Ensaios sobre o direito de comentar e o risco de (nos) silenciar(mos) (1)
(cnnportugal.iol.pt)
Quando o silêncio arde mais do que o fogo e as palavras queimam mais do que a realidade
Se há coisas que aprecio é ver alguém bem vestido. E uma ministra que se apresenta numa conferência de imprensa impecavelmente vestida, ironicamente com um blazer vermelho, para comunicar – aos que, certamente, julgou serem “pés de microfone” – que “o Governo entendeu estender por mais 48 horas a situação de alerta face ao agravar dos incêndios”, ignorando Maria Lúcia Amaral que estava perante jornalistas. Mulheres e homens que ali estavam em representação dos cidadãos. Que têm o dever de questionar sobre o que um qualquer indivíduo gostaria de perguntar a quem alegadamente nos governa.
Num país onde as chamas regressam com a previsibilidade de um calendário maldito, a ausência da ministra da Administração Interna no terreno não é apenas uma escolha política, é um gesto que representa o desdém pelos que, no terreno, enfrentam o demónio, o inferno dos fogos, com meios que se revelam sempre escassos.

(portugal.gov.pt)
Enquanto bombeiros, agentes da autoridade e populações que se protegem com baldes cheios de água e de esperança e, em tempo real, os jornalistas procuram ser os mediadores entre o que arde e o que se apaga, entre o que se diz e o que se vive, o silêncio institucional instala-se como uma segunda calamidade. Recusar-se a responder aos jornalistas é mais do que abdicar do dever de prestar contas. Não visitar as zonas afetadas, certamente por falta de indumentária adequada, é mais do que ignorar o sofrimento. É manifestar publicamente, através da ausência, o desprezo por gente que também habita no país e que defende e faz prosperar Portugal.
É ainda interferir no trabalho de quem tenta documentar, informar e relatar. É, no mínimo, inquietante. A ministra, simplesmente, não está – nem física, nem discursivamente. E essa ausência pesa. Pesa sobre quem sofre, sobre quem luta, sobre quem trabalha, sobre quem espera (e, compreensivelmente, desespera); e sobre quem exige respostas.

Estar presente nos funerais de quem perdeu a vida numa guerra que, há mais de um mês, não dá tréguas, num campo de batalha onde apenas soldados combatem e os generais assistem à distância, confortavelmente instalados em salas com ar condicionado, debatendo estratégias sobre mapas limpos, enquanto os corpos se acumulam em terrenos que nunca pisaram. Enquanto homens e mulheres sucumbem nas cinzas de vidas ceifadas. Vidas de trabalho, vidas heroicas e resilientes de quem se mantém em lugares abandonados pelos diferentes poderes. Ir aos funerais e apresentar condolências nas redes sociais não é governar, não é estar em representação do povo – é fazer gestão de imagem com filtro institucional. É aparecer entre coroas de flores e hashtags, enquanto se evitam decisões. É política de presença sem presença política. Sem respeito pelo povo.
Um país em chamas exige presença
A discussão sobre o valor da presença de governantes durante crises não é nova. Contudo, ir e estar no terreno quando as catástrofes acontecem, se instalam, mais do que um ato simbólico, é um sinal de responsabilidade, de envolvimento e de respeito pelo sofrimento alheio. O povo imagina-se acompanhado e, mesmo que em silêncio, sente-se respeitado e ouvido quando vê representantes do Estado junto de si, partilhando o calor das chamas, as cinzas da destruição, o cheiro à morte da esperança, a dor, as lágrimas.

De Maria Lúcia Amaral, ou de um qualquer ministro da Administração Interna, especialmente num contexto de emergências, espera-se que tenha e assuma um papel de liderança visível, capaz de inspirar confiança, prestar esclarecimentos e transmitir orientações. O teatro de operações (como, institucionalmente, fica bem referir) dos incêndios não se resume a cinzas e a árvores ardidas. É, sobretudo, o palco onde se desenrola o drama humano, onde se cruzam o medo, a coragem e a esperança.
Quando Portugal assiste, impotente e angustiado, ao avanço destruidor dos incêndios, aos momentos de dor, de tensão e de resiliência, em que comunidades inteiras se unem para proteger o que é seu, enquanto as forças de combate se empenham numa luta quase sobre-humana, nestas alturas, espera-se que as figuras da liderança política nacional apareçam nos lugares onde a tragédia se desenrola, transmitindo conforto, solidariedade e coordenação. Contudo, quando a ministra da Administração Interna opta por não ir ao terreno inteirar-se da situação, acompanhar as populações, os profissionais e os voluntários que combatem os fogos, não é apenas uma ausência física que é notória, é, também, uma ausência simbólica que ecoa no sentimento coletivo e que levanta questões sobre o papel real de quem (nos) governa.

