O artífice da memória: João Rasteiro entre a leitura, o ofício e a cidade que o inquieta
João Rasteiro (© Vitorino Coragem, 2023)
Da carrinha da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian aos clássicos russos, da descoberta tardia da universidade às quase três décadas de escrita, João Rasteiro construiu um percurso literário marcado pela memória, pelo rigor e por uma relação exigente com a palavra. Em conversa, numa de tarde de sábado, na esplanada do Café-Concerto do Convento São Francisco, João Rasteiro fala da infância, da escrita como trabalho, de Miguel Torga, da cultura em Coimbra e do combate ao esquecimento.


arredores de Coimbra. (© Família Rasteiro)
João Rasteiro aprendeu cedo que os livros podiam abrir portas onde aparentemente não existiam portas. Nasceu e cresceu no Ameal do Campo, nos arredores de Coimbra, numa família com algumas dificuldades económicas, mas com os meios suficientes próprios de uma vida de esforço na lavra e no amanho das terras.
“Não havia, praticamente, um livro em minha casa”, recorda João Rasteiro, confirmando a ausência familiar de estímulos para a leitura e de outras motivações culturais. O pai nunca frequentou a escola e a mãe deixou-a ainda na segunda classe para trabalhar nos arrozais. Em casa não havia livros, mas havia uma carrinha que, uma vez por mês, trazia à aldeia aquilo que viria a transformar radicalmente o seu percurso: a Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ameal. (Créditos fotográficos: Carlos Jorge Monteiro)
A chegada da carrinha era, revive o escritor, um acontecimento. Formavam-se filas de dezenas de pessoas à espera de requisitar livros. João Rasteiro inscreveu-se na biblioteca logo depois de entrar na escola primária, por incentivo da professora Margarida. A leitura tornar-se-ia, desde então, uma espécie de escola paralela.
“Houve até um episódio de que nunca me esqueci. Um dia, perdi um livro da biblioteca. Eles começaram a mandar recados a perguntar pelo livro e eu não sabia o que fazer. Acabei por conseguir que alguém fosse comigo explicar o que tinha acontecido e substituímos o exemplar por outro do mesmo autor, embora não fosse exactamente igual. Eu teria nove ou dez anos e, naquele tempo, havia um enorme respeito por aquelas coisas. Nem sequer contei aos meus pais, porque tinha vergonha de lhes dizer que tinha perdido um livro e que talvez fosse preciso pagá-lo”, confessa Rasteiro.

Aos 15 ou 16 anos, já tinha passado por grandes autores das literaturas russa e francesa. Liev Tolstói, Albert Camus, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir faziam parte das suas leituras. Mas houve um livro que lhe colocou uma dificuldade diferente: “Ulisses”, de James Joyce. Aos 17 anos, tentou enfrentá-lo e foi vencido nas primeiras tentativas.

de afirmar que, se Deus não existisse, teria de existir”.
(© VJS – sinalAberto)
“Peguei nele três ou quatro vezes e nunca conseguia passar das trinta ou quarenta páginas. Só cerca de dez anos mais tarde voltei a lê-lo. Então, consegui chegar ao fim, mas foi o primeiro livro que verdadeiramente me pôs à prova”, reconhece o escritor que – como observa Valter Hugo Mãe – nos comove no “jeito que tem de impedir qualquer sobranceria”. “O seu tremendismo é todo no reconhecimento dos outros, e da natureza, desde logo pela ânsia de haver um Deus que se responsabilize no diálogo absoluto”, reforça Valter Hugo Mãe no texto que acompanha a obra antológica “Ofício [Poesia 2000-2020]”, de João Rasteiro.
Por volta de 2010 ou 2011, a escrita de João Rasteiro começa a evidenciar uma mudança, mais claramente em “Os Cílios Maternos”. A figura da mãe começa a ganhar destaque e, então, “inicia-se uma tentativa de abertura temática e também formal”. “Nessa altura, lia intensamente um texto que nunca mais deixou de me acompanhar: o Evangelho Segundo São João”, releva o escritor, informando: “Aliás, publiquei mais tarde um livro – ‘Acrónimo’ – em que grande parte dos poemas constitui uma espécie de reescrita desse Evangelho, transportando-o para um contexto contemporâneo e, muitas vezes, invertendo ou questionando aquilo que o texto bíblico afirma, sobretudo, em relação à ideia de Deus.”
“Uma das características que frequentemente apontam à minha poesia é, precisamente, essa relação permanente, tensa e, por vezes, dolorosa com o divino”, expressa Rasteiro. Quanto à suposição de Deus ser justo ou injusto, responde-nos que não coloca a questão nesses termos. “O que existe é um questionamento constante da sua existência. Mas, ao mesmo tempo, sinto uma necessidade paradoxal de afirmar que, se Deus não existisse, teria de existir”, argumenta.

