Relações entre a UE e os EUA sofrem mudança estrutural
(vfh-online.de)
Na sequência do pico da crise da Gronelândia e por via das críticas de Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Kaja Kallas, Alta Representante da União Europeia (UE) para a política externa – também conhecida como chefe da diplomacia da UE, instou os países europeus a deixarem de externalizar a sua segurança e defesa.

(op.europa.eu)
Efetivamente, na sua ótica, a política do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump está a fazer séria mossa nas relações entre a Europa e aquele país norte-americano, de tal modo que as mudanças são “estruturais, e não apenas temporárias”. Por conseguinte, Kaja Kallas alerta para os perigos da externalização da segurança, numa nova era de “política baseada no poder coercivo”.
É certo que as tensões foram atenuadas pelo acordo-quadro sobre a segurança no Ártico, cujos pormenores continuam em discussão, mas a chefe da diplomacia da UE, a 28 de janeiro, na conferência anual da Agência Europeia de Defesa, considerou: “É possível que a maior mudança na reorientação fundamental esteja a acontecer do outro lado do Atlântico: um repensar que abalou as relações transatlânticas até aos seus alicerces.”

Obviamente, a Europa quer “laços transatlânticos fortes” e “os EUA continuarão a ser o parceiro e o aliado da Europa”, mas o bloco europeu tem de se adaptar “às novas realidades”, porque “a Europa já não é o principal centro de gravidade de Washington”. E Kaja Kallas adverte que a mudança não surgiu só com Donald Trump, mas “já está em curso, há algum tempo” e “significa que a Europa tem de dar um passo em frente”, pois “nenhuma grande potência, na História, alguma vez subcontratou a sua sobrevivência e sobreviveu”.
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O secretário-geral da NATO reconheceu o mérito do presidente dos EUA, por pressionar os aliados europeus a gastarem mais dinheiro na defesa. “Donald Trump é muito importante para a NATO e está muito comprometido com a NATO”, afirmou Mark Rutte, em declarações no Parlamento Europeu (PE), numa altura em que muitos eurodeputados se mostram preocupados com a retórica agressiva do inquilino da Casa Branca contra a Europa.

Enquanto as ameaças de Trump para controlar a Gronelândia foram definidas como “o fim da NATO” por Mette Frederiksen, primeira-ministra dinamarquesa, o secretário-geral da NATO acredita que o presidente dos EUA “merece ser defendido” e “está a fazer muitas coisas boas” pela aliança. “Os 2% [meta de gastos do produto interno bruto (PIB) em defesa] alcançados por todos os países da NATO, no final de 2025, nunca teriam acontecido sem Trump”, disse Mark Rutte às comissões de Segurança e Defesa e Relações Exteriores do PE.
Sustenta que nunca a Espanha, a Itália, a Bélgica e o Canadá teriam decidido passar de 1,5% para 2%, sem Donald Trump e que, sem ele, não se teria chegado ao compromisso de 5%, a meta de gastos na defesa. Por isso, elogia-o, quando ele faz “coisas boas” e nem se importa que o presidente dos EUA publique mensagens de texto pessoais (alusão à troca de mensagens que foi divulgada, na qual Mark Rutte descreveu o bombardeamento de Trump sobre o Irão, em junho de 2025, como “decisivo” e “extraordinário”.

(pt.wikipedia.org)
O líder nominal da NATO (bandeado para os EUA) mostrou-se convicto de que a Europa depende do apoio dos EUA, em matéria de segurança, e não mediu as palavras, ao reiterar a ideia ante os eurodeputados. “Se alguém aqui pensa que a União Europeia pode defender-se sem os EUA, continue a sonhar. Se os países europeus quisessem defender-se sozinhos, teriam de investir 10% do seu PIB, para construírem a sua capacidade de armamento nuclear, o que custaria milhares de milhões de euros. Nesse cenário, perderiam o principal garante da nossa liberdade, que é o escudo nuclear dos EUA”, explicitou, terminando com o irónico “Boa sorte!”
Alguns eurodeputados elogiaram Mark Rutte por, na semana anterior, ter ajudado a diminuir a tensão entre os EUA e a UE, em relação à Gronelândia, mas pediram informações sobre o acordo que o secretário-geral estabeleceu com Trump para o futuro da ilha ártica. Porém, Mark Rutte não forneceu pormenores específicos, embora tenha explicado que foram acordadas duas linhas de trabalho com a administração norte-americana. A primeira prevê que a NATO assuma mais responsabilidades na defesa da região do Ártico, para “impedir que os Russos e os Chineses tenham mais acesso” à região, ao passo que a segunda envolve o diálogo direto entre os EUA e os líderes da Dinamarca e da Gronelândia.

