O cerco a Gaza

 O cerco a Gaza

Em Gaza, as pessoas que tentam obter alimentos correm o risco de serem baleadas. (© UNICEF – news.un.org)

Cinco mil dólares era quanto a Casa Branca oferecia a cada palestiniano para abandonar a Faixa de Gaza, a terra onde nasceram e cresceram, e onde foram assassinados muitos milhares, pelas tropas israelitas. Se ainda não bastasse o que, diariamente, o vizinho do lado lhes faz, acometendo contra as suas vidas, de lá longe veio um agente imobiliário para lhes oferecer um punhado de dólares pela saída dos escombros onde agora vivem.

Norte de Gaza sob o cerco. (Créditos fotográficos: WFP/Jonathan Dumont – news.un.org)

Já foram várias as tentativas para os expulsar, do tiro de bala ao míssil, sem resultado, os Palestinianos teimam em não sair, nem a fome os faz desistir. Certamente que não será depois de tudo o que têm passado que se deixarão levar pelo envelope que Donald Trump tinha preparado para lhes entregar, em troca da resistência ao opressor, o que lhes está a dizimar as vidas.

Podia-se designar por uma oferta indecente o que lhes queriam pagar, mas era mais do que isso. Teremos de procurar um adjectivo que torne o gesto radicalmente vergonhoso, digno de ser fixado para a História como a descida ao que de mais insultuoso alguém pode dirigir a outro. Depois de dois anos a ser massacrado, quem ia receber o envelope, oferecendo-se como traidor à sua gente, ao seu passado milenar? Só quem não tem passado, quem abdicara dos seus direitos, quem renegara os seus, porque é isso que os Palestinianos agora têm, sentimentos que lhes alimentam o ódio e a resistência. 

Família palestiniana tenta retirar os seus pertences dos escombros. Cidade de Gaza, em 3 de Novembro de 2024. (© MSF)

O plano de cessar-fogo agora apresentado por Donald Trump e por Benjamin Netanyahu é tudo menos de cessar-fogo. Desde logo porque só levou em consideração o ponto de vista de Israel, deixando de lado os Palestinianos. Esteve presente o carrasco e excluíram as vítimas. O que leva a prever que serão tantos os obstáculos que dificilmente conseguirá, se aplicado. Tenha-se em conta que as melhores considerações sobre negociação obrigam a que as duas partes estejam presentes, por forma a responsabilizá-las perante quem representam. Desconhece-se se tanto Trump como Netanyahu alguma vez leram o relato das negociações de Brest-Litovsk, na Bielorrússia, mas quem esteve frente a frente, na altura, foram, Leon Trotsky, em representação do jovem Estado soviético, e Max Hoffmann, do lado do  Kaiser von Hindenburg, e só por isso o sacrifício da rendição foi aceite pelos soviéticos. Embora se tenha passado há mais de um século, em 1918, este exemplo serve para dizer que uma derrota só pode ser aceite se o derrotado estiver na mesma mesa das negociações com o vencedor, e se a sua assinatura constar da acta final. Não será perante uma decisão para a qual uma das partes em nada contribuiu que ela poderá ser aceite, ser válida e ter o efeito desejado.

Israel cortou fornecimento de ajuda humanitária e outros itens indispensáveis à sobrevivência dos civis, num esforço claro e calculado para punir colectivamente mais de dois milhões de civis e tornar Gaza inabitável. (amnistia.pt)

O que se passou foi, em vez disso, um acto de humilhação pública aos Palestinianos, vista por todo o Mundo. Foi dizer-lhes, publicamente, que eles já não contavam e, no caso, já não se tratava só do Hamas. Além disso, a condição 16 do documento regista que “as IDF entregarão progressivamente o território que ocupam em Gaza às ISF, segundo um acordo que farão com a autoridade de transição, até à retirada total de Gaza, com excepção para a presença num perímetro de segurança que se manterá até que Gaza esteja devidamente protegida do reaparecimento de qualquer ameaça terrorista”. E representa a  mais importante condição que Israel viu satisfeita, manter o cerco a Gaza por prazo indefinido, o que significa manter sob domínio armado a população de Gaza. Isso acaba por ser o encarceramento, numa faixa de terra entre o mar e o território israelita, de mais de dois milhões de pessoas. Portanto, mais do que um plano de cessar-fogo, prelúdio da paz necessária à região, é a continuação das hostilidades, agora sob o alto patrocínio da Casa Branca. 

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02/10/2025

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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