Recuando no tempo, Rasteiro refere: “Nessa altura, havia um autor português que hoje quase ninguém lê, mas que para mim era extraordinário: Ferreira de Castro. Quando pegava em ‘A Selva’, aquilo era um mundo novo. Repare-se: eu vivia numa aldeia e aquele livro abria-me horizontes completamente diferentes.”
A propósito, o seu amigo Valter Hugo Mãe e autor de “O Paraíso São os Outros” (um livro sobre uma menina que não leu Sartre e a quem o amor intriga e fascina) sublinha que João Rasteiro nos emociona na busca das coisas comuns, “que não são pequenas, como o amor e a amizade, a memória dos que morreram, a glória última de ainda matar a sede, persistir, sobreviver”.
“Uma das características que frequentemente apontam à minha poesia é, precisamente, essa relação permanente, tensa e, por vezes, dolorosa com o divino”, expressa Rasteiro
Para João Rasteiro, não existe, porém, grande mistério no ponto de partida de um escritor. Quando se fala em inspiração, prefere uma definição muito mais concreta: “A minha definição de inspiração – que pode surpreender – é muito simples: chama-se leitura. Quanto mais lês, mais facilmente escreves.”
“Para mim, a arte é o caminho mais próximo que podemos ter do divino. Nunca o alcançamos, apenas nos aproximamos”, expõe Rasteiro, admitindo que “aquilo a que se chama ‘inspiração’ pode ser explicado de outra forma”. Na sua perspectiva, “não há inspiração divina; há diferenças cognitivas e trabalho”.

(© Família Rasteiro)
Retomando as suas origens geográficas, Rasteiro esclarece: “O Ameal não era propriamente uma aldeia antiga. Era um conjunto de casais. A aldeia estava dividida em quatro zonas. Havia uma espécie de rivalidade saudável entre elas.” No livro “Sardoal”, publicado em Julho de 2023, o escritor conimbricense manifesta consistência poética e uma intertextualidade que convoca o diálogo e pontos de contacto com Camões, com Ovídio, com Horácio, com o irlandês William Butler Yeats, com o austríaco Rainer Maria Rilke e com o também poeta e psicólogo sueco Tomas Tranströmer, entre outros autores, sem esquecer os homens e as mulheres da Rigueira ou do Outeiro.
“É um livro inteiramente construído a partir das memórias da minha infância. Fala de tudo: da venda dos caracóis, da pesca no rio Mondego, do cinema ambulante que aparecia de vez em quando ao sábado, das minhas brincadeiras, do meu pai e da minha mãe”, salienta.
“A minha definição de inspiração – que pode surpreender – é muito simples: chama-se leitura. Quanto mais lês, mais facilmente escreves.”

