Saudades de quê?
A rainha Isabel de Aragão passou os seus últimos anos em Coimbra, onde está sepultada no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. (visitecoimbra.pt)
A lenda manda beijar a mão de uma rainha morta há seis anos. Ninguém, ao contar a história, parou para pensar no cheiro.

Se a cerimónia do trono de Coimbra tivesse mesmo acontecido como a lenda conta – já assinalei, noutra ocasião, que a fonte mais próxima dos factos nunca a confirma –, há um problema físico que nenhuma versão romântica resolve: sem qualquer técnica de embalsamamento conhecida em Portugal no século XIV, um corpo humano, seis anos depois da morte, não tem mão para beijar. Tem, na melhor das hipóteses, ossos. A imagem que sobreviveu nos quadros e nos livros – Inês serena, coroada, digna – é uma escolha estética de quem contou a história séculos depois, não uma descrição de quem lá esteve. Ninguém que testemunhasse aquilo, se tivesse mesmo acontecido, sairia dali a pensar em amor eterno. Sairia a vomitar.

Essa distância entre o que se imagina do passado e o que o passado realmente era – fisicamente, sensorialmente – não se limita a esta lenda. É, também, um exercício útil para desmontar uma nostalgia mais ampla, essa vontade recorrente de imaginar “antigamente” como um tempo mais puro, mais são, mais decente do que o presente. A história da higiene medieval é um bom lugar para testar essa nostalgia contra os factos, porque a resposta não é simples nem satisfaz nenhum dos dois lados do mito.
Primeiro, o que é exagero: a ideia de que ninguém, na Idade Média, alguma vez tomava banho é, ela própria, um mito – mas um mito mais recente do que se pensa, popularizado sobretudo pelo Iluminismo do século XVIII, que tinha interesse em pintar a Idade Média como um poço de trevas para melhor se vender a si próprio como luz. Segundo o historiador português Oliveira Marques, em “A Sociedade Medieval Portuguesa”, “o costume muçulmano das abluções diárias” deixou marca duradoura nos hábitos a sul do Tejo – Portugal herdou, da presença romana e depois muçulmana, uma cultura de banho que a Europa mais a norte não teve na mesma medida. Casas de banho públicas, os chamados “estufas”, funcionavam em várias cidades europeias importantes ainda no século XIII e início do XIV, com água quente, sabão e ervas.

Depois, o que é real, e desconfortável: essas casas de banho públicas fecharam-se, em massa, a partir de meados do século XIV – não por moralismo religioso isolado, mas, sobretudo, pelo medo concreto da peste negra, que devastou a Europa a partir de 1348 e matou, em algumas estimativas, entre um terço e metade da população do continente. Os médicos da época acreditavam que a água quente abria os poros da pele e deixava o corpo mais vulnerável ao “miasma” – o ar corrompido que se pensava transmitir a doença. Fechar os banhos públicos parecia, na lógica médica do tempo, uma medida de saúde pública, não de sujidade voluntária. O resultado prático, de qualquer forma, foi o mesmo: uma Europa, desde então, mais suja.

Roupa interior de linho, trocada com regularidade, passou a fazer o trabalho que a água já não fazia – um “banho seco”, que absorvia o suor e disfarçava o cheiro sob as roupas mais nobres, raramente lavadas por serem de veludo ou seda. As roupas exteriores, quando lavadas, eram esfregadas com uma mistura de água, cinza e urina – a amónia da urina funcionava, de facto, como agente de limpeza, um detergente doméstico com séculos de uso documentado, do Império Romano até à Idade Moderna. Os dentes não se escovavam; os piolhos eram companhia esperada, não vergonha – havia, inclusivamente, quem colocasse pedaços de toucinho no cabelo para os atrair para longe do couro cabeludo. Nada disto é anedota isolada: é o quotidiano sensorial de qualquer corte europeia, incluindo a portuguesa, durante séculos.

O ponto não é que o passado fosse todo imundo, nem que fosse todo higiénico – é que era as duas coisas ao mesmo tempo, de forma inconstante, dependente da estação, da classe social, da cidade, do medo do momento. E é precisamente essa complexidade que a nostalgia, seja ela qual for, tende a apagar. Quem hoje fala de “voltar aos valores de antigamente” raramente está a imaginar piolhos, urina a servir de detergente, ou uma taxa de mortalidade infantil que, na Europa pré-moderna, rondava um em cada três ou quatro nascimentos. Está a imaginar uma versão editada, escolhida a dedo, do passado – a coroa, não a decomposição por baixo dela.
Esta operação de edição não é exclusiva de nenhuma época, nem de nenhum lado do espectro político – é praticamente universal, e por isso mesmo perigosa de ignorar. Os cientistas sociais têm um nome para a tendência psicológica de sobrevalorizar o passado e desvalorizar o presente: “enviesamento declinista” (“declinism”), documentado em estudos de Psicologia Social que mostram como, geração após geração, as pessoas relatam achar que “as coisas eram melhores antes” – mesmo quando os indicadores objetivos (esperança de vida, mortalidade infantil, violência, pobreza extrema) mostram precisamente o oposto ao longo dos séculos. Não é um fenómeno de um partido, de um país ou de uma década específica: é uma tendência da memória humana, que lembra o conforto e esquece o cheiro.

