Gentilmente capturados
(melhoresdestinos.com.br)
Theodor Wiesengrund-Adorno, pensador maior da Escola de Frankfurt e crítico incisivo da indústria cultural, observou que a liberdade para escolher produtos culturais se assemelhava à liberdade para escolher entre marcas de sabonete. Ou seja, escolhe-se, sem dúvida, mas sempre mediante um repertório previamente organizado. A aparente diversidade de opções encobre uma uniformidade estrutural que delimita, à partida, o campo do possível. Esta intuição, formulada a propósito do cinema, da rádio ou da música ligeira, revela, hoje, uma atualidade inesperada. E estende-se a domínios que, outrora, se julgava estarem à margem – entre eles, o próprio tempo livre.


O leitor conhecerá a dinâmica de funcionamento dos “foguinhos” do TikTok. Entendamo-los, a partir de agora e nas linhas que se seguem, enquanto um objeto meramente analítico. À superfície, trata-se de uma funcionalidade lúdica e aparentemente inofensiva: um marcador que assinala a continuidade diária da troca de vídeos entre dois utilizadores. Trezentos “foguinhos” equivalem a trezentos dias consecutivos de envio mútuo; a interrupção de um único dia basta para quebrar a sequência e reiniciar o contador. A mecânica é simples, quase infantil na sua apresentação, e repousa sobre uma premissa fundamental: o utilizador continua livre para decidir quando entrar na aplicação.
Mas é, precisamente, aqui que a questão se adensa. Um olhar atento notará que a mecânica em apreço influencia severamente a decisão de entrar ou não entrar no TikTok. Esta alternativa fundamental é subtilmente reconfigurada para um domínio mais comprometido e rígido: entrar agora ou entrar mais tarde. Não por força de uma imposição explícita, mas em virtude do desenho técnico da plataforma. Digamo-lo da seguinte forma: a liberdade para aceder (ou não) ao TikTok subsiste no plano formal, atendendo à possibilidade de, simplesmente, não entrar na aplicação. Porém, considerando a aliciante proposta de dar continuidade à contagem dos “foguinhos”, sofre um estreitamento substancial.

Também o gesto comunicativo, aqui menos orientado por uma vontade autêntica de falar com o outro do que pela necessidade de conservar esta continuidade aritmética, acaba por se esvaziar da densidade que lhe seria própria. Procura-se, de facto, entrar em relação com o outro? Ou apenas impedir que o contador reinicie – “envia-me algo, qualquer coisa, antes que os foguinhos se apaguem”? Se assim for, já não se trata, propriamente, de comunicação. Nem sequer de diálogo. É uma expressão rudimentar, aquém até da palavra plena, ainda que preserve a aparência de um qualquer vínculo.

Impõe-se, por conseguinte, uma última interrogação: será que a arquitetura das plataformas consente a sua livre deserção? Ou, antes, associa, discreta e silenciosamente, determinados custos à saída dos utilizadores? Em termos jurídicos e técnicos, nada impede o abandono do Facebook, do Instagram, do TikTok ou do X. A porta está aberta – e custa tanto, em teoria, quanto custou a entrada. Todavia, a liberdade formal não coincide necessariamente com a liberdade vivida. Desligar-se implica, não raras vezes, perder marcadores de presença, de continuidade relacional e de reconhecimento simbólico – elementos que, nas ecologias digitais contemporâneas, estruturam a pertença social.

Sendo a liberdade algo que se vive, mais do que algo meramente formal, a possibilidade de saída está também ela fragilizada. Podemos, em termos estritos, abandonar as plataformas; mais difícil é fazê-lo em condições que preservem uma experiência de liberdade plena. Quantos de nós asseguram vínculos, mais ou menos profundos, mais ou menos assentes em coexistências online, que se ressentiriam com um abandono total destes espaços? A deserção permanece concebível no plano abstrato. No plano concreto da vida social, aqui entendido como o mais valioso, é atravessada por custos simbólicos, relacionais e identitários que a tornam um gesto de retração e de isolamento social.
Caras e caros leitores: fomos gentilmente capturados. E ainda não reparámos.
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19/02/2026