Fantasia da participação

 Fantasia da participação

(Créditos fotográficos: Dim Hou – Pixabay)

A edição do jornal Público da passada segunda-feira, 30 de março, oferece-nos uma narrativa reconfortante: os jovens não desertaram da política; reinventaram, isso sim, a sua relação com ela. Mudaram o modus operandi, mas mantêm-se influentes, presentes e vivos no corpo democrático.

À primeira leitura, a constatação devolve-nos o fôlego. Convém, contudo, evitar dois equívocos: ficar pelas “gordas”, aliviantes mas enganadoras – este primeiro facilmente resolúvel, na medida em que basta carregar aqui; o segundo, num plano mais exigente, é deixar que a informação se instale em nós sem passar pelo crivo crítico que Jodi Dean nos oferece – precisamente, o risco que este texto se propõe contrariar.

(Créditos fotográficos: Mikhail Nilov – pexels.com)

O diagnóstico apresentado no referido artigo – e também no editorial – é claro: os jovens não participam menos; participam de forma diferente. O envolvimento terá migrado das estruturas partidárias e institucionais dos partidos para a fluidez dos protestos, das petições online e dos debates em fóruns digitais – com todas as vicissitudes que esta transferência comporta, conforme tratado neste mesmo espaço. Ainda que a leitura apresentada procure contrariar o estigma da apatia geracional, entendo que incorre numa série de confusões fundamentais: atividade com agência, ruído com poder, participação (de facto) com “participação” (online).

Jodi Dean (hws.edu)

É aqui que o conceito de “fantasia da participação”, desenvolvido pela teórica política Jodi Dean, se mostra particularmente elucidativo. Com esta formulação, a académica norte-americana aborda o mecanismo através do qual o capitalismo tardio, articulado com a cultura mediática e digital, produz a crença de que estamos no centro da vida política – quando, na verdade, permanecemos afastados dos seus centros de decisão. A participação nas redes sociais, nos trending topics ou nas petições online – esta miríade de gestos que o Público identifica como as novas formas de envolvimento – constitui, na perspectiva de Jodi Dean, uma forma de envolvimento que dificilmente ameaça o status quo. Fragmentada, individualizada e facilmente absorvida pelos ciclos de visibilidade, até gera a sensação de influência, mas poucas vezes se traduz em substância ou em poder.

Lisboa (Créditos fotográficos: Paulo Oliveira – pexels.com)
Jodi Dean, cientista política e professora nas Universidades de
Hobart e Willian. (lavrapalavra.com)

Aplicada ao retrato traçado pelo Público, esta lente esboroa o alívio inicial. O facto de os jovens canalizarem a sua energia para fóruns online e protestos episódicos não implica, per se, que estejam a transformar as estruturas que condicionam as suas vidas. Pode significar, com maior probabilidade, que participam num espaço onde a política assume um caráter predominantemente performativo: exibe-se a opinião, partilha-se a indignação, mas não se discute o Orçamento de Estado, a política habitacional ou o futuro do emprego. Logo vista sem complacência, talvez a “forma diferente” de participar seja o modelo que o próprio sistema encontrou para manter a juventude mobilizada, mas afastada dos locais onde o poder se exerce.

(Créditos fotográficos:  Ahmed Syed – Unsplash)

A tensão torna-se mais evidente quando confrontada com um dado que o próprio jornal não esconde, mas que as “gordas” tendem a secundarizar: a diminuição da participação eleitoral jovem. Em sucessivos atos eleitorais, a abstenção entre os 18 e os 34 anos atinge níveis que, se observados noutras faixas etárias, levantariam sérias questões sobre a legitimidade do sistema. Perante isto, torna-se difícil celebrar a deslocação do envolvimento para plataformas digitais – frequentemente reguladas por lógicas algorítmicas – ou para formas de protesto que, apesar da sua intensidade, são inconvertíveis em poder político duradouro.

Os jovens não estão ausentes; vemo-los todos os dias, de um lado para o outro. Estão nos cafés, nas discotecas, nos estádios. E estão nas redes sociais – um espaço de muita visibilidade, altamente convidativo à participação, mas controlado e limitado nos seus efeitos. Isto não é propriamente aliviante, muito menos quando comparado com o dia em que um artigo do jornal Público nos mostrará que a participação eleitoral juvenil subiu e se refletiu em escolhas conscientes e informadas. Então, e só então, poderemos dizer que a “forma diferente” de participar se tornou uma forma poderosa de decidir.

Até lá, leiamos Jodi Dean. E mantenhamos a inquietação.

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02/04/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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