O mesmo mecanismo de edição que já vimos na lenda – a coroa que se mostra, a decomposição que se esconde – funciona, hoje, em política. Em Portugal, essa nostalgia tem, pelo menos, dois sintomas visíveis, e este trabalho regista-os sem lhes atribuir uma única causa ou um único responsável político, porque nenhum dos dois é recente nem pertence a um só lado. O primeiro é o desengajamento cívico: a abstenção nas eleições presidenciais portuguesas cresceu de 24,6%, na primeira eleição livre depois do 25 de Abril, em 1976, para um máximo histórico de 60,8% em 2021 – descendo ligeiramente para cerca de 50% nas presidenciais de 2026, entre a primeira e a segunda volta. Meio século de democracia e metade do eleitorado, em média, já nem aparece para escolher quem o representa. O segundo sintoma é mais difícil de medir com números, mas surge regularmente no debate público: a pergunta, feita de formas diversas por vozes políticas diferentes ao longo de décadas, sobre quem “pertence” verdadeiramente ao país. É uma pergunta sem resposta biológica estável – estudos genéticos sobre a população ibérica mostram, de forma consistente, que a mistura de origens é anterior a qualquer fronteira que hoje se queira desenhar ou fiscalizar, com quase um quinto dos homens portugueses e espanhóis a carregar, na linha paterna, marcadores de ascendência que a Inquisição passou séculos a tentar apagar.

Nenhum destes dois sintomas nasceu no ano passado, nem com este ou aquele governo. A desconfiança nas instituições democráticas e a ansiedade sobre quem “é” ou “não é” de um lugar são, ambas, mais antigas do que qualquer partido atualmente no poder – atravessam regimes, décadas, e ideologias diferentes, sempre com a mesma estrutura por baixo: a ideia de que existiu, algures, um passado mais limpo, mais claro, mais seguro, ao qual seria possível regressar se apenas se identificasse e expulsasse a coisa errada.

A história da higiene medieval devia servir de vacina contra essa ideia especificamente: o passado que se idealiza não existiu limpo. Era urina no tecido, piolhos no cabelo, peste na rua, e uma taxa de mortalidade que hoje pareceria uma catástrofe humanitária permanente. Não há, em lado nenhum da História portuguesa, um momento anterior mais puro para onde regressar – porque a sujidade, tal como a mistura de sangue que também já foi aqui documentada, sempre esteve lá, por baixo da coroa.
A mão que a lenda manda beijar não estava limpa nem intacta. Estava, na melhor das
hipóteses, seis anos morta. É a imagem exata do que acontece sempre que se beija o passado sem perguntar primeiro o que restou dele.
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Fontes:
JMDorropio. wixsite. com, “Higiene pública e privada na Idade Média” (banhos públicos / “estufas” até ao século XIV, encerramento após a peste negra, citando A. H. de Oliveira Marques, “A Sociedade Medieval Portuguesa”); Passaronoombro. com, “Idade Média em Portugal: Explorando as Práticas de Higiene”; Educonse, “Como era a higiene na Idade Média?” (roupa interior de linho como “banho seco”, mito da origem iluminista sobre a “sujidade medieval”); Sites. google. com/Pequenas Historietas, “História do Banho” (influência romana e muçulmana nos hábitos de banho a sul do Tejo, citação direta de Oliveira Marques); Mega Curioso, “13 inacreditáveis e nojentas práticas de higiene da Idade Média” (uso de urina na lavagem de roupa); PORDATA e Instituto +Liberdade, “Evolução da taxa de abstenção nas eleições presidenciais em Portugal” (1976-2021 ); CNN Portugal e Observador, jan. -fev. 2026 (abstenção nas presidenciais de 2026); Público, fev. 2026 (abstenção na 2. ª volta).
“Declinism” é termo estabelecido em Psicologia Social, associado ao viés de “rosy retrospection” (retrospetiva cor-de-rosa) – conceito confirmado em múltiplas fontes secundárias sobre vieses cognitivos; não foi identificado nesta sessão um único estudo primário fundador a citar por nome.
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21/09/2026