Kundera e o peso das primaveras: Praga, Ucrânia e o eterno retorno da História
Imagem da invasão soviética que pôs fim à Primavera de Praga. (bbc.com)
Quis o destino que a publicação deste artigo coincidisse com o aniversário do fim da Primavera de Praga. Algumas datas pesam mais do que outras – não só pelo que celebram, mas também pelo modo como ressoam no presente. O 21 de agosto de 1968, quando os tanques soviéticos ecoaram pelas ruas empedradas de Praga, recordado agora em 2025, abre-se como um prisma através do qual se lê o mundo contemporâneo. Além disso, orienta o olhar que lançamos sobre a Ucrânia de 2022 – tudo numa semana em que o seu futuro próximo promete decidir-se. Entre Praga e Kiev – entre o sonho breve e a tragédia que se impõe – estende-se um fio invisível: o da liberdade que se anuncia leve, quase etérea, e da força que recai como peso inevitável.

Sabemos que o desfecho da Segunda Guerra Mundial condenou a Checoslováquia a viver sob a órbita da União Soviética e a mergulhou num regime autoritário de censura e opressão. Até que, em janeiro de 1968, Alexander Dubček ascendeu ao poder com a promessa de luz: de repente, a censura recuou; abriu-se espaço para partidos, associações e debates públicos. A Primavera de Praga foi o instante em que um povo ousou sonhar com reformas democráticas, com a possibilidade de viver como qualquer nação livre. Mas a esperança durou pouco. No dia 21 de agosto, tanques do Pacto de Varsóvia atravessaram as ruas de Praga para esmagar o que os reformistas checoslovacos chamavam de “socialismo de rosto humano”. O país regressava à opressão, à censura, ao cinzento habitual das ditaduras.

É neste choque entre liberdade e repressão que Milan Kundera situa a sua obra mais marcante, “A Insustentável Leveza do Ser” (de 1983). Logo nas primeiras linhas, o escritor recorre à ideia nietzschiana do “eterno retorno” para mostrar, de forma paradoxal, como a História nos pesa ou nos alivia: “Há uma enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez na História e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a cabeça aos Franceses. […] Poderá condenar-se o que é efémero? As nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia; mesmo a guilhotina.”
Kundera recorda-nos que há momentos breves – uma liberdade, um instante de esperança – que podem parecer leves, quase etéreos; mas é justamente essa sua efemeridade que intensifica o seu significado. A Primavera de Praga durou semanas, mas foi essa curta duração que a tornou extraordinariamente intensa: a esperança de liberdade tornou-se mais preciosa, mais dolorosamente memorável, precisamente porque acabou de forma abrupta, naquela manhã de agosto. Assim, a leveza da liberdade transformou-se, paradoxalmente, em peso, na medida em que a sua perda deixou marcas profundas na memória coletiva.

O escritor prossegue, agora duas páginas adiante: “Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza. […] Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é. Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar […] Que escolher, então? O peso ou a leveza?” Olhadas historicamente, estas palavras ajudam-nos a compreender a tensão central de 1968: a leveza da liberdade recém-descoberta confrontou-se com o peso esmagador da invasão soviética. A Checoslováquia foi subjugada, mas a memória da Primavera – e o peso do que foi perdido – permaneceu viva: ensina-nos ainda hoje que a liberdade só revela a sua verdadeira importância quando medida contra a opressão que a ameaça.
Mais de meio século depois, vemos esta mesma tensão ressurgir (não só, mas de um modo culturalmente muito próximo) na Ucrânia de 2022. A “leveza” da escolha, da autonomia e do desejo de integrar-se na União Europeia confronta-se com o “peso” da intervenção russa, que se articula em, pelo menos, três eixos: geopolítico – a resistência a movimentos de autonomia fora da órbita russa; imperial – a recusa em aceitar Estados vizinhos como soberanos; e ideológico – a legitimação da agressão através de narrativas de proteção e de defesa. Entre Praga e Kiev, o eterno retorno da História não se cumpre como uma repetição literal, mas como a recorrência de uma lógica imperial: a liberdade de um povo será sempre pesada quando desafia a força de um império.

O fio que une estas duas datas é, pois, o da dialética entre leveza e peso – a insustentável leveza do ser. A esperança efémera ilumina com nostalgia e a opressão inscreve-se como gravidade histórica. Entre o voo quase etéreo da liberdade e o esmagamento da violência, joga-se a condição europeia: dividida, suspensa, entre o encanto das primaveras e o fardo das invasões. É neste equilíbrio instável que se percebe que a liberdade é um direito, mas é também um fardo que exige coragem, memória e responsabilidade.
O desafio que a Primavera de Praga nos coloca, relido à luz da Ucrânia contemporânea, é o mesmo: resistir ao esquecimento, carregar o peso da memória e reconhecer que apenas nesse fardo reside a substância da liberdade. Porque há datas que nunca passam – que nos ajudam a decidir entre leveza e gravidade, entre sonho e realidade, entre vida e História. E, sim, que pesam mais do que outras.
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Nota:
As citações foram retiradas da tradução de Joana Varela, para a editora Publicações Dom Quixote.
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21/08/2025