(© Família Rasteiro)
“Era na Rigueira que se situava o principal cruzamento do Ameal. Ao fim do dia, os homens regressados do campo juntavam-se na venda e ficavam horas a conversar”, comenta Rasteiro, evocando as vozes e o encanto dos lugares da sua infância, espiritualizando o rapazito Salvatore (Totó) que se deslumbrava com as projecções do “Cinema Paraíso” (filme de 1988, de Giuseppe Tornatore). Como acentuou o Júri do Prémio Literário Natália Correia, João Rasteiro (um dos premiados) evidencia “a conquista plena do voo poético enquanto paisagem intimista que ‘resgata inexoravelmente o verbo’, recriando cada palavra a partir da sua densidade interior, neste caso, num universo bucólico de rememoração, bem alicerçado no conhecimento da poesia em todas as épocas da criação literária […]”.
Nas fogueiras dos Santos Populares – que, naturalmente, decorrem de antigos rituais pagãos do solstício de Verão –, “cada lugarejo fazia a sua grande fogueira”. Conta-nos João Rasteiro: “As pessoas juntavam-se à volta dela, na rua, com comes e bebes: broa, chouriço, vinho e outras coisas. Entretanto, os rapazes percorriam a aldeia com foguetes e outros engenhos pirotécnicos, que lançavam para a fogueira ou faziam rebentar no chão. Havia uma competição permanente para ver qual era a fogueira maior e qual reunia mais gente à sua volta. Era esse o espírito da aldeia.”
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Universidade adiada – mas não esquecida
A vida profissional chegou antes da vida académica. As dificuldades económicas obrigaram-no a entrar no mercado de trabalho cedo, chegando à Câmara Municipal de Coimbra antes dos 23 anos. A universidade parecia um sonho encerrado.
O reencontro com esse sonho aconteceria apenas no final de 1999, quando encontrou a Oficina de Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, orientada por Graça Capinha. O curso livre de escrita criativa, influenciado pela “Language School” (ou “Language Poetry”) norte-americana e pela figura de Charles Bernstein (professor na Universidade de Buffalo e um dos principais teóricos, poetas e cofundadores deste movimento que radicalizou a escrita, questionando a própria linguagem e rejeitando a ideia de que a poesia serve apenas para expressar sentimentos pessoais ou para retratar a realidade de forma directa), funcionou como um momento decisivo.

“Curiosamente, foi a minha entrada naquele grupo, juntamente com os desafios lançados pela própria Graça Capinha, que fez renascer um sonho que eu já considerava praticamente impossível: frequentar um curso universitário”, recapitula João Rasteiro.
A oficina devolveu-lhe a confiança necessária para se candidatar ao ensino superior. Começou por se interessar pela musicalidade da língua italiana, mas as exigências de conciliar trabalho e estudos acabaram por conduzi-lo para Estudos Portugueses, curso em que viria a licenciar-se em Estudos Portugueses e Lusófonos, “fortemente impulsionado” pelo académico Pires Laranjeira, sobretudo na área das literaturas africanas, bem como por Maria Aparecida Ribeiro, nos estudos e na literatura brasileira.

Vértebras”, título retirado de um verso de Robert Duncan.
(© Vitorino Coragem, 2023)
Em 2001, publicou “A Respiração das Vértebras”, título retirado de um verso de Robert Duncan, que é frequentemente identificado com os poetas da Nova Poesia Americana e do Black Mountain College (daí, os denominados poetas projectivistas ou vanguardistas da Montanha Negra).
“Ao princípio era luz, depois o céu / azul porque a luz se embebe / nas camadas de ar que olhamos.”, são os primeiros versos do poema “Canto do Génesis”, de Fiama Hasse Pais Brandão, que João Rasteiro escolheu para primeira epígrafe na abertura do seu primeiro livro. A segunda citação – “Só tenho as mãos à frente, entre o rosto / e a fogueira.” – foi retirada do poema “4” (ou peça IV) do livro “Flash”, da autoria de Herberto Helder.
Sabedor de que o corpo é “o habitáculo da respiração”, integrado “numa espécie de consciência do espaço e do tempo que o sufoca, no íntimo do caos”, João Rasteiro começa por expressar: “No íntimo do caos / o corpo flutua no infinito desigual / dos últimos milénios […]” Era, pois, o início público de um percurso literário que se prolongaria por mais de duas décadas.

