“Sobre o Estado”

 “Sobre o Estado”

Ponte de Santa Clara, em Coimbra. (© VJS – sinalAberto)

Não se encontra, nestas linhas, um esboço analítico sobre os efeitos materiais da tempestade. Também não é seu propósito proceder a uma avaliação da atuação governamental ou da gestão operacional da crise. O objetivo deste texto é outro: interrogar de que modo a comunicação política contribui para moldar – e, em certos momentos, condicionar – a perceção pública da ação política.

Cheias no Mondego, em Coimbra. (© VJS – sinalAberto)

A comunicação surge como eixo orientador de quase todas as ações do atual Governo, que nela investe uma confiança próxima do absoluto. Subjaz a esta opção uma conceção dos cidadãos enquanto sujeitos amplamente moldáveis pelos efeitos cumulativos da informação a que são expostos – e, por isso mesmo, passíveis de orientação e de manipulação. O pressuposto é claro: quando cuidadosamente gerida, a comunicação é capaz de transformar o inaceitável e miserável em aceitável e tolerável.

Olhemos, a este propósito, para a perspetiva de Pierre Bourdieu acerca do papel estruturante da mediação simbólica. Em “Sobre o Estado – Curso no Collège de France” (1989-1992), o sociólogo sustenta que a ação material, tomada isoladamente, é sempre insuficiente: apenas adquire eficácia plena quando é simbolicamente mediada. Isto é, quando se torna comunicável, reconhecível e legitimada como ação válida no espaço social. É, justamente, neste processo de reconhecimento que se constitui o capital simbólico – compreendido como um stock social de confiança, de credibilidade e de autoridade – sem o qual nenhuma forma de poder logra estabilizar-se ou impor-se de modo duradouro.

(Direitos reservados)

Havendo um desfasamento entre a ação material e a comunicação, emerge um de dois cenários: ou uma comunicação bem-sucedida dissimula e suaviza a insuficiência da ação material, ou uma ação material sólida se vê enfraquecida e desvalorizada por uma comunicação deficiente.

O caso da tempestade Kristin ilustra este fenómeno com particular nitidez. As imagens, as declarações e as encenações públicas protagonizadas por membros do Governo não conseguiram construir uma perceção de controlo, de coordenação e de autoridade. Produziram o efeito inverso: amplificaram a sensação de improviso, de desorganização e de desfasamento face à experiência concreta vivida pelas populações afetadas. Em alguns momentos, pelo excesso de comunicação; noutros, pela sua manifesta inadequação. Comunicação abundante quando se impunha sobriedade; comunicação performativa quando se exigia autoridade. Em termos mais rigorosos: uma comunicação de registo privado, travestida de empatia pública.

(facebook.com/sicnoticias)

Um episódio recente, tão excessivo quanto inadequado, fez o pleno das misérias. É, contudo, particularmente elucidativo deste desfasamento. Falemos, por isso, sobre o vídeo publicado por António Leitão Amaro. O ministro da Presidência, animado por evidentes impulsos de natureza propagandística, optou por encenar um registo de pânico, de ansiedade, de nervosismo e de labor incessante. Tudo indica que a intenção seria reduzir a distância simbólica entre governantes e governados – um movimento, diga-se, recorrente nas gramáticas populistas. Pretendia-se produzir a impressão de uma comunhão afetiva e prática com quem sofre: a ideia de que todos padecem das mesmas angústias, partilham as mesmas inquietações e se encontram igualmente imersos no esforço quotidiano.

Foi com este espírito que encenou os gestos de inquietação corporal: o roer nervoso das unhas, as deslocações incessantes, as ordens apressadas dirigidas a um walkie-talkie. Ora, todo este malabarismo de bastidores acabou por revelar o caráter eminentemente performativo da intervenção. As pessoas – atentas e exasperadas, ressentidas e cansadas – não reconheceram na comunicação de Leitão Amaro aquilo que encontraram na sua ação efetiva. Se acima se lê que “a comunicação é capaz de transformar o inaceitável em aceitável e o miserável em tolerável”, deve dizer-se agora que, quando é mal conduzida, pode também associar o ridículo ao trágico. Observou-se isso mesmo: a ação, já de si pouco robusta, saiu ainda mais fragilizada e desvalorizada por uma comunicação deficiente – e, neste caso concreto, francamente parola e provinciana.

(facebook.com/jornalexpresso)

Mas este episódio expõe ainda um outro padrão: a dificuldade em reconhecer que a comunicação não pode substituir o todo da ação governativa. O Governo parece ainda não o ter compreendido, talvez por esta estratégia já ter passado sem grande escrutínio ou custo político. Recorde-se, por exemplo, a construção da perceção de insegurança, amplamente contrariada por dados empíricos e por intervenções no terreno – na Rua do Benformoso não foi apreendido mais do que uma faca –, mas, ainda assim, difundida e interiorizada com notável eficácia. Ou o registo marcadamente triunfal de Luís Montenegro no discurso de Ano Novo, pontuado por metáforas de inspiração futebolística, ainda que o momento não fosse especialmente agradável. Sem esquecer a realização da Festa do Pontal, preservada com toda a solenidade ritual, num contraste gritante com a gravidade dos incêndios devastadores que, em simultâneo, assolavam o país.

Pierre Bourdieu (farofafilosofica.blog)

Sejamos fiéis a Bourdieu: é no hiato entre a ação material e a sua mediação simbólica que o capital de autoridade do Estado se corrói. Em contextos de natureza catastrófica, mais do que em quaisquer outros, comunicar mal é uma modalidade específica da falha governativa. A propaganda pode, por algum tempo, suspender o juízo crítico. É, porém, incapaz de o fazer intemporalmente.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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12/02/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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