Memórias: Júlio César (2)

 Memórias: Júlio César (2)

Actor Júlio César (cinemaplanet.pt)

Já aqui dei conta de como entre mim e o Júlio César se iniciou uma amizade forte e cheia de cumplicidades. A história que agora conto não é (ainda) a das muitas “loucas traquinices” de que até admito como natural que haja quem venha a duvidar. A de hoje mostra o lado generoso, solidário e espontâneo do Júlio e imagino também que, para muitos, hoje, pareça inconcebível ou exagerada. Mas foi tal e qual.

Eu andava desesperado com a falta de diagnóstico para a mãe do meu filho mais velho, cuja sintomatologia nenhum médico conseguia diagnosticar e ela ia, literalmente, definhando, quando decidi ir a Londres (a conselho de um outro grande amigo, o António Cruz), o que até me empenhou naquela altura. Numa manhã, o Júlio César, sabendo do que se passava, passa-me um cheque de 100 contos (hoje corresponderia, em equivalência ao valor do dinheiro ou do poder de compra, a mais de cinco mil euros). Entrega-mo dizendo: “Pagas quando puderes e se puderes; e não agradeces ou corto já relações contigo.”

Júlio César. (atelevisao.com)

Eu sabia que naquele tempo, o Júlio não estava, economicamente, excepcionalmente bem. Viríamos, uns anos depois, a estar assim os dois. Mas, por essa altura, nesses anos depois, quando o Júlio saiu para ir à casa de banho, num bar em Lisboa, eu conto essa história ao grupo que estava ali, a propósito da generosidade do Júlio César. Éramos, nesse momento, ele, eu, o Raul Solnado e o Tó Oliva, que era um homem de enorme fortuna em Leiria e que me acabara de dizer: “Ouve lá, ó intelectual, vê se convences o vadio a comprar um apartamento, que um dia lhe vai dar jeito!” (O Júlio era o “vadio”, eu era o “intelectual” e o Solnado era “o baixinho” – tudo com muito carinho do Tó.)

E o Tó desata a rir e diz-me: “Ainda não sabes tu o resto.” (Eu conhecia há pouco tempo o Tó Oliva e essa história tinha já uns anos.) “Nesse dia, o vadio veio pedir-me dinheiro emprestado para pagar a renda porque esvaziara a conta para emprestar a um amigo!” Pois é! Esta não era traquinice, era a amizade e a cumplicidade que permitiu tanta traquinice e tanta alegria nos anos que se seguiram. Assim. Com esta simplicidade toda, a mesma de quando eu pude pagar e me perguntou ainda: “Mas não te vai fazer falta? Já nem me lembrava desse dinheiro.” Era e é assim entre nós. E o que, ainda por cima, nos ríamos, todos! Vidas!

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01/01/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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