Se cada um conseguisse transformar um grão de areia

 Se cada um conseguisse transformar um grão de areia

(Créditos fotográficos: Andreas Kind – Unsplash)

À medida que fui começando a procurar conhecer, conhecer mesmo, a realidade, em vez de querer mudá-la com soluções mágicas de grandes promessas e grandes feitos, melhor fiquei compreendendo que as “grandes transformações” não passam de pequenas ilusões e que tudo fica igual. Ao passo que, se operar pequenas mudanças sem ilusões, ajudo a transformar um pequenino grão de areia na praia. Não é muito, é muitíssimo porque, se cada um conseguisse transformar um grão de areia, a praia ficaria outra.

(Créditos fotográficos: Joshua Case – Unsplash)
(Créditos fotográficos: Jacob Bentzinger – Unsplash)

E vi-me um “desiludido da vida”, que me foi tornando cínico em relação à própria natureza humana. Todavia, nunca me deixarão de comover os que têm fome, os que estão abandonados ou esquecidos: mesmo sabendo que também não saciariam a fome de quem não sacia a sua, se os papéis se invertessem e que abandonariam e esqueceriam do mesmo modo os mais.

Se os que hoje nada têm, amanhã tivessem o que têm os que tudo têm, seriam, por um todo, iguais. Isto não é mutável. Só se pode mesmo fazer um pouquinho para ajudar ao muito que seria – nunca será – para ajudar a realidade a ser menos má.

É aqui que resta a espiritualidade para fazer algo de materialmente melhor. Seja pela Arte (verdadeira), seja pela (verdadeira) Fé. A primeira devolve-nos o sentimento do Belo, a segunda o Belo do Mistério. Julgo ser mesmo esse o significado último de Cristo ser Filho do Homem e Filho de Deus. E para o caso conta pouco que se creia nesse Divino ou se olhe essa esplendorosa criação como uma construção ética. O resto nunca será mais do que ilusões ou mentiras. Até as próprias religiões quando disso se despojam.

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01/01/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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