Não ficar à espera de Godot

 Não ficar à espera de Godot

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É espantoso (ou não é e eu ainda transporto, irremediavelmente comigo, um enorme fardo de ingenuidade) que, no meio de um mundo multiperigoso – e não só no plano político, mas neste muito próximo de uma abissal loucura universal –, as direcções político-partidárias (falo de Portugal) prossigam nos seus discursos circulares e guerras florais. Já não há, praticamente, ninguém que faça política. A ideia de que a culpa é dos políticos é um erro: a culpa é de que a larguíssima maioria que ocupa cargos políticos não é política o que está a fazer: é o enriquecimento dos seus cofres e dos seus egos.

(Créditos fotográficos: Jon Tyson – Unsplash)

E o que era preciso era mesmo de políticos, no sentido mais nobre de defender a causa pública, independentemente de cada qual propor soluções contrárias. Onde estão as propostas concretas, sinceras, genuínas? Só nevoeiro e nem com ele virá Dom Sebastião! A única, mesmo única esperança de que faço questão de transportar comigo é a da arte como porta luminosa, por mais pequenina que seja a flor que vive oculta (ou ocultada) no meio da floresta de enganos, da cupidez, das ilusões e desilusões. Mas é nesse casulo que me fecho. Se for subitamente pulverizado por um cataclismo nuclear, quero estar a sorrir de flor na mão. Se o lodaçal nacional prosseguir, quero permanecer ocultado com a minha flor. Porque no mais, nas “grandes causas”, como diria Samuel Beckett: “Nada a fazer”. Não é desistir, é não ficar à espera de Godot.

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26/06/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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