Pessoas e máquinas

 Pessoas e máquinas

(Imagem gerada por IA)

Sempre que aparece uma nova tecnologia ocorrem transformações na sociedade. Não é, por isso, de estranhar o que se está a passar com a inteligência artificial (IA). No entanto, o que nos aterroriza, neste caso, é a velocidade a que essa transformação está a ocorrer, a par da ignorância do destino para onde esta tecnologia nos arrasta. É que, pela primeira vez, está-se a deixar que máquinas e programas tomem decisões que afetam o futuro da Humanidade.

Em poucas décadas, passámos de um mundo em que a informação era escassa, lenta e difícil de obter para outro em que, praticamente, todo o conhecimento humano está disponível quer para pessoas quer para equipamentos. A comunicação tornou-se instantânea, a automatização alterou radicalmente o trabalho. A medicina, a ciência e a indústria dispõem hoje de capacidades que, há muito pouco tempo, pertenciam ao domínio da ficção científica.

Com a inteligência artificial, apareceram sistemas capazes não apenas de executar tarefas previamente programadas, mas também de aprender, reconhecer padrões, produzir textos e imagens, tomar decisões e, em determinados contextos, substituir capacidades que tradicionalmente associávamos exclusivamente aos seres humanos. Se, até aqui, a automatização estava orientada para substituir humanos em tarefas manuais e repetitivas, agora essa automatização pode substituir o trabalho intelectual. Com isto, é difícil prever até onde esta transformação poderá chegar, mas talvez seja ainda mais difícil prever as suas consequências sociais.

É certo que uma tecnologia não é necessariamente boa ou má. Dependendo da forma como é utilizada, a tecnologia pode aumentar extraordinariamente as nossas capacidades ou, por outro lado, ser extremamente prejudicial. Por exemplo, a mesma inteligência artificial que ajuda um médico a identificar uma doença numa fase precoce pode ser utilizada por uma empresa para vigiar trabalhadores. A mesma capacidade de produzir informação que permite revolucionar a educação pode, também, tornar a desinformação muito mais sofisticada. Os mesmos sistemas de IA que contribuem para descobrir novos medicamentos podem aumentar a concentração de poder nas mãos de um número reduzido de empresas capazes de desenvolver e de controlar essas tecnologias.

(Imagem gerada por IA)

No entanto, as vantagens da IA são inequívocas. Em geral, é já evidente que a IA pode tornar possível o desenvolvimentos de soluções para problemas que até aqui eram difíceis ou mesmo impossíveis de resolver. Mas nenhum destes benefícios apaga os riscos. A automatização – quer mecânica quer intelectual – poderá destruir milhões de empregos e transformar profundamente muitos outros. Mesmo nos casos em que a IA não elimina postos de trabalho, poderá alterar a relação entre trabalhadores e empregadores, aumentando a vigilância e reduzindo a autonomia. Para além disso, torna-se já claro que os benefícios económicos da IA se distribuem de forma muito desigual, agravando diferenças entre indivíduos, regiões e países.

Não nos esqueçamos, também, que os sistemas de inteligência artificial aprendem com dados produzidos pelos seres humanos e, portanto, estes sistemas podem reproduzir ou, até, amplificar, os preconceitos existentes na sociedade. Assim, uma decisão aparentemente objetiva pode esconder critérios que prejudicam determinados grupos, sendo apresentada como resultado de um processo tecnológico, matemático ou estatístico, com uma aparência de neutralidade que nem sempre corresponde à realidade.

(Imagem gerada por IA)

A desinformação constitui outro desafio particularmente sério. Se já era possível manipular fotografias, vídeos e textos, a IA torna essa manipulação mais rápida, mais barata e extremamente convincente, tornando muito difícil distinguir entre verdade e mentira, e prejudicando irremediavelmente a confiança naquilo que vemos e ouvimos. Hoje, já é fácil produzir imagens, vídeos ou declarações falsas com elevado grau de realismo.

A vigilância e a perda de privacidade levantam questões igualmente importantes. A sociedade digital produz quantidades enormes de dados – voluntária e alegremente disponibilizados por cada um de nós – sobre os nossos comportamentos, preferências, deslocações, relações e escolhas. Esses dados podem ser utilizados não só para melhorar serviços, mas também para prever comportamentos, influenciar decisões ou controlar indivíduos. A questão deixa de ser apenas “quem tem acesso aos meus dados?” e passa a ser “quem possui a capacidade de me conhecer melhor do que eu próprio?”.

Por trás de muitos destes problemas encontra-se uma questão ainda mais fundamental: a concentração de poder. As tecnologias mais avançadas exigem enormes quantidades de dados, capacidade computacional, conhecimento especializado e investimento financeiro. Isto significa que uma parte crescente do poder tecnológico se concentra num número relativamente reduzido de empresas e instituições. Ora, se a tecnologia é cada vez mais determinante para a economia e para a organização social, controlar a tecnologia significa, em boa medida, controlar parcelas crescentes da própria sociedade.

(Imagem gerada por IA)

É neste contexto que a as ciências sociais e humanas podem desempenhar um papel essencial. A discussão sobre tecnologia não pode ficar limitada aos engenheiros, informáticos ou empresários que a desenvolvem. É necessário, também, compreender o que acontece às pessoas, às instituições e às relações sociais quando uma nova tecnologia é introduzida. Quem beneficia? Quem fica para trás? Que comportamentos se alteram? Que relações de poder são reforçadas ou enfraquecidas? Que novas formas de desigualdade aparecem? E que consequências, inicialmente invisíveis, poderão manifestar-se mais tarde?

A Sociologia pode ajudar-nos precisamente a encontrar respostas para estas perguntas, pode estudar os efeitos da automatização sobre diferentes profissões, analisar novas formas de desigualdade, identificar mecanismos de discriminação, avaliar transformações nas relações humanas e estudar os efeitos da vigilância digital sobre a liberdade individual. Mais importante, ainda, a Sociologia pode contribuir para antecipar problemas, em vez de nos limitarmos a tentar resolvê-los.

(Imagem gerada por IA)

É, pois, urgente uma mudança de atitude perante a inovação. Durante muito tempo, pareceu existir a ideia de que qualquer avanço tecnológico era, por definição, progresso. Porém, inovação e progresso não são necessariamente sinónimos. Uma sociedade pode ser tecnologicamente mais avançada e, simultaneamente, tornar-se mais desigual, mais controlada ou menos livre.

Tudo isto torna claro que acabou o tempo em que o desejável era que as pessoas se comportassem como máquinas (visão pré-IA) ou que as máquinas se comportassem como pessoas (visão pós-IA). Agora é, sim, o tempo de congregar esforços para pôr cada um no seu lugar, deixando às máquinas o que é das máquinas e dando às pessoas os meios para que possam decidir o seu próprio futuro.

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01/10/2026

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Fernando Boavida Fernandes

Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sendo docente do Departamento de Engenharia Informática. Possui uma experiência de 40 anos no ensino, na investigação e em engenharia, nas áreas de Informática, Redes e Protocolos de Comunicação, Planeamento e Projeto de Redes, Redes Móveis e Redes de Sensores. É membro da Ordem dos Engenheiros. É coautor dos livros “Engenharia de Redes Informáticas”, “Administração de Redes Informáticas”, “TCP/IP – Teoria e prática”, “Redes de Sensores sem Fios” e “Introdução à Criptografia”, publicados pela FCA. É autor dos livros “Gestão de tempo e organização do trabalho” e “Expor ideias”, publicados pela editora PACTOR.

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