Renascer entre as flores e o olhar dos cruéis
(Créditos fotográficos: Steffen Lemmerzahl – Unsplash)
Não quero inventar nada, porque a Natureza se encarrega disso. Estamos a experimentar mais um mês de Abril “tão natural quanto a luz do dia” – como canta Charlie Brown Jr. – e tão florido entre nós, mas com cores de cinza, de destruição e de luto em tantos territórios do planeta. É o pó que sobra da intolerância e da soberba dos cruéis que matam na Ucrânia, na Faixa de Gaza, no Irão ou no Sudão e dessa gente que comemora com champanhe a aplicação da pena de morte a “quem mate por ódio” ou cause dano a Israel, a dita Terra Santa.

Neste mês de Abril, assumida época das giestas, dos lírios, do rosmaninho e das amendoeiras, há também quem manifeste um despudorado olhar, desmedidamente cínico e de única direcção. Assistimos, pois, a uma deplorável regressão civilizacional, ao arrepio da Organização das Nações Unidas (ONU) e do direito internacional, negando os princípios de uma sociedade desenvolvida, organizada e culturalmente evoluída.
Perante os que querem matar palestinianos mais rapidamente e sem escrutínio, pouco vale a beleza dos dias crescentes e luminosos, muito menos as paisagens de cores vivas, cujos aromas relembram o renascimento e a biodiversidade.

“Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não ervas”, diz-nos o poeta António Ramos Rosa, consciente das dificuldades do seu e do nosso caminho que, desde que nos possibilitem esse direito, vamos descobrindo nos tempos de pedra e de sangue.
Mais de meio século depois do “dia inicial inteiro e limpo” evocado por Sophia de Mello Breyner Andresen, muitos de nós já renegam a esperança dessa madrugada que nos fez emergir “da noite e do silêncio” para, livres, habitarmos “a substância do tempo”. Em Abril, que igualmente foi de cravos vermelhos, são agora menos audíveis as vozes da solidariedade e da democracia, apesar dos gerânios que ainda alegram os parapeitos das janelas e dos campos atapetados de margaridas e de malmequeres.
O dia de ontem foi, tradicionalmente, sagrado para os cristãos – simbolizando a vida, a renovação e a ressurreição – e significa ainda “passagem” (“Pesach”), ao rememorar a libertação do povo hebreu da escravidão no Egipto. Todavia, as palavras desencontram-se no seu próprio contexto. Por isso, a Resolução 73/329 da Assembleia Geral da ONU oficializou o Dia Internacional da Consciência, que foi assinalado pela primeira vez em 2020.

Se as grandes flores brancas e elegantes dos jarros trazem serenidade aos jardins e parques que os acolhem genuinamente, muitos de nós – que partilhamos semelhantes átomos e a energia que anima as flores mediterrânicas da esteva, assim como as camélias em plena floração – precisamos, urgentemente, de incentivos para corporizarmos acções que promovam a paz, a inclusão e a tolerância. É pena que a ONU esteja tão desacreditada e enfraquecida pelos poderosos do Mundo. Não obstante completar 80 anos de existência, enfrenta uma grave crise de legitimidade, por ceder ao “fatalismo dos senhores da guerra”.
Apercebemo-nos de uma organização marginalizada e incapaz de mediar acordos de paz em conflitos cruciais, sobretudo pelo poder de veto dos membros permanentes no Conselho de Segurança (Estados Unidos da América, Rússia, China, França e Reino Unido). Não menos desesperante é a sua frágil situação financeira com cortes orçamentais que impedem a ajuda humanitária, na insuficiência de uma contribuição atempada por parte dos Estados-membros.
Porém, como afirmou o anterior Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista à “ONU News” (em 22 de Setembro de 2025), “não há nada que possa substituir as Nações Unidas”, embora enfatize a dificuldade de reformar a instituição num mundo fragmentado. Por outro lado, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pede reformas e uma “nova agenda de paz” para travar a “ganância sem limites” e a impunidade que destrói as esperanças de Abril e as expectativas do calendário global.
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 5 de Abril) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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06/04/2026