“Falaindes, falaindes e nada dizendes”

 “Falaindes, falaindes e nada dizendes”

(Créditos fotográficos: Bruno Martins – Unsplash)

(Créditos de imagem: Mystic Art Design – Pixabay)

Tinha um amigo que, em certas reuniões do Teatro Estúdio de Arte Realista – TEAR (um grupo de teatro de que fui fundador e, durante largos anos, seu director artístico), ironizava dizendo “Falaindes, falaindes e nada dizendes, calainde-vos!”, a propósito de emproados discursos de suposta reflexão intelectual, mas, verdadeiramente, movidos por afirmação de vaidades pessoais.

Creio que se ele fosse vivo, perante o descalabro e o miserabilismo da expressão oral e escrita da esmagadora maioria dos portugueses (para não falar da ainda mais reduzida capacidade de reflexão e de pensamento próprio), arriscava-se a que a sua ironia fosse tomada à letra, incluindo os erros gramaticais. E suscitaria reacções aparvalhadas de protesto por “querer silenciar as pessoas”, pois toda a gente parece ter opinião (e fundada) sobre tudo, mesmo que seja papagaio do que ouve ou lê (e só lê se a sintaxe for primária e o texto menos do que este mesmo).

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12/01/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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