As conversações estão em curso, mas Mark Rutte diz não estar mandatado para intervir nas mesmas. Entretanto, abordou outros temas, nomeadamente, a guerra na Ucrânia. Elogiou a UE, pelo empréstimo de 90 mil milhões de euros a Kiev, mas instou o PE a ser “flexível” e a evitar a inclusão de uma cláusula rígida que exija que o dinheiro seja utilizado apenas para comprar armas fabricadas na Europa. “A Europa está, agora, a construir a sua indústria de defesa, […] mas, neste momento, não consegue fornecer, nem de longe, aquilo de que a Ucrânia precisa para se defender, hoje, e para dissuadir, amanhã”, afirmou.
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Unsplash)
O secretário-geral da NATO está a ser criticado, depois de ter dito que a UE continua a sonhar com a ideia de se tornar independente dos EUA, o seu maior aliado, em questões relacionadas com a segurança e a defesa. Os seus comentários surgiram na sequência da tentativa de Donald Trump de confiscar a Gronelândia à Dinamarca por medidas punitivas, disputa sem precedentes que pôs a aliança, de quase 80 anos, à beira do colapso.
Mark Rutte sustenta que as nações europeias teriam de gastar 10% do seu PIB, em vez dos 5% previstos na meta atual, para compensar a perda do apoio de Washington.
A intervenção do secretário-geral da NATO no PE atraiu, logo, o interesse das redes sociais, com os clips amplamente partilhados pelos utilizadores e analisados por especialistas.
Paula Pinho, porta-voz da Comissão Europeia, ao invés, sustenta que o foco político deve continuar a ser o de tornar a UE “cada vez mais resiliente” e “cada vez mais independente”, em “várias frentes”, incluindo a segurança e a defesa. “Temos uma História positiva para contar, em termos da forma como conseguimos reduzir a nossa dependência das importações de combustíveis fósseis da Rússia. […] Esta dependência verifica-se também noutras áreas: na defesa, nas matérias-primas essenciais. […] Estamos empenhados em fazer tudo o que é necessário para reduzir essa dependência, para reduzir essa exposição”, afirmou Paula Pinho, na tarde de terça-feira (27 de janeiro).

Escola do Porto da Universidade Católica. Integra a Comissão
Europeia desde 2000, onde ocupa atualmente o cargo de
porta-voz principal. (m.porto.ucp.pt)
Paula Pinho referia-se ao discurso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na semana anterior, no qual apelou a uma maior “independência europeia”, em resposta à crescente instabilidade geopolítica e aos confrontos e dando a conhecer uma futura estratégia de segurança, com especial destaque para a região do Ártico, alvo de disputas acirradas. “Estamos a reunir uma série de medidas com um único objetivo: garantir que podemos [alcançar] essa independência gradual”, relevou Paula Pinho.

