O elevador da miséria

 O elevador da miséria

(oecd.org)

Sobretudo através do telelixo da CMTV, mas não só, vamos dando conta da “nossa” imitação pífia do mais “sórdido light” de Hollywood, com supostos suicídios que “se” desconfia serem homicídios, desaparecimento de familiares dos “famosos”, separações em fúria, violência doméstica inesperada, assédio e agressões sexuais, riqueza desbaratada no consumo de drogas!

(oecd.org)

Mas temos uma particularidade maior: o chamado elevador social dos mais pobres nunca se pode, hoje, realizar pelo esforço, pelo conhecimento ou sequer pela capacidade empreendedora. Sem o “encosto” ao esgoto do ‘“sórdido light”, é quase impossível. Tem de se sair da miséria material para a miséria moral. As bolsas de estudo estão longe de fazer face às despesas da simples soma de propinas, de transportes e de um quarto alugado. O acesso ao crédito empresarial é mínimo e as taxas de juro exorbitantes. O reconhecimento do valor da criatividade, do trabalho ou do saber e da cultura é nulo.

(Créditos fotográficos: George Tk – Unsplash)

Um país que assim (des)caminha corre em direcção a uma maior pobreza interna e no contexto das demais nações vizinhas. Se ao menos houvesse um “Chega” a denunciar isto, restava alguma esperança do protesto vir a contribuir para sair desta miséria moral, económica e existencial. Mas está tudo bloqueado até ao nível do pensamento e da acção cívica.

A peça de Samuel Beckett “À Espera de Godot” é um título que se tornou
proverbial em todo o Mundo. (tnsj.pt)

Resta esperar que ainda caia mais (quem julga que se “bateu no fundo” ainda não viu nada), que se passe por uma ditadura e que nasçam alternativas a ela e à podridão sociopolítica em que estamos. Erguer cravos folclóricos em nome desta porcaria toda é estragar os sonhos dos próprios cravos. É mesmo um insulto aos que (de diferentes e com diferentes perspectivas) saudaram o dia 25 de Abril, antes de começarem as divisões. Como Samuel Beckett, dando voz à personagem Estragon, também eu penso que “não há nada a fazer”. Farei em campo fechado e muito limitado o que puder para mitigar dores e abandonos. E para eu mesmo tentar respirar. O mais é para muito, muito, muito, muito, muito depois.

.

………………………….

.

Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

.

23/10/2025

Siga-nos:
fb-share-icon

Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

Outros artigos

Share
Instagram