar por fotografar uma série de placas, com textos, para quem quiser ler. É impossível explicar todo o museu nesta crónica, nem ninguém teria paciência. Os meus caros leitores terão de meter-se num avião e de ir, pessoalmente, ao Museu de Chengdu. Mas, se lerem estas placas, já ficam a saber muita coisa.





















Quero aquele cálice!! Alguém que faça uma cópia daquele cálice e o ponha a vender na loja do museu!





















Estou estafada. Entrei no museu às 10h00, é agora meio-dia. Li tudo ou praticamente tudo. Adoro museus. E este tem entrada gratuita, foi apenas preciso mostrar o passaporte. Em todas as atrações – museus e templos – é preciso mostrar o passaporte.

Ainda falta a cave, dentro do museu, com animais taxidermizados.

As doações de Kenneth Eugene Behring consistem, sobretudo, em animais reais preservados através de taxidermia.

Eis o futuro dos zoos. Já em Nova Iorque, visitei o Museu de História Natural, também com animais taxidermizados, que fazem sempre sucesso entre crianças e adultos. Para quê manter os animais fechados uma vida inteira, entre grades, para entretenimento humano?



Ando à procura de uma t-shirt. Nas minhas viagens gosto de ficar com uma t-shirt do país que visito. Alguma vez irei comprar uma t-shirt dos Estados Unidos da América? Então, estes chengduenses (qual será o gentílico de Chengdu?) não sabem fazer t-shirts?! Pelo menos, em Pequim sabem, porque hoje estou a usar uma com pandas – que, curiosamente, não há à venda no Centro dos Pandas de Chengdu – esta comprei-a em Pequim, no jardim zoológico.
Eu visito habitualmente os jardins zoológicos, nos países por onde ando, para ver em que condições são mantidos os animais. Também espero visitar o zoo de Chengdu. E gostaria de comprar uma t-shirt de Chengdu, feminina, justa; não uma larga, de homem. E chinesa! Mas está complicado.







15 yuans pela bebida (um chá frio) e 89 pela pizza. Estou a usar o câmbio de 0,12 euros, pelo que ficaram em 1,80€ e 10,68€, respetivamente. Tive de pagar adiantado; não me trariam o meu pedido, se não pagasse primeiro.








Esqueci-me de tirar um print do percurso que vou fazer agora, até à rua Chunxi. São três ou quatro quilómetros. Custou-me entrar no caminho, ainda fui dar uma volta extra e andei perdida. Para grande alegria minha, quanto mais tempo de bicicleta, melhor.



Acho que estou em contramão, mas o GPS manda-me por aqui, e ninguém me liga, ninguém me apita. Será que tenho de ir por ali, pelo jardim, à direita?

Agora sim, no caminho certo.








O passeio de bicicleta durou uma hora (com muitas paragens para observar e fotografar) e estou a chegar, agora, à rua Chunxi. As bicicletas são aí proibidas, pelo que estacionei a minha aqui ao lado. Paguei 5,5 yuans (0,66€). Porém, antes de pagar, a bicicleta começou a apitar porque estava mal estacionada. Espertinha, heim? Estacionei-a no meio de motas e de bicicletas, mas tive de chegá-la para perto da parede, porque onde estava não me permitia encerrar o aluguer e pagar. Nunca tinha ouvido uma bicicleta a gritar, zangada. Mas ela cumprimenta-me sempre quando eu chego: “Hellooo!” Grita ela na sua vozinha, quando a desbloqueio no telemóvel. A certa altura, comecei a responder-lhe “hellooo” com a mesma entoação. E também se despede, quando finalizo a utilização. Nunca tinha conversado tanto com bicicletas, em toda a minha vida.




















Paguei 4,5 yuans pela viagem de metro (0,54€). Recordo que o preço é calculado consoante a distância que percorremos.








Notas:
1 – “Sun and Immortal Birds Gold Ornament, a symbol of China’s cultural heritage” (19 abril 2023). CCTV – China Central Television. Página consultada a 2 de junho de 2026.
2 – “Taijitu Symbol (Taiji’s Yin and Yang Symbol)” (29 agosto 2024). The Academy of Contemporary China and World Studies. Página consultada a 2 de junho de 2026.
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Nota do Director:
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09/07/2026