O rapto

 O rapto

Nicolás Maduro (pt.wikipedia.org)

Não existem argumentos para ficarmos calados sobre uma calamidade política. Bem nos avisaram de que ela iria ocorrer. Se 2025 foi caracterizado pela brutalidade com que a população da Faixa de Gaza foi tratada pelo governo de Israel, logo nos primeiros dias de Janeiro, caiu sobre a comunidade internacional outra brutalidade, diferente, mas tão condenável como a que matou milhares de palestinianos.

Dizem as agências noticiosas que foi pelas duas horas da madrugada de 3 de Janeiro que uma força delta do exército dos Estados Unidos da América (EUA) conseguiu entrar no Forte Tiuna, onde vivia o presidente da Venezuela, juntamente com a família, e o raptou, transportando-o para Nova Iorque, fazendo da sua saída do avião um espectáculo transmitido pelos canais de televisão para todo o Mundo. E, à semelhança do que acontecera com Bin Laden, também teve a assistência, em directo, do presidente dos EUA.  

Forte Tiuna (formalmente, o Complexo Militar do Forte Tiuna) é o nome dado a uma das instalações militares mais reconhecidas na cidade de Caracas e da Venezuela. (pt.wikipedia.org)

Uma vez mais, os líderes políticos dividiram-se quanto à avaliação que fizeram do acontecimento: uma maioria condenou-o, os minoritários, sobretudo europeus, ficaram-se por declarações indefinidas, chegando ao ponto de lhe chamar “benigno”, como aconteceu com o governo português pela voz do seu ministro dos Negócios Estrangeiros. Como se não bastasse, o dia seguinte nas televisões foi caracterizado pelo esforço da maior parte dos comentadores, como já tinha acontecido com alguns na matança em Gaza, em justificar a acção do governo norte-americano; serviram-se do narcotráfico para o lançarem como argumento contra o presidente da Venezuela. 

Já se tinha verificado o mesmo com a invasão da faixa de Gaza, mas não aprenderam com o que ali se passou, mais de 500 mil mortos, e voltaram a estar do lado errado da História, ao não condenarem expressamente o que tinha acontecido em Caracas, naquela madrugada de Janeiro. Embora haja na Europa quem não tenha acompanhado as posições da presidente da Comissão Europeia e do presidente do Conselho Europeu, o facto é que a Europa se arrojou novamente aos pés da vontade do presidente dos EUA. 

Ao não ter oposição política por parte dos estados que poderiam influenciar o rumo que as coisas vão tomar, o líder norte-americano ficou com as mãos livres para, futuramente, poder vir a anexar o que ele já anunciou que faria: o Canadá e a Gronelândia, passando todo o continente a ficar sob a sua alçada política e económica, sendo que alguns países como a Argentina e o Chile já se encontram nessa posição. Do Círculo Polar Ártico à Terra do Fogo, segundo os seus planos, nada escaparia à sua voracidade nos próximos três anos que ainda lhe restam de mandato. 

(facebook.com/curiosidadescartograficas)

Num curto espaço de meses, em nome da ganância, o Mundo assistiu à subversão das regras que o comandavam. Como numa versão de filmes de pistoleiros, já não se assaltam bancos, tomam-se como reféns os depositantes para ficarem ao serviço do gang – é o neoliberalismo na sua versão mais recente. Na lógica do que aconteceu na Venezuela, passarão a ser muitos milhões de pessoas que, embora nos seus países e continuando aparentemente a fazer a sua vida, ficam às ordens da agenda política do presidente dos EUA. E ai daquele que levantar a voz: há sempre uma força delta pronta a trazê-lo algemado para uma prisão de alta segurança. 

Se esta foi a calamidade que caiu sobre a Terra, o que a dialética nos ensina é que não foi o fim da História. Não está nem poderia estar escrito que daqui para a frente a Humanidade ficará acorrentada aos acontecimentos de 3 de Janeiro. Apesar de não ser suficiente, é necessário que a Europa mude de lideranças – esta está, irremediavelmente, comprometida –, de maneira a fazer do continente deste lado do Atlântico o adversário que consegue fazer frente ao vizinho de além mar.

Imagens de satélite, entretanto divulgadas, mostram a extensão dos danos no Forte Tiuna, principal base militar da Venezuela, após os ataques realizados pelos Estados Unidos da América. (metropoles.com)

Desta vez, perante a força, há que responder com demonstração de força e com astúcia, que é o que tem faltado. O apelo à mobilização das opiniões públicas europeias é, agora, mais necessário do que nunca. Não é que um qualquer G.I. (ou soldado do exército dos EUA) nos venha fazer levantar da cama; é que, de um momento para o outro, sem aviso, um qualquer comando aéreo, naval e terrestre poderá tomar de assalto aquilo que considerávamos património greco-latino. Para surpresa bastou o que aconteceu com o presidente da Venezuela, mesmo que houvesse suficientes provas a demonstrar que fora o chefe de um bando de traficantes. Caberia ao povo venezuelano julgá-lo, a soberania de qualquer estado reside no povo e não na Casa Branca. A Carta dos Direitos Humanos não foi escrita para isto. 

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08/01/2026

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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