(Direitos reservados)
A académica Graça Capinha reafirma que a poesia de João Rasteiro é “uma poesia do corpo, físico e essencialmente do corpo da linguagem, com influências que vão desde Herberto Helder a Gertrude Stein.” “Graça Capinha persiste em dizer – e eu não vou discutir com ela – que ‘A Respiração das Vértebras’, o meu primeiro livro, continua a ser, globalmente, um dos meus melhores. Isso pode ser simultaneamente bom e mau, porque qualquer escritor gosta de acreditar que está sempre a escrever melhor”, mencionou Rasteiro.
A esse respeito, considerou ainda: “Muitos grandes poetas publicaram já numa fase em que talvez não fosse necessário continuarem a publicar. Se pensarmos, por exemplo, em Eugénio de Andrade ou em António Ramos Rosa, talvez os últimos anos da sua produção não acrescentem tanto quanto a obra anterior. O grande problema de qualquer artista é perceber quando deve parar. E isso é extremamente difícil.”
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“É 100% transpiração!”
João Rasteiro rejeita a imagem romântica do poeta tomado por uma espécie de inspiração divina. Para ele, a criação literária resulta de capacidades cognitivas e biológicas, mas particularmente de muito trabalho.
Recorrendo a uma formulação associada ao escritor e tradutor Vasco Graça Moura, Rasteiro resume o processo de criação literária e artística de forma taxativa: “É 100% transpiração.” Para si, mais do que a espontaneidade ou a influência de supostas musas, importa considerar o trabalho árduo, a disciplina e o esforço contínuo.
É também por isso que não encara os livros publicados como peças intocáveis. Quando preparou “Ofício”, antologia publicada pela Porto Editora, em 2021, voltou a poemas escritos duas décadas antes. Cortou, reescreveu, burilou.
A explicação é simples: quem regressou aos textos antigos já não era exactamente o homem que os tinha escrito. “Quem estava a rever esses textos em 2021 era o João Rasteiro de 2021, e não o autor que os escreveu em 2001 ou 2002.”
É nessa revisão permanente que se reconhece como artífice: “Nós somos sobretudo isso. Não somos industriais da poesia; somos artífices. Há um trabalho de ofício, com rigor e cuidado.” “Quem me disse isso foi o poeta, crítico e professor António Carlos Cortez: o título tinha de ser, simplesmente, ‘Ofício’. Quando esta antologia surge por convite – um convite muito importante para mim –, cheguei a pensar que os três ou quatro primeiros livros não iriam entrar. Todavia, rapidamente, percebi que isso não fazia sentido”, especifica.

A propósito, Mário Cláudio fundamenta, no prefácio, que o “trajecto deste Ofício, de João Rasteiro, balizado por marcos esparsos nos vários livros de antologia, assenta no reconhecimento de uma condição determinante, adiantada em estilo de divisa. Logo num dos primeiros poemas, e aludindo às artes da caça, pergunta-se o autor com franco desassombro, ‘E quando os cães voltarem, / carregados de aves nos aguçados dentes, / e me olharem de patas ateadas, / nesse fogo que sempre trilha o coração, / que lhe poderei então dizer?’ Falho de armas e manhas, imobiliza-se neste limiar o poeta atirado ao mundo, e que na própria fragilidade esgravata um assomo de justificação.”
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“Não somos industriais da poesia; somos artífices.”
“De uma forma geral, o autor está sempre presente naquilo que escreve. Mesmo quando cria personagens com ideias ou valores completamente diferentes dos seus, ele continua lá. Não é possível escrever de forma neutra. A escrita parte sempre da sua visão do Mundo, da sua sensibilidade e da sua linguagem”, reforça João Rasteiro. No entanto, elucida: “A questão é que, mesmo quando escrevo um livro como ‘Sardoal’, em que recupero a minha infância, quem escreve já não é a criança que viveu aqueles acontecimentos. É o adulto que reconstrói essa infância através da memória.”

