Quem ganhou com a TAP?

 Quem ganhou com a TAP?

(flytap.com)

Enquanto a companhia acumulava mais de 300 milhões de euros de prejuízo em dois anos, uma administradora saiu com meio milhão. Isso é ilegal. E é só a parte mais pequena da conta.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Em novembro de 2015, o governo de coligação de Pedro Passos Coelho vendeu 61% do capital da TAP ao consórcio Atlantic Gateway, de David Neeleman e Humberto Pedrosa, por uma fração do valor que a empresa viria a movimentar nos anos seguintes. Segundo o relato feito por Humberto Pedrosa numa comissão parlamentar de inquérito, foi Neeleman quem arquitetou, sozinho, o mecanismo financeiro que recapitalizou a TAP através da compra de 53 novos aviões Airbus – uma operação que exigiu à companhia crescer a um ritmo recorde a nível mundial, aumentando dívida e compromissos, para justificar a frota nova.

O jornal AbrilAbril, ao analisar essa operação, notou uma semelhança incómoda com um esquema de Ponzi: só funciona enquanto o crescimento continua. Nos dois últimos anos de gestão privada antes da pandemia, 2018 e 2019, a TAP registou os maiores prejuízos da sua história – mais de 300 milhões de euros. Nesse mesmo período, considerando o mesmo levantamento, a empresa pagava 130 mil euros por mês ao presidente executivo Fernando Pinto, e prémios milionários a outros gestores, incluindo Max Urban e Antonoaldo Neves – prémios pagos mesmo com prejuízos anuais superiores a 100 milhões de euros. David Neeleman, por sua vez, vendeu a sua posição ao Estado, em 2020, já em plena pandemia, com lucro – ao contrário de Humberto Pedrosa, que testemunhou ter saído com prejuízo.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Chegou a pandemia e, com ela, o Estado voltou a assumir o controlo maioritário da companhia.

Não trouxe alívio aos números. O caso mais visível, e o que acabaria por derrubar um ministro, foi a indemnização de 500 mil euros paga a Alexandra Reis pela sua saída da administração, em dezembro de 2022 – um valor que uma perícia da Inspeção-Geral de Finanças viria a classificar como ilegal, pago por pouco mais de oito meses de trabalho no cargo. O escândalo provocou a demissão do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e está hoje a ser investigado pela Polícia Judiciária sob o nome “Operação Cheque In”, que já levou à constituição como arguido um dos advogados que assessorou a operação.

Paralelamente, corre uma segunda investigação, apelidada “Voo TP789”, focada nos pagamentos feitos a gestores e consultores durante toda a gestão privada da TAP, incluindo a arquitetura da compra dos 53 Airbus. Christine Ourmières-Widener, a presidente executiva que sucedeu a este período, tornou-se ela própria alvo de críticas por indemnizações e salário na casa dos milhões – o mesmo tipo de números que, do lado do Estado, se traduziram em contribuintes a pagar mais de 200 mil euros por dia, só em juros, para financiar os 3,2 mil milhões de euros injetados na companhia desde 2020, conforme estimativa do ex-secretário de Estado Sérgio Monteiro.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

A conta está longe de fechada. Em 2026, a TAP concluiu finalmente o plano de reestruturação exigido por Bruxelas – incluindo a venda da sua posição na Cateringpor e na empresa de handling SPdH, hoje Menzies, e a devolução ao Estado de quase 25 milhões de euros resultantes dessa operação – e entrou na fase decisiva da privatização. O grupo britânico IAG (dono da British Airways e da Iberia) desistiu da corrida em abril, alegando que a venda de apenas 44,9% do capital, com o Estado a reter controlo sobre decisões estratégicas, não lhe permitiria gerar valor suficiente. Ficaram dois concorrentes na fase final: a Air France-KLM e a Lufthansa, ambas convidadas pelo Governo a apresentarem propostas vinculativas, com decisão esperada para o verão. Nenhuma das duas empresas em disputa pela TAP tem, até à data deste artigo, uma relação limpa com a segurança dos próprios passageiros – a Air France, recorde-se, foi condenada em maio deste mesmo ano a pagar 225 mil euros pela morte de 228 pessoas no voo AF447, uma fração ínfima do seu lucro anual.