(pt.wikipedia.org)
No entanto, a reação mais feroz contra Mark Rutte veio de França, ferrenha defensora do conceito de autonomia estratégica e da preferência pelo “Made in Europe”, em licitações públicas. “Não, caro Mark Rutte. Os europeus podem e devem tomar conta da sua própria segurança. Até os Estados Unidos [da América] estão de acordo. É o pilar europeu da NATO”, afirmou o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, na sua conta no X.
Benjamin Haddad, vice-ministro francês dos Assuntos Europeus, ecoou a mensagem, vincando o facto de a Europa, e não os EUA, ser o maior doador a apoiar a Ucrânia. “Temos de ir muito mais longe [na defesa]. Não temos outra opção. Vemos um Mundo que está a tornar-se mais brutal, mais violento. Vemos ameaças vindas de aliados americanos contra a soberania da Dinamarca”, disse Haddad, numa entrevista à DW, enfatizando: “Chegou a hora de tomarmos as rédeas da situação e defendermos a nossa segurança. Mas a verdade é que os Europeus não são fracos. Temos as ferramentas. Temos os instrumentos.”

(commission.europa.eu)
Nathalie Loiseau, eurodeputada francesa que esteve presente na reunião da comissão parlamentar em que o líder nominal da NATO discursou, fez uma avaliação mais dura. “Foi um momento vergonhoso”, escreveu, nas suas redes sociais. “Rutte pensa que ser rude com os Europeus vai agradar a Trump. Não precisamos de um fanático de Trump. A NATO precisa de reequilibrar os esforços dos EUA e da Europa.”
E Charles Michel, antigo presidente do Conselho Europeu, ridicularizou o chefe da NATO, por ter chamado Trump de papá, na guerra entre Israel e o Irão, em 2025. Trump usou, mais tarde, o termo para defender as suas decisões de política externa. “Caro Mark Rutte, está enganado. A Europa vai defender-se. E Donald Trump não é meu pai. O futuro da Europa exige visão, coragem e liderança. Não resignação, submissão e fatalismo”, atirou Charles Michel.
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Voltando ao discurso de Kaja Kallas, é de assinalar que traçou um panorama sombrio da situação atual. Classificou a Rússia como “grande ameaça à segurança”, a China como “desafio a longo prazo” e o Médio Oriente como região “completamente imprevisível”. E disse que tais desenvolvimentos, juntamente com a política externa sem limites de Donald Trump, colocaram “forte pressão sobre as normas internacionais”, sobre “as regras” e sobre “as instituições que as aplicam”, construídas “ao longo de 80 anos”. “O risco de um regresso total à política de poder coercivo, às esferas de influência e a um Mundo em que o poder faz a razão é muito real”, observou a chefe da diplomacia da UE, pelo que exortou as nações europeias a “reconhecerem que esta mudança tectónica veio para ficar e a agirem com urgência”.

Desde a reeleição de Donald Trump, a UE lançou várias iniciativas multimilionárias para aumentar os gastos na defesa, para promover as indústrias nacionais e para reduzir a dependência de armas fabricadas nos EUA. O bloco estabeleceu 2030 como prazo coletivo para alcançar a “plena prontidão de defesa”, destinada a deter um possível ataque russo a um estado-membro da UE. Porém, como vimos, tais esforços foram objeto de desdém para o secretário-geral da NATO, que ironizou, dizendo aos Europeus para “continuarem a sonhar” com a possibilidade de se tornarem independentes, em matéria de segurança e defesa.
Kaja Kallas, no seu discurso, não se referiu à intervenção polémica de Mark Rutte. Em vez disso, apelou a maior coordenação e complementaridade entre a UE e a NATO, que têm 23 membros em comum, para garantir partilha mais justa dos encargos entre os aliados. “Enquanto os Estados Unidos se voltam para o exterior e para além da Europa, a NATO precisa de se tornar mais europeia, para manter a sua força. Para isso, a Europa tem de agir”, afirmou.
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O grande desafio aos EUA, à NATO e à Europa, para a Gronelândia, é o gelo, que estrangula portos, sepulta minerais e transforma as linhas de costa em campos minados de lascas brancas e azuis a ameaçarem navios, em todo o ano. E a única forma de vencer essa barreira é com quebra-gelos: navios enormes, motores potentes, cascos reforçados e proas pesadas capazes de esmagarem e de fenderem massas congeladas.

