Eleições e candidatos à Presidência

 Eleições e candidatos à Presidência

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Aos candidatos à Presidência da República deve-se pedir que nos digam como entendem que o país deve ser governado, respeitando a Constituição. É aproveitando esta ocasião que têm a oportunidade de transmitir o seu ponto de vista relativamente ao que se está a passar nos vários sectores da governação, da Justiça à Saúde. A partir da altura em que iniciar o seu mandato, passará a ficar limitado nesse aspecto, embora tenha feito saber o que pensa da acção governativa. Por isso, é despropositado acusar este e aquele de não se restringirem à função presidencial. Isso há-de fazer-se quando estiver em funções, quando tiver de apreciar o que lhe chega à secretária para apor a sua assinatura. Até lá, até 16 de Janeiro, os eleitores desejam conhecer como cada um se posicionaria sobre os diferentes assuntos e qual é a diferença em relação ao que o governo está a fazer.  

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É ao dar a conhecer o seu pensamento que os eleitores poderão formar uma opinião sobre o que os espera e sobre o que poderão contar do candidato. Depois de 18 de Janeiro, trata-se de cumprir e de fazer cumprir a Constituição. Ora, é no fazer cumprir o que nela está escrito que reside o aspecto mais importante da magistratura do Presidente da República. Fazer cumprir significa ter o poder de mandar fazer diferente do que lhe foi apresentado; isso depende de como se interpreta a Constituição: a favor de quem trabalha ou a favor do topo da pirâmide social. É, por isso, nestas duas palavras que reside todo o poder do Presidente da República.   

Por serem do interesse da maioria dos portugueses, seria oportuno que se abordassem dois temas que caracterizam a sociedade: as desigualdades sociais e o seu correlato, a pobreza. Com 20% da população a ter um rendimento cerca de seis vezes maior do que o dos restantes 80%, em média, esta situação tem tido como consequência a existência de mais de quatro milhões de pobres, antes de receberem as suas prestações sociais, que passam a um milhão e setecentos mil depois do seu recebimento, sabendo-se que o limiar de pobreza, em 2023, foi de 542 euros mensais.

 (saudemaispublica.com)

Este é o difícil ponto de partida e muita da explicação do que se passa com a saúde da população – doenças oncológicas, obesidade, alcoolismo, tabagismo –, mas também de acontecimentos críticos da vida familiar, como a violência. Se a intervenção do candidato eleito conseguisse melhorar a situação encontrada em 2026, já teria valido a pena ter-se candidatado e ter ganhado a eleição.  

Portugal Desigual (ffms.pt)

Da lista de candidatos à Presidência da República e segundo as sondagens conhecidas, Gouveia e Melo, Marques Mendes, André Ventura e António José Seguro são os que têm maior probabilidade de passar à segunda volta das eleições. Das três famílias políticas presentes – extrema-direita, direita, centro-direita e centro-esquerda –, a António José Seguro competia-lhe o papel de representar o eleitorado de centro-esquerda e, no caso, de representar toda a esquerda, caso viesse a chegar à segunda volta. Porém, o seu desempenho até ao momento não é o que nos diz; não está a ser compreensível a quem Seguro se dirige. Sendo que, em princípio, se deve dirigir a todos os eleitores, quem se reivindica de ter sido secretário-geral do Partido Socialista (PS) tem a obrigação de começar pelos seus, dizer-lhes que a sua candidatura existe para defender os seus valores.  

(Créditos fotográficos: Marta Branco- pexels.com)

António José Seguro deve ter presente que os Portugueses já deram duas maiorias absolutas ao PS e, por isso, nada deve ter a recear ao apresentar-se como candidato de esquerda, mais precisamente, de centro-esquerda. O drama desta candidatura está, precisamente, na imprecisão com que se apresenta ideologicamente, supondo que essa é a maneira de conquistar as boas graças dos eleitores. Devia ter em conta que quem o vê e ouve percebe a hesitação: está perante um candidato indefinido, que não se sabe onde começa e onde acaba. Ora, em cargos políticos, o mais que se quer é saber quem é a personalidade: como se define na escala ideológica, o que pensa sobre os assuntos que interessam, que decisões tomaria em diversos cenários, qual foi a motivação para se ter candidatado e quais são as suas convicções políticas.  

António José Seguro esteve ausente dez anos da vida política activa. Desse período, não se conhece o seu pensamento sobre o que, entretanto, se passou no país. Para os eleitores, ele não existiu politicamente; foi uma ausência. Quando tomou a decisão de se candidatar, sabia que, na esquerda, nem uma parte significativa do seu partido o desejava, pensava noutro candidato, quem tinha condições inequívocas de poder ganhar as eleições. Era a essa expectativa que o candidato tinha a obrigação de responder porque é essa a sombra que o acompanha.

Declarando-se, desde logo, da esquerda que os eleitores identificam, dispunha de argumentos suficientes para convencer os eleitores do PS e uma parte do eleitorado de direita; isso bastava-lhe para, pelo menos, disputar a segunda volta. Tal como a situação se apresenta, e não contando com o empenho do que se chama aparelho do PS, como se viu noutras ocasiões, o esforço e a energia necessários para recuperar das insuficiências demonstradas até agora são enormes. O mais que se pode desejar é que António José Seguro mostre mais firmeza perante os adversários e convicções suficientes para convencer o eleitorado, a começar pelo que, naturalmente, lhe devia ser afecto. 

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Nota do Director:

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08/12/2025

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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