“Portugal é um país pequeno!”

 “Portugal é um país pequeno!”

(malomil.blogspot.com

Dentro e fora do território nacional, a frase “Portugal é um país pequeno!” diz-se, escreve-se, repete-se e repete-se, até à exaustão, como uma espécie de mantra, talvez uma marca, porventura uma condenação que determina, limita, inibe e coloca o país no seu lugar.

Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, na Região Autónoma dos Açores. (Créditos fotográficos: Svetlana Shemetiuk – pexels.com)

Sob o ponto de vista geográfico, é provável que o retorno de Portugal às fronteiras peninsulares possa ter contribuído para essa autoafirmação de exiguidade. Na mesma linha estará a confrontação métrica com grandes espaços, como os de Angola ou do Brasil, e a difusão massificada de cartografias curiosas, como aquela que sobrepõe o mapa continental português com a superfície daquele território da América do Sul.

(reddit.com/r/portugal)

Na Península Ibérica, em termos de área e demografia, a comparação com a vizinha Espanha também reforçará esta visão. Se nos limitarmos ao conceito de espaço plano e euclidiano, esta é uma perspetiva “continentalcêntrica” que esquece o Atlântico, a Zona Económica Exclusiva e a Plataforma Continental e que restringe Portugal ao chão sólido que conseguimos pisar.

Numa outra dimensão, a do espaço relacional, cada um dos territórios políticos é constituído pelo seu solo, mas também pelas redes nas quais está inserido, da multiterritorialidade das diásporas às conetividades académicas, empresariais, institucionais ou diplomáticas.

Para além destes dois níveis espaciais, é preciso acrescentar um outro, o do espaço cognitivo e da correspondente Geopolítica Cognitiva, definidos pela forma como os outros nos veem e como nos vemos e sentimos a nós próprios.
Regressando à primeira perspetiva espacial, dos 27 países da União Europeia, 14 apresentam uma superfície menor que a de Portugal. Em termos de população residente, 17 têm valores abaixo.

(Direitos reservados)

Como talvez esta idiossincrasia da pequenez não afete, com a mesma carga, Estados mais exíguos como o Luxemburgo, a Bélgica, os Países Baixos ou a Irlanda, o problema poderá estar no domínio do cognitivo e dos mapas mentais, não descurando a complexa Geografia (europeia e global) do Poder, que não nos beneficia, os crónicos problemas estruturais, que não resolvemos, ou a falta de confiança e de um projeto estratégico coletivo, coeso e solidário, que não conseguimos encontrar.

Com efeito, não negando a importância da extensão territorial, tal como os “homens não se medem aos palmos”, também o Poder não se calcula a partir do tamanho. Foi por estas e por outras razões que, nas últimas páginas do seu último livro, o geógrafo de Coimbra, Fernando Rebelo (edição de 2013, na página 167), afirmou que “Portugal não é um país pequeno, Portugal não é um país pobre”.

Para leitura, fica a sugestão: “Portugal. Geografia, Paisagens e Interdisciplinaridade”, da autoria de Fernando Rebelo, editado em 2013, pela Imprensa da Universidade de Coimbra.

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27/11/2025

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João Luís Fernandes

Geógrafo. Professor do Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade de Letras de Coimbra. Investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20) da Universidade de Coimbra.

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