Um Airbus A321neo da empresa. (it.wikipedia.org)

A pergunta que este dinheiro todo levanta não é complicada de formular, só difícil de responder com uma única resposta: quem, exactamente, beneficiou com este ciclo de recapitalizações, prejuízos e indemnizações? Não foram, com toda a evidência disponível, os contribuintes portugueses, que injetaram milhares de milhões sem garantia de reaver o valor. Não foi, tudo indica, a própria TAP enquanto empresa operacional, que acumulou prejuízos recorde justamente nos anos de maior expansão. Os nomes que aparecem, de forma recorrente, do lado dos ganhos claros e documentados são poucos: um empresário que vendeu a tempo com lucro; uma administradora que recebeu meio milhão de euros por sair, depois de oito meses em funções, através de um mecanismo que a fiscalização do Estado considerou ilegal; e uma sucessão de gestores de topo cujos prémios não pareciam corresponder aos resultados que a empresa apresentava aos seus acionistas – entre eles o próprio Estado.

(rtp.pt)

Alexandra Reis recebeu, em oito meses de administração, mais de 60 mil euros por mês, contando a indemnização final. É mais do que a maioria dos portugueses vê num ano e meio de trabalho, e mais de sessenta e cinco cabazes de compras – ao preço do cabaz alimentar de 63 produtos essenciais que a DECO PROteste monitoriza semanalmente, cerca de 255 euros em 2026 – por cada mês em funções. Vista deste ângulo, a pergunta que fica no ar já não é só sobre gestão de empresas públicas: é sobre quanto vale, em Portugal, um mês de trabalho de quem manda, comparado com uma vida inteira de trabalho de quem não manda – a mesma pergunta, aliás, que este trabalho já tratou com mais profundidade noutro artigo, a propósito do preço que a Justiça atribui a uma vida perdida num desastre aéreo: entre menos de dois mil euros, numa Justiça francesa, e quase dois milhões, consoante o país, o ano e quem teve acesso a um bom advogado.

É a mesma lógica, no fundo, que explica por que uma administradora da TAP conseguiu sair com meio milhão de euros depois de oito meses de trabalho, enquanto contribuintes portugueses continuam, dia após dia, a pagar juros sobre milhares de milhões que talvez nunca voltem a ver: o valor de uma saída, de uma vida, de um prejuízo, não é fixado pelo que aconteceu. É fixado por quem tem acesso – a um advogado, a uma jurisdição, a uma cláusula contratual – para decidir o preço antes de mais ninguém perguntar.

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Fontes:

Polígrafo, jun. 2023, e Observador, “Vários gestores renunciaram desde que a TAP é pública” (privatização de 2015, saídas de administradores, salários de Fernando Pinto); AbrilAbril, “Da indemnização de Alexandra Reis aos tribunais arbitrais” (mecanismo de recapitalização via Airbus, prejuízos de 2018-2019, comparação com esquema Ponzi feita pela própria fonte, não por este artigo); Observador, “Os fundos Airbus e os pagamentos a gestores e consultores” (Operação Voo TP789, testemunho de Humberto Pedrosa); CNN Portugal e Público, 2023 e set. 2025 (indemnização de Alexandra Reis, Operação Cheque In); Porto Canal (críticas a indemnizações e salário de Christine Ourmières-Widener); Jornal Económico, jun. 2023 (declarações de Sérgio Monteiro sobre custos diários em juros do resgate da TAP); Observador, ECO, CNN Portugal e Governo de Portugal, abr. -jun. 2026 (fase final da privatização, desistência do IAG, conclusão do plano de reestruturação, devolução de 24,99 milhões de euros ao Estado). DECO PROteste, mai. 2026 (cabaz alimentar de 63 produtos,~255€) para as conversões em cabazes de compras – aproximações ilustrativas, não cálculo atuarial. A comparação com o preço de uma vida em desastres aéreos foi desenvolvida em profundidade num outro artigo (“225 Mil Euros por 228 Vidas”), referido aqui apenas como eco, não como pré-requisito de leitura.

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Nota do Director:

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24/09/2026

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Ana Paula Cruz

Ana Paula Cruz é jornalista investigativa, fotógrafa, compositora e escritora brasileira, radicada entre o Recife e Lisboa. Desenvolve o projeto VINCERE (código em “Python” e dados públicos e verificáveis), um eixo de investigação sobre fraude institucional, desigualdade estrutural e arquitetura do poder entre o Brasil e a Europa. Assina poesia e prosa sob o pseudónimo Cinza Viva; e fotografia sob o nome Apcruz. Tem licenciatura em Estudos Europeus; pós-graduação em Direito Penal e Medicina Forense, Compliance e Governança, além de estar na etapa final de um MBA (Master of Business Administration).

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