(© Família Rasteiro)
Para si, “a memória é sempre uma reconstrução”, porque “existe uma distância, um filtro, um trabalho de linguagem e de construção literária que, inevitavelmente, transforma a experiência vivida”. Por isso, repara: “Quem ler os meus livros poderá encontrar muitos elementos da minha vida, mas nunca poderá afirmar que conhece toda a minha biografia apenas através deles.”
“Em 2017, publiquei um livro que, provavelmente, será sempre o mais marcante daquilo que escrevi: A Rose is a Rose is a Rose et coetera”. O tema central é a doença de Alzheimer e, nesse livro, tanto eu como a minha mãe estamos reflectidos de forma muito directa”, explana o autor, adiantando: “Ainda assim, espero que o leitor leia o texto pelo seu valor literário e não apenas como um testemunho autobiográfico. Não quero que a primeira preocupação seja descobrir se vivi exactamente aquilo que ali conto. Atrevo-me a dizer que, para escrever daquela forma, tive de partir de uma experiência profundamente vivida. Isso é evidente. Porém, a literatura não precisa dessa certificação para ser verdadeira.”
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A tradição literária também se contesta
A relação de João Rasteiro com os grandes nomes da literatura está longe de ser reverencial. Herberto Helder – a seu ver, “o maior poeta português depois de Fernando Pessoa” – teve uma influência que o próprio julga “sufocante” nos primeiros anos, até se aproximar da poesia do “extraordinário” António Franco Alexandre, cuja escrita tem vindo a conquistar o reconhecimento crítico. Por exemplo, a obra “Quatro Caprichos” mereceu o Prémio APE (Associação Portuguesa de Escritores) de Poesia e o Prémio Luís Miguel Nava. Por sua vez, o livro “Duende” (parafraseando Federico García Lorca: “de luta com o duende” – força interior, misteriosa e telúrica de criação artística) ganhou o Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus e o Prémio Correntes d’Escritas.

“Leio, frequentemente, autores como Gastão Cruz, Luísa Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão e outros da mesma geração”, assinala João Rasteiro, mencionando: “No início do século XXI, a poesia portuguesa começou a ser agrupada em dois pólos: a chamada ‘poesia do real’, associada a escritores como Manuel de Freitas e José Miguel Silva, muito ligada ao quotidiano, à cidade, ao dia-a-dia; e uma outra, que poderíamos designar ‘poesia da imagética’, onde me incluo de certo modo, marcada por uma forte componente imagética e simbólica, muito próxima, em alguns casos, da tradição herbertiana.”
É Miguel Torga quem provoca, em João Rasteiro, uma posição particularmente contundente. Rasteiro reconhece a admiração pelo autor de “Bichos”, sobretudo pela obra diarística, mas considera “arrogante” a ideia de que bastaria ler a obra de Torga para conhecer a sua biografia. “O que interessa é o texto, com maior ou menor qualidade literária. A obra autonomiza-se e estabelece a sua própria relação com o leitor, independentemente da biografia do autor. Por isso, é sempre problemático dizer aquilo que Miguel Torga dizia: ‘Quem me quiser conhecer, que leia a minha obra.’ Acho que essa afirmação é, de certa forma, ambiciosa. Atrevo-me a ver aí alguma arrogância. Parecia colocar-se num patamar que, pessoalmente, não acho que ocupasse. Mas prefiro não desenvolver muito essa ideia, para não ser crucificado”, comenta João Rasteiro. E, quando questionado sobre se Miguel Torga merecia o Prémio Nobel da Literatura, a resposta não deixa espaço para ambiguidades: “Não. Nunca.”
Para o escritor, a imagem pública de Torga foi cuidadosamente construída pelo próprio e existiriam outros autores do século XX mais merecedores da distinção.
No entanto, Rasteiro dedica o seu poema “Na rota dos faunos” a Miguel Unamuno e a Torga: “Em Agosto, a cidade tem o nome acorrentado / à pedra acesa que vislumbra a luz dos poetas, / vieram dos trilhos onde os animais respiram / as juras sagradas da liberdade que aprisiona.”

Quando questionado sobre se Miguel Torga merecia o Prémio Nobel da Literatura, a resposta de João Rasteiro não deixa espaço para ambiguidades: “Não. Nunca.”

