O mito de Don Juan
“Don Juan” na produção da companhia Teatro Clásico de Sevilla. (sevillacitycentre.com)
O mito de Don Juan é muito mais do que a avidez carnal de um homem. É o mito da insatisfação (contado no masculino, porque nasce numa sociedade patriarcal; também os há no feminino em sociedades matriarcais) e o impulso tanático oculto pelo impulso erótico (tal como é e não meramente sexual).

Slevogt. (pt.wikipedia.org)
Don Juan só se compraz quando beija a morte, que o leva. Antes, “mata” ele, mas não lhe basta. A paixão é instrumento de dominação, porque é o que transforma o amor em irracionalidade.
Por isto mesmo, do mito, nas suas várias formas em teatro, não é o de Molière nem o de Tirso de Molina (os mais famosos, em teatro declamado e transpostos para a ópera) que mais admiro. Mas o de António Patrício, com “Dom João e a Máscara”, em que quem assume a figura da morte é Beatriz. Daí me referir, simbolicamente (retirado de um texto esteticamente simbolista, o que é curioso), à morte como “Beatriz”.
O que é condizente, em Patrício, porque, etimologicamente, “Beatriz” é “a que traz a felicidade”. No caso do mito, a concretização do impulso tanático é a felicidade. Portanto, o mito do mito (Don Juan como um “conquistador carnal”) desfigura o sentido inicial (e final, afinal) do mito, do arquétipo do mito. António Patrício resgata-o, Molière e Tirso de Molina iludem-no e, provavelmente, iludem-se, porque é mais superficial e menos complexo autodefrontarem-se com ele.

Na pintura, Delacroix pressente-o como desastre. O que não é o enfoque mais rigoroso, mas, mesmo assim, tem mais sentido do que na figura “principesca” em Velásquez, independentemente da grandeza deste como pintor.
Don Juan é um primo de Sísifo e não um irmão de Casanova ou sequer um irmão “bastardo” de Cupido. É um primo que se realiza, enquanto Sísifo nunca levará a pedra até Beatriz!
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14/05/2026