Este não é um espaço para referir o óbvio, o que há 50 anos se discute, mas é um dever reforçar que é fundamental que as políticas nacionais resultem da escuta ativa das necessidades dos agentes e dos cidadãos que defendem os territórios. Investir em prevenção, no reordenamento sustentado do território, em políticas de incentivo do regresso ao interior e criar sistemas de resposta mais eficazes e aproximar a liderança política do terreno são medidas que podem fortalecer a confiança e melhorar a resposta aos incêndios e/ou a qualquer outro tipo de catástrofe.
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Na verdadeira linha da frente: o povo, bombeiros, forças policiais e jornalistas
Felizmente, a ausência dos altos responsáveis políticos não apaga o brilho de quem está, de facto, na linha da frente. Os bombeiros merecem, ano após ano, o reconhecimento público pelo seu incansável (e impagável) esforço. São mulheres e homens que enfrentam o fogo com poucos meios e muitos riscos, motivados por uma vocação de serviço público e por um sentido de dever que ultrapassa qualquer remuneração. Muitos são voluntários, movidos pela solidariedade, colocando em risco a própria vida para salvar outras vidas humanas, animais, casas, empresas, florestas e culturas, etc. etc.

Junto dos bombeiros, as forças policiais – Guarda Nacional Republicana (GNR), Polícia de Segurança Pública (PSP) e outras – desempenham um papel fundamental. A GNR, através do apoio na logística das operações, garante a segurança dos acessos, evita a propagação do perigo e auxilia na evacuação das populações. A PSP, presente principalmente nas zonas urbanas, ajuda a manter a ordem e a proteger bens e pessoas. De novo mulheres e homens que também não se inibem de agarrar mangueiras, baldes e enxadas quando as vidas e os bens alheios justificam ir além das suas competências. Outras forças, como as equipas de sapadores florestais ou as brigadas municipais, colaboram no combate aos fogos e na prevenção, cada uma contribuindo para um esforço coletivo que se revela essencial.
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O poder hesita, o povo age
Além dos uniformes, há o povo. Pessoas comuns que, perante o avanço das chamas se organizam, criam linhas de contenção, protegem famílias, amigos, vizinhos e os animais, colocando em risco a própria vida. O sentido de comunidade é, nestes momentos, a verdadeira força matriz da resistência. São gestos anónimos, atos de heroísmo que sustentam o tecido social das aldeias e das vilas, muitas vezes, esquecidas durante o resto do ano.
São estas mãos sem insígnias, estes rostos sem cargos, que seguram o país quando ele ameaça ruir. Não aparecem em conferências de imprensa, não recebem medalhas, nem têm gabinetes com vista panorâmica – mas estão lá, sempre! São eles que improvisam rotas de fuga, que acolhem vizinhos (e jornalistas) em casas já cheias, que apoiam bombeiros e autoridades policiais fornecendo-lhe, sempre que é necessário e possível; no meio do caos, água e comida e que enfrentam o fogo com baldes de água, enxadas e coragem. Que mergulham em tanques para escaparem às chamas. Enquanto o poder hesita, o povo age.

E é nessa ação silenciosa que reside a coragem, o exemplo, o motivo e o sentido do nosso respeito. Porque, quando tudo arde, são estas gentes que permanecem, que nos defendem, que lutam. Reconhecer e agradecer pode não ser suficiente, mas sempre poderá ser um começo.
Estes cidadãos são os verdadeiros protagonistas, aqueles que, sem holofotes nem discursos, enfrentam o perigo e defendem vidas, património e a Natureza. São eles quem nos protege para que possamos continuar – mesmo que indiferentes –, por exemplo, a desfrutar das férias. A ministra da Administração Interna pode ter escolhido não ir ao terreno, mas não pode esquecer que a coragem, o compromisso e o sacrifício estão lá, todos os dias, representados pelo povo, por bombeiros, forças policiais e jornalistas.
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Não é espetáculo – é testemunho
Jornalistas que Maria Lúcia Amaral ignora. Quando os jornalistas se aproximam das frentes de fogo, não procuram apenas o calor das chamas, procuram o rosto da tragédia. São eles que escutam o agricultor que perdeu tudo, que acompanham o bombeiro exausto, que enfrentam as barreiras impostas por quem prefere o silêncio à transparência. A reportagem torna-se, então, mais do que relato: é denúncia, é memória, é resistência. Porque, quando o acesso à informação é negado, quando a informação é filtrada, o país perde o espelho e a verdade também arde.
Sim, os jornalistas também são mulheres e homens que se enganam na pressão de um direto. São pessoas que se emocionam, que choram e, se necessário, agarram igualmente num balde de água, numa mangueira, ajudam a transportar bens ou apoiam pessoas por detrás das câmaras.

