Tecituras de quem nasce e vive

 Tecituras de quem nasce e vive

(Créditos fotográficos: Abhijit Das – Unsplash)

Começo esta crónica