preocupações do escritor, que considera “triste e
desolador” o actual panorama livreiro da cidade.
(© VJS – sinalAberto)
No âmbito da nossa conversa, João Rasteiro sente ainda a necessidade de justificar: “Gosto muito de Miguel Torga. O problema não é ele. De certa maneira, Torga acabou por ocupar todo o espaço à sua volta, mas não por iniciativa sua. Não teve culpa nenhuma. É preciso contextualizar. Torga começou a ser amplamente lido e estudado porque, antes do 25 de Abril, era também um símbolo da resistência ao regime. A partir de então, tornou-se uma figura de referência e foi sendo, sucessivamente, apropriado pelas instituições, pelas políticas culturais e por diversas iniciativas, como aconteceu mais tarde com a candidatura de Coimbra. Era um caminho cómodo. Em vez de se investir na descoberta e valorização de outros autores, preferiu-se continuar a trabalhar sobre aquilo que já estava consolidado.”
Retomando o prefácio de Mário Cláudio, na obra poética “Ofício”, João Rasteiro elege Orfeu (músico, poeta e profeta da mitologia grega), por isso, “a sua guarda pretoriana, personagens ora tutelares, ora aliadas, que lhe facilitam a progressão na toada de pastor da alma”. Assim, manifestam-se-lhes, “como eminências patrocinantes do itinerário colectivo, um Jorge Luís Borges, um Federico García Lorca, um James Joyce, ou um Constantin Kavafis, e aderem à escrita no estatuto da epígrafe, do intertexto, ou da evocação”.
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Coimbra: uma cidade que perdeu livrarias e identidade
A relação com Coimbra é inevitável. Rasteiro trabalha no município há quase quatro décadas e, por isso mesmo, conhece por dentro parte da evolução da cidade.
Aquando a nossa conversa no Convento São Francisco, João Rasteiro mostrava-se surpreendido por a Câmara Municipal ter apreciado e votado favoravelmente a proposta – subscrita por Maria Carlos Pêgo, directora do Departamento de Cultura e Turismo do Município – de atribuição da Medalha de Mérito da Cidade de Coimbra, reconhecendo o seu percurso literário, a projecção nacional e internacional da sua obra, assim como a ligação mantida ao concelho quer através da sua actividade artística quer pelo trabalho desenvolvido no município na área da cultura.

Como então nos confessava, a atribuição dessa distinção oficial, principalmente tendo em conta aquilo que considera ser um padrão irregular de reconhecimento cultural foi, para si, um gesto inesperado e significativo. Todavia, é o estado da cultura na cidade que mais o inquieta.
“Foi uma surpresa completa”, reitera João Rasteiro. “Digo isto sem qualquer contradição com aquilo que sempre afirmei: Coimbra, como outras cidades, é muitas vezes madrasta para os seus próprios criadores. Umas vezes com razão, outras nem tanto, mas essa é uma percepção comum”, assevera. E distingue: “Há um ou dois autores actuais com reconhecimento significativo. No caso da poesia, podemos referir um poeta da minha geração que tem, hoje, mais projecção do que eu: Luís Quintais. Há também o Nuno de Figueiredo, que conheço pessoalmente. É um autor que tem recebido vários prémios tanto na poesia como na ficção.”
“Os cinemas vão fechando, já quase não há livrarias e apenas os teatros vão resistindo.”
O diagnóstico é duro: o panorama editorial e livreiro de Coimbra é, para o escritor, “triste e desolador”. João Rasteiro recorda que a Rua da Sofia (agora sem automóveis, com a entrada em vigor da nova organização de circulação na Baixa) chegou a ter nove livrarias na década de 1920 e lamenta que a cidade tenha perdido parte da sua identidade cultural perante a expansão de grandes superfícies comerciais.

O encerramento da livraria alfarrabista de Miguel de Carvalho é, na sua leitura, um “crime cultural”, resultado de “indiferença institucional” e desleixo municipal.
A crítica estende-se a uma paisagem cultural onde os cinemas vão desaparecendo e as livrarias rareiam. Os teatros, observa, são praticamente os últimos espaços a resistir. Daí a sua desconfiança perante a imagem de Coimbra como “cidade da cultura”: “Tornou-se um chavão que nem sempre corresponde à realidade.”
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A batalha contra o esquecimento
A preocupação com a memória atravessa também a literatura de João Rasteiro. Em “A Rose is a Rose is a Rose et coetera”, publicado em 2017, o autor trabalhou directamente o tema do Alzheimer e o progressivo desaparecimento da memória.
“A memória é absolutamente essencial”, assegura o escritor, exemplificando: “Quando [Jorge Luis] Borges imagina a perda da memória na velhice, isso é das coisas mais inquietantes que posso conceber. Pela experiência que tenho, é talvez uma das maiores tragédias possíveis.” “Quando penso nisso, penso também no envelhecimento da sociedade contemporânea e no desafio que representa a demência”, particulariza.

