Quando a fraude digital ultrapassa o Estado

 Quando a fraude digital ultrapassa o Estado

Exemplo de deepfake: original à esquerda, deepfake alterado à direita. (weforum.org)

Perguntas de um cidadão, respostas do Copilot

(facebook.com/Publico)

Nos últimos meses, multiplicaram-se, nas redes sociais, vídeos que simulam debates televisivos com figuras públicas portuguesas: antigos ministros, governadores do Banco de Portugal, jornalistas conhecidos, líderes partidários. Todos parecem discutir um suposto “sistema financeiro milagroso” – o Leal Lucrivado – apresentado como meio seguro de poupança e de rendimento. Os testemunhos são convincentes, as imagens parecem reais, os cenários imitam estúdios de televisão.

Mas nada daquilo aconteceu.

Perplexo perante a sofisticação da fraude e a passividade das instituições, decidi perguntar ao Copilot – copilot.microsoft.com, ferramenta digital que responde com rigor técnico – o que está realmente em causa. O resultado é este diálogo, que aqui partilho como contributo para a literacia pública, num tempo em que a mentira se veste de verdade com uma facilidade inquietante.

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1. “Copilot, estes vídeos são reais?”

Copilot: Não. São deepfakes – vídeos manipulados com inteligência artificial que imitam rostos, vozes e cenários. Nenhum dos intervenientes participou nesses debates. Nenhum canal de televisão transmitiu estes conteúdos. O “Leal Lucrivado” não existe: é uma fraude digital destinada a captar depósitos de vítimas.

Deepfakes têm afastado mulheres de cargos públicos e da vida política. (Créditos de imagem: metamorworks/Shutterstock – olhardigital.com.br)

2. “Mas são tão convincentes que qualquer pessoa pode acreditar…”

Copilot: Precisamente. Os burlões usam ferramentas baratas e acessíveis para criar vídeos com qualidade profissional. Reproduzem logótipos de televisões, simulam painéis de debate, fabricam comentários nas redes sociais. A fraude não é apenas financeira; é perceptiva.

(e-konomista.pt)

3. “Se isto é tão evidente, porque continua a circular impunemente?”

Copilot: Porque o sistema de proteção pública está atrasado face à velocidade da fraude digital. Há quatro falhas principais:

  • A tecnologia corre mais depressa do que a lei.
  • As plataformas digitais não travam o problema.
  • As autoridades têm meios limitados e jurisdição curta.
  • A literacia digital da população é insuficiente.

4. “Então o que está a falhar?”

Copilot: Falha a capacidade de resposta – legal, tecnológica, institucional e cultural – face a fraudes que usam inteligência artificial (IA) para manipular a perceção pública.

Com a evolução das deepfakes, as pessoas criam vídeos cada vez mais realistas. (Créditos de imagem: R.bussarin/Shutterstock – olhardigital.com.br)

5. “E o que deveria ser feito?”

Copilot: Responsabilizar plataformas digitais por anúncios financeiros falsos.

Criar uma unidade nacional de combate a fraudes digitais.

Investir em educação digital, para que qualquer cidadão reconheça sinais de fraude.

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6. A confusão entre factos reais e deepfakes

Há um detalhe que explica por que estas fraudes são tão eficazes: existiu realmente um debate televisivo em que Mário Centeno, então governador do Banco de Portugal, se levantou e abandonou o estúdio durante um confronto com André Ventura. O episódio foi amplamente comentado e ficou na memória pública.

Os burlões exploram, precisamente, essa lembrança real para fabricar vídeos falsos com outras figuras públicas – como Álvaro Santos Pereira –, usando deepfakes que imitam o formato televisivo e que recriam o gesto de abandono do debate. Misturam um facto verdadeiro com uma falsificação sofisticada, criando a sensação de que “isto já aconteceu”, quando, na verdade, nunca aconteceu com as pessoas que aparecem nos vídeos fraudulentos. A verificação da Lusa confirma que Álvaro Santos Pereira nunca abandonou nenhum programa de televisão, e que tudo isto é parte de um esquema fraudulento que usa IA para promover plataformas de criptoativos.

ada vez mais somos bombardeados nas redes sociais com vídeos falsos, gerados por inteligência artificial. “Deepfake” combina áudio e vídeo de uma pessoa para fazê-la dizer ou fazer algo que nunca aconteceu. (Créditos de imagem: iStock – e-konomista.pt)

7. Uma breve bicada necessária: a falta de educação digital

Durante décadas, ensinámos Matemática, História, Gramática – mas não ensinámos como reconhecer uma fraude online, como verificar a autenticidade de um vídeo, como identificar manipulação digital, como proteger dados pessoais.

A escola não preparou os cidadãos para o mundo em que vivem.

E o Estado não preparou o país para o mundo que já chegou.

A literacia digital não é um luxo tecnológico: é uma forma de defesa cívica.

Iluminação inconsistente e sombras mal posicionadas frequentemente denunciam vídeos criados com inteligência artificial. (Créditos de imagem: Freepik – lafm.com.co)

8. Conclusão: quando a perplexidade se transforma em responsabilidade

O que me espantou inicialmente – a invasão das redes sociais por fraudes com figuras públicas – tornou-se, após este diálogo, um diagnóstico claro: a fraude digital ultrapassou a capacidade de resposta das instituições.

Mas há algo que não ultrapassou: a responsabilidade cívica de cada um de nós.

Perguntar, esclarecer, denunciar e educar são atos de cidadania.

Este artigo é apenas um contributo. Que sirva para iluminar os incautos, para alertar os atentos e para incomodar os responsáveis.

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27/08/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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