Edgar Morin: pensador e cidadão planetário

 Edgar Morin: pensador e cidadão planetário

Edgar Morin (Créditos fotográficos: Eduardo Irujo – es.babelio.com)

Edgar Morin, um dos mais notáveis pensadores do nosso tempo, que nasceu em Paris a 8 de Julho de 1921,  faleceu a 29 de Maio de 2026, com 104 anos de idade. Justifica-se este artigo evocativo do  pensamento e da valiosa obra deste autor de origem judaica, mas que ficou também conhecido como defensor da causa palestiniana, e alguém que teve fortes ligações com Portugal.

O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, faleceu a 29 de Maio
(sexta-feira),  com 104 anos. (aps.pt)

Conheci pessoalmente Edgar Morin em Coimbra, em 24 e 25 de Novembro de 1998, quando ele participou numa iniciativa promovida pela Associação de Professores de Filosofia (APF), co-organizado com a Alliance Française: “Encontros com Edgar Morin: Projecto de uma Epistemologia Complexa”. Como, nessa altura,  eu era dirigente da APF, tive oportunidade de partilhar a mesa de jantar com ele e pude conhecer quão bem conhecia a cultura de Portugal e o modo entusiástico como falava da nossa gastronomia, dos nossos vinhos e dos nossos queijos.

(Direitos reservados)

Os contactos de Morin com o nosso país começaram, no entanto, muito mais cedo. No início dos anos 60, veio a Portugal a convite de Alçada Baptista e de outros intelectuais ligados à publicação O Tempo e o Modo, Revista de Pensamento e Acção que lutavam contra a ditadura de Oliveira Salazar. Então, nasceu a amizade com António Alçada Baptista e com João Bénard da Costa. Depois, voltou cá várias vezes, nos anos 70, tendo até descrito a Revolução dos Cravos como um êxtase na História de Portugal e como exemplo do que deve ser uma revolução democrática.

Em Novembro de 2019, o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin visitou o Porto e Guimarães, tendo sido homenageado com o Doutoramento Honoris Causa atribuído pela  Universidade Lusófona. A sua última viagem ocorreu em Setembro de 2023, aos 102 anos, tendo participado em Lisboa em conferências sobre o humanismo e o futuro da geopolítica mundial.

Edgar Morin, enquanto pensador da liberdade, defendeu a democracia portuguesa. (sostenibles.org)

Por uma questão de curiosidade (ou de coincidência?), as  duas últimas obras deste autor publicadas em Portugal foram “O Esplendor das Amizades – A Experiência Portuguesa de Edgar Morin” (pela Gradiva), publicada no início de 2026 e, em finais de 2025, foi editado o livro “Lições da História – Podemos Aprender com o Nosso Passado?” (com a chancela das Edições Crítica). Devemos salientar que o livro “O Esplendor das Amizades” está centrado na relação histórica e afectiva com Portugal, com particular destaque para a sua amizade com António Alçada Baptista, podendo a obra ser vista como um testemunho da sua aproximação aos católicos inconformistas e como a evocação do seu combate à ditadura e ao nascimento da democracia, em Abril de 1974. 

A outra obra – “Lições da História”é um ensaio em que reflecte sobre os últimos 100 anos de História global que testemunhou. Das suas experiências vai extrair lições fundamentais, ensinando-nos que o improvável acontece e que os mitos influenciam a realidade; e também como podemos navegar pela incerteza, construindo um futuro melhor. Temas presentes noutras obras suas.

Quando evocamos Edgar Morin, associamo-lo sempre à expressão
“pensamento complexo. (pt.wikipedia.org)

Edgar Morin é reconhecido como um  dos pensadores mais emblemáticos e mais importantes dos séculos XX e XXI. E quando evocamos o seu nome associamo-lo sempre à expressão “pensamento complexo. Foi co-diretor, em Paris, durante quase duas décadas, do “Centre d’Études Transdisciplinaires. Sociologie, anthropologie, sémiologie (com a sigla CETSAS) – mais tarde, CETSAH (“Centre d’Études Transdisciplinaires. Sociologie, anthropologie, histoire”) – ligado à “École des Hautes Études en Sciences Sociales” e ao “Centre National de la Recherche Scientifique” (CNRS).

Refira-se que, no início da década de 1950, Morin iniciou seus trabalhos no CNRS de Paris, onde permaneceu largos anos, tendo sido nomeado Director de Investigação e, posteriormente, Director Emérito. Em 2008, foi fundado o Laboratório Edgar Morin. Algum tempo antes, em 1999, tinha sido criada a Cátedra Itinerante UNESCO “Edgar Morin” para o ensino do Pensamento Complexo.

Ecologia integral e pensamento complexo: pontos de encontro do Papa Francisco e de Edgar Morin. (vaticannews.va)

Quando completou 100 anos, muitas instituições e personalidades o homenagearam, merecendo destaque a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o Papa Francisco. Nessa altura, por mensagem enviada à UNESCO, o Papa Francisco afirmou que Edgar Morin se destacava não apenas como uma “testemunha privilegiada de profundas e rápidas mudanças sociais”, mas também como um “analista atento que, com discernimento, suscitou esperanças e alertou para os possíveis riscos para a Humanidade”.

O Papa Francisco salientou ainda o papel de Morin em defesa de uma “política de civilização” e da cooperação entre os povos, assim como a construção de uma sociedade mais justa e humana, contribuindo para a renovação da democracia.  Francisco, nessa data, aludiu ainda à oferta de Morin – durante um encontro dos dois, em Junho de 2019 – para participar do Pacto Educativo Global”, iniciativa lançada pelo Papa e interpretada por muitos como um incentivo para o desenvolvimento de uma grande pedagogia para o novo cidadão planetário.

(Direitos reservados)

Edgar Morin é autor de muitos livros, publicados de 1977 a 2005. Muito lhe devemos relativamente aos contributos que nos deixou em diversas áreas:  Ciências da Educação, estudo dos media, Ecologia, Ciência Política, Antropologia, estudo de sistemas biológicos complexos, Sociologia, História, Filosofia e Epistemologia, Economia, entre outros domínios do conhecimento.  Deve ter escrito à volta de 80 obras. Curiosamente, não se considerava sociólogo, nem antropólogo, nem filósofo, nem professor ou escritor: “A melhor definição seria não ter definição. A palavra ‘filósofo’ talvez me conviesse bem, mas hoje a filosofia, no geral, fechou[-se] em si mesma e a minha é uma filosofia que observa o mundo, os acontecimentos, etc. Sou muito marginal, quer dizer, sou marginal em todas essas áreas. Então, sou aquele que querem que eu seja”, declarou em entrevista à revista Fronteiras do Pensamento, em 2015.

Deixamos uma pergunta do próprio Morin como interrogação final: “De que serviriam todos os saberes parciais senão para formar uma configuração que responda às nossas expectativas, aos nossos desejos, às nossas interrogações cognitivas?”

Num próximo artigo, voltaremos a falar da obra deste autor, porque, de facto, há muito por dizer.

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04/06/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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