O problema, contudo, é mais amplo. Rasteiro vê com preocupação o empobrecimento da linguagem e o enfraquecimento da memória colectiva. Conta, a propósito, um episódio ocorrido na Casa da Escrita: uma jovem licenciada em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra não conseguiu reconhecer Mário Soares numa fotografia de arquivo. Para o escritor, o episódio é revelador de uma perda de referências entre as novas gerações.
A literatura surge, assim, como uma forma de resistência ao desaparecimento. Escrever é também conservar aquilo que o tempo ameaça apagar.
“Eu não escrevo para o leitor no sentido de tentar escrever aquilo que imagino que ele quer ler. Nunca foi esse o meu propósito.”
Contudo, João Rasteiro pondera: “Os livros devem ser contextualizados historicamente. Não podem ser lidos como se fossem textos contemporâneos. Um texto antigo deve ser compreendido no seu tempo.” O escritor apercebe-se, igualmente, de que “a linguagem está a ser cada vez mais limitada”, numa época em que “vivemos um processo de desmaterialização, com o conhecimento concentrado em grandes plataformas tecnológicas, muitas delas norte-americanas ou chinesas”. A seu ver, “o problema não é apenas a perda de suporte físico – é a dependência estrutural desses sistemas”.
Por conseguinte, exterioriza: “O mais preocupante é que isso já não acontece de forma pontual: está a acontecer rapidamente, todos os dias. A linguagem está a empobrecer. Cada vez comunicamos com menos palavras. Futuramente, talvez comuniquemos apenas por sinais ou expressões mínimas. Esse é, para mim, o verdadeiro risco.”
Refira-se que a Casa da Escrita (antiga residência do poeta João José Cochofel, que participou e incentivou a primeira geração de escritores do neorrealismo coimbrão) integra no seu espólio cerca de cinco mil livros doados pelo ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço. Esta emblemática casa na Alta coimbrã (historicamente, conhecida como Casa do Arco) funcionou como o principal ponto de encontro e “quartel-general” da geração neorrealista de Coimbra. Por ali passaram Carlos de Oliveira, Fernando Namora e Joaquim Namorado, entre outras figuras que participavam nas tertúlias intelectuais e literárias que decorreram nesse espaço, sobretudo nos anos 40 do século XX.
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Escrever para alguém
Apesar da retracção do mercado da leitura e do cenário cultural que descreve com preocupação, João Rasteiro não aceita a ideia de escrever para uma gaveta. Também rejeita o argumento de quem afirma não ler para evitar influências. A sua posição é outra: continua a escrever para o leitor.


Condeixa-a-Nova, no Dia Mundial da Poesia 2026.
(© João Rasteiro – Direitos reservados)
No entanto, explicita: “Eu não escrevo para o leitor no sentido de tentar escrever aquilo que imagino que ele quer ler. Nunca foi esse o meu propósito. Mas também seria estranho que, depois de quase três décadas de publicação, dissesse que não penso minimamente no leitor. Naturalmente, penso. Não para lhe agradar, mas porque desejo que exista alguém do outro lado capaz de estabelecer uma verdadeira relação com o texto. Quero que o leitor encontre ali um espaço de encontro, de diálogo e de descoberta. É nesse sentido que escrevo também para quem me lê.”
O mais recente livro de prosa – “A Beleza da Queda” – surge nesse contexto como a confirmação de uma vontade que permanece intacta. Depois de uma infância em que os livros chegaram à aldeia através de uma carrinha itinerante, depois de ter adiado a universidade e de ter transformado a leitura num instrumento de formação e a escrita num ofício, Rasteiro mantém o essencial.
Escrever, para ele, continua a ser um gesto dirigido a alguém. Mesmo que esse alguém seja apenas um leitor.
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14/09/2026