Se cada um conseguisse transformar um grão de areia
(Créditos fotográficos: Andreas Kind – Unsplash)
À medida que fui começando a procurar conhecer, conhecer mesmo, a realidade, em vez de querer mudá-la com soluções mágicas de grandes promessas e grandes feitos, melhor fiquei compreendendo que as “grandes transformações” não passam de pequenas ilusões e que tudo fica igual. Ao passo que, se operar pequenas mudanças sem ilusões, ajudo a transformar um pequenino grão de areia na praia. Não é muito, é muitíssimo porque, se cada um conseguisse transformar um grão de areia, a praia ficaria outra.


E vi-me um “desiludido da vida”, que me foi tornando cínico em relação à própria natureza humana. Todavia, nunca me deixarão de comover os que têm fome, os que estão abandonados ou esquecidos: mesmo sabendo que também não saciariam a fome de quem não sacia a sua, se os papéis se invertessem e que abandonariam e esqueceriam do mesmo modo os mais.
Se os que hoje nada têm, amanhã tivessem o que têm os que tudo têm, seriam, por um todo, iguais. Isto não é mutável. Só se pode mesmo fazer um pouquinho para ajudar ao muito que seria – nunca será – para ajudar a realidade a ser menos má.
É aqui que resta a espiritualidade para fazer algo de materialmente melhor. Seja pela Arte (verdadeira), seja pela (verdadeira) Fé. A primeira devolve-nos o sentimento do Belo, a segunda o Belo do Mistério. Julgo ser mesmo esse o significado último de Cristo ser Filho do Homem e Filho de Deus. E para o caso conta pouco que se creia nesse Divino ou se olhe essa esplendorosa criação como uma construção ética. O resto nunca será mais do que ilusões ou mentiras. Até as próprias religiões quando disso se despojam.
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01/01/2026