Os EUA têm só três unidades e assinaram acordos para obtenção de mais 11, mas só conseguem adquirir navios adicionais junto de adversários, ou de aliados que hostilizaram. Fornecedor-chave é a Finlândia, que enfrenta os seus desafios de quebra de gelo. Paradoxalmente, o aquecimento dos mares, devido às alterações climáticas, não significa que o país dependerá menos de quebra-gelos, no futuro.
Apesar de ter suavizado a retórica, o presidente dos EUA parece determinado em que o seu país fique com a Gronelândia, por motivos de segurança e económicos: manter “o grande e belo pedaço de gelo” fora das mãos de Moscovo e de Pequim, garantir um ponto estratégico no Ártico para meios norte-americanos e explorar a riqueza mineral da ilha.

Ainda não há forma eficaz de “atravessar centenas de pés de gelo”, sem a capacidade crucial dos quebra-gelos, que abrem rotas por mares gelados. E, ainda que se decidisse enviar material dos EUA para a Gronelândia já, haveria “um intervalo de dois ou três anos em que, na maioria do tempo, não conseguiriam aceder à ilha”, diz Alberto Rizzi, investigador no Conselho Europeu de Relações Externas.
Se os EUA querem mais quebra-gelos, têm só quatro opções: os estaleiros dos adversários estratégicos, a China e a Rússia, ou dos aliados, de longa data, o Canadá e a Finlândia, alvos de críticas duras e de ameaças de tarifas por parte de Trump por causa da Gronelândia. Os quebra-gelos são caros e exigem mão-de-obra especializada que só existe em alguns locais, como a Finlândia, com competência forjada no gelado Mar Báltico.

Externas. (ecfr.eu)
A Finlândia construiu cerca de 60% da frota mundial, de mais de 240 quebra-gelos, e concebeu metade dos restantes. A Rússia tem a maior frota do Mundo, com cerca de 100 navios, incluindo colossos movidos a reatores nucleares. A seguir, vem o Canadá, que deverá duplicar a frota para cerca de 50 quebra-gelos, segundo um relatório de 2024, da Aker Arctic, empresa de conceção de quebra-gelos sediada em Helsínquia.
Embora os EUA e a UE, incluindo Dinamarca e Finlândia, tenham prometido aumentar o investimento na Gronelândia, quem tem capacidade de força para chegar ao vasto território gelado com cerca de três vezes o tamanho do Texas é a Finlândia, que tem problemas internos no horizonte, com as alterações climáticas a desestabilizarem os padrões meteorológicos.
Neste inverno, o aquecimento global fez com que a frota de quebra-gelos do país só tivesse sido acionada, pela primeira vez, na noite de Ano Novo, quase duas semanas mais tarde do que em 2024. As alterações climáticas significam condições extremas, ou seja, invernos muito amenos com muito pouco gelo, quando é necessária pouca assistência de quebra de gelo, mas trarão fenómenos extremos no outro extremo.

O vento é o principal culpado. Com invernos mais ventosos, massas de gelo deslocam-se para águas pouco profundas ou para a costa e começam a acumular-se. Onde os campos de gelo eram tipicamente de 60 a 80 centímetros de espessura, podem agora chegar aos 10 metros em algumas zonas. E os capitães de quebra-gelos dizem que os invernos estão a ficar cada vez mais difíceis.
Seis quebra-gelos da Arctia são, atualmente, necessários para garantir que o comércio marítimo finlandês decorre sem entraves, durante o inverno.
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Se os EUA pretendem ter um papel crucial na defesa do Ártico, só têm uma hipótese: fazerem ponte com os países europeus, nomeadamente, os países nórdicos, e não os guerrearem, comercial ou militarmente. Por outro lado, a UE tem a obrigação de olhar para todos os mares e oceanos que a delimitam e enriquecem: o Mediterrâneo, com os respetivos mares locais, o Atlântico e o Ártico, com os respetivos mares. E Mark Rutte, historiador e político, em vez de se colocar a favor dos EUA, deve ser capaz de mediar este desígnio estratégico. Caso contrário, arrisca a ver a NATO morrer-lhe nas mãos. Parece que não há estrategos com mundivisão acertada!
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29/01/2026