Na Saúde, tudo como dantes

 Na Saúde, tudo como dantes

(rtp.pt)

A  Saúde continua a ser o assunto que não sai da agenda política nem da comunicação social. Na roda-viva em que ela está feita, deve restar pouco tempo à ministra da Saúde para tomar conta do que teima em não correr bem para o seu gabinete, mas, principalmente, para quem precisa de prestação de cuidados de saúde.

(x.com/maisribatejo)

Quando a governante afirma a um jornalista que “não” desistirá “de melhorar o SNS” (Serviço Nacional de Saúde), cabe dizer que a palavra-chave “melhorar” tem várias versões, a sua e a de muitos outros. Pelo que se tem assistido, a sua está a desconseguir, como diriam os meus amigos moçambicanos. Poderia tratar-se de efabulações, de exageros, de aproveitamentos políticos, mas não são. Aquele indicador que aponta para 50 partos em ambulâncias, desde Janeiro, é a manifestação expressiva da melhoria que está a ser alcançada.

 (facebook.com/radioplanicie)

Um acontecimento que constituía uma excepção está a ser de tal maneira frequente que as corporações de bombeiros tomaram a decisão de colocar em cada ambulância de socorro obstétrico um bombeiro com formação para realizar partos de emergência. Dirão que, estatisticamente, é uma ninharia. É um facto. Mas, socialmente, é uma enormidade. Não é isso o que se espera e que deseja de um serviço público; é que, à medida que esses acontecimentos aumentam, aumenta geometricamente o risco de resultados indesejáveis para o feto e para a parturiente, mesmo considerando que a expulsão de um feto é um fenómeno fisiológico que ocorre geralmente sem complicações.

(lbp.pt)

É, precisamente, por isso que devem ser acauteladas todas as circunstâncias externas, por forma a prevenir a sua interferência num processo que se deseja realizado em condições inquestionáveis. A continuar neste registo obstinado, terá, então, de ocorrer uma catástrofe para que a governante se convença de que há lugares que, pelas suas exigências, nem todos os podem frequentar. 

Em modo papal, a ministra da Saúde afirmou, recentemente, que “são precisos todos, todos, todos”, referindo-se aos profissionais de saúde. Passe o duvidoso gosto da citação no contexto em que foi utilizada, diga-se que de pouco servirá a invocação para resolver o problema em causa, nem a diferença de direitos dos profissionais tarefeiros e dos permanentes. E será um erro pensar-se que “tudo, tudo, tudo” fica resolvido, alterando o valor da remuneração/hora dos tarefeiros, aproximando-a do valor dos permanentes. Isso é só parte da solução, nem sequer a maior parte. Essa, consistiria em tornar residual o papel dos tarefeiros, fazendo deles um recurso pontual, necessário para colmatar situações excepcionais.

(Créditos fotográficos: EJ Li – Unsplash)

A resposta que tarda é o reconhecimento das profissões de saúde como sendo vitais, porque é da vida que tratam, precisamente. Na sua ausência, uma parte da explicação para o aumento constante da esperança de vida deixaria de existir, bem como o alívio para a aflição que a dor produz, seja ela física ou psicológica. Podendo, por isso, tratar-se de profissões vitais, seria como tal que deveriam ser tratadas, a começar, desde logo, pelos valores das remunerações.

Seriam socialmente compreendidas as medidas que valorizassem estas profissões, desde que o acesso ficasse resolvido, tanto na disponibilidade de contacto como na duração da espera. Quando chega a altura é isto o que, de facto, é valorizado. E quem chegar primeiro para o socorro é quem irá ficar na memória.

Sendo o serviço de saúde predominantemente público, havia de caber a quem,  na altura, estiver a governar que dê conta desse recado. A fuga de cérebros, muitos deles para a tarefa, só se verifica porque os proveitos dela retirados são significativamente maiores, endereçando para uma melhor ocasião, ou nunca, a sua relação, organizada e desejada, de pertença ao serviço público. Eis que pouco está a ser feito para que este elo seja criado; e para que quem inicie a sua profissão o tenha como primeira preferência. 

(Créditos fotográficos: Irwan – Unsplash)

Alguém, alguma vez, havia de declarar as preferências deste governo em matéria de organização do SNS. Coube ao director executivo do SNS fazê-lo numa entrevista que deu para uma estação de rádio. Em dado momento, questiona a razoabilidade de se investir no serviço público se o volume de recursos instalados é suficiente para dar as respostas exigidas pelos utilizadores. Questiona ele, ipsis verbis, se o sector privado detém esses recursos, porque há-de o Estado gastar dinheiro na sua aquisição; bastaria generalizar o sistema de aquisição de produção para os problemas que agora se apresentam para ficarem resolvidos. Este raciocínio serve para, finalmente, se entender a razão dos apertos que se encontram quando se procura os serviços do SNS.

(Créditos fotográficos: Natanael Melchor – Unsplash)

O princípio em que se baseia aquela declaração é simples: o que existe, existe. Se não há, vai-se comprar aos privados. Nós entramos com o dinheiro, eles entram com a estrutura e ficam com os lucros. É simples: as necessidades existem, o dinheiro também, a bifurcação está lá. Uns vão para aqui, outros vão para acolá. No final, passam-se os cheques. Que serão cada vez mais porque está fora de questão substituir-se o que está gasto. E, como tudo tem um prazo de duração, nada mais há a dizer. Contudo – e é por isso que o actual governo deseja criar outra Lei de Bases da Saúde, uma vez que, para se recorrer ao sistema privado, se torna necessário fundamentar a decisão (Base 25 da Lei de Bases da Saúde) –, isso implicaria, necessariamente, o reconhecimento público de que não teria sido feito o devido investimento para colmatar a falha em questão, cujos custos políticos o governo não deseja ter â perna.

Temos, assim, uma equipa ministerial cujo propósito, agora declarado, é deixar-se sacrificar no pelourinho das críticas públicas, em nome do varrimento de um empecilho designado SNS. 

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04/09/2025

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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