Ignorar os jornalistas é enxovalhar a memória coletiva de um país que tem estado em chamas. São eles que, entre o fumo e o medo, constroem pontes entre o que acontece e o que precisa de ser contado. Não são figurantes – são testemunhas, cronistas, e por vezes, também socorristas. Quando o Poder se fecha em gabinetes, são os repórteres de imagem e os demais jornalistas que abrem janelas. Cada vez que se tenta silenciar uma pergunta, apaga-se um pedaço da verdade. Porque, sem imprensa livre, o país não vê, não escuta, não sabe. E quando isso acontece, não é só a floresta que arde – é a democracia que se consome.
Os jornalistas no terreno, os que o conhecem e os que o desbravam, não vão para ali só para mostrar o fogo, vão para dar rosto ao impacto, voz ao silêncio e contexto à tragédia. Estão ali para humanizar a catástrofe e, sim, se for essa a sua escolha editorial, para mostrar o rosto da senhora que perdeu a casa, do agricultor que viu o seu sustento virar cinza, do bombeiro que não dorme há três dias.

Estão ali para documentar a realidade crua, captar o tempo real: o cansaço, a desorganização, os meios insuficientes e os erros logísticos. Não, não é espetáculo, é testemunho. Estão ali para interrogar o Poder, mas o Poder não está lá, não vai ao terreno, talvez para não sujar as vestes. Procuram respostas, mas onde estão os responsáveis? Querem saber que medidas foram tomadas? Procurar entender o como e o porquê pela voz de quem detém a responsabilidade máxima, mas onde estão essas figuras? Entenderem porque se repetem as falhas, ano após ano? São perguntas que ficam sem resposta, o “Poder” não está lá e nem se deixa questionar, mesmo que nos frescos gabinetes. É, ainda e naturalmente, aos jornalistas que compete contrapor versões oficiais, interrogar, verificar e não só reproduzir. E para o fazerem com propriedade, é importante conhecerem, também eles, o terreno – ir lá para observar, questionar e escutar.
Sem os jornalistas nas serras, nas aldeias, nas florestas ou nos campos, as tragédias seriam invisíveis ou, no mínimo, ignoradas até ao ponto de se tornarem rotina.
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As palavras ditas sem os pés no chão queimado são combustíveis para a desinformação
Infelizmente, também há quem se arrogue jornalista (e/ou comentador) e escreve ou fala sem pisar o terreno. Palavras limpas de fuligem, palavras sem cheiro a pinhal ardido. Opiniões que ignoram o estalar da madeira, o silêncio das aldeias evacuadas, o cansaço nos rostos de quem combate, a dor da perda. Essas palavras, por mais eloquentes que pareçam, queimam mais do que informam. Não nascem da escuta, mas de supostas análises a números, dissertações e, inclusive pior, conspectos do trabalho alheio. As palavras ditas sem os pés no chão queimado são combustíveis para a desinformação. São discursos que de tão ignóbeis, após a leitura ou audição, se transformam também eles em cinza negra, mais devastadora do que a fica nos terrenos que acabarão por renascer com a determinação e a coragem das pessoas que teimam em não viver num país moribundo.

Num momento em que a confiança nas instituições se mede pela proximidade e pela transparência, o silêncio não é neutral. É uma forma de expressão – ou de repressão. As palavras ditas sem vivenciar o pulsar da alma de um povo e de um território devastado são sinónimo de mediocridade e de irresponsabilidade. Talvez por tudo isto, este seja o primeiro ensaio da série “Liberdade de (im)(ex)pressão”: porque há silêncios que dizem tudo e presenças e/ou palavras que nada dizem.
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25/08/2025