Não gosto da Páscoa roxa

 Não gosto da Páscoa roxa

“A Ceia em Emaús” é uma das principais pinturas a óleo do artista barroco italiano Caravaggio. (pt.wikipedia.org)

Não gosto da Páscoa roxa de desfiles com a cruz às costas e silêncios pesados. Jesus Cristo foi morto porque quis trazer amor e não dor, riso às crianças e aos velhos, alegria e compaixão para com quem sofre. Quis lembrar que “liberdade” rima com “livre-arbítrio”, muito melhor do que com dogmas e preconceitos.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

É esse Jesus Cristo que sigo, não o que expõem na dor como modelo. Baptizei-me com mais de 50 anos, porque creio numa força transcendente, alfa e ómega, a que podem dar o nome que quiserem, mas a que eu chamo simplesmente Deus. E fi-lo na Igreja Católica, porque vivo num país maioritariamente católico. Porém, no Cristianismo autêntico me reveria sempre nessa figura ímpar da História da Humanidade. Creia-se ou não ser Filho de Deus e Deus n’Ele próprio. Jesus do amor, da paz, da liberdade, da comunhão, da solidariedade. Um Jesus do ódio, da guerra, da imposição, do individualismo e da exclusão é uma invenção: roxa. A sua morte ensina as primeiras condições, não apela às segundas.

Quem odeia, quem exclui e quem ignora o outro está fora do Cristianismo, por mais que bata no peito. É como se batesse no coração de Jesus para o magoar. Jesus Cristo perdoa o arrependimento sincero, não castiga. Mas o arrependimento, mais do que contrição, é acolher Jesus Cristo como Ele foi, o Cristianismo como ele é. Definitivamente: roxo, não. Jesus Cristo é de todas as cores, não de uma.

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Nota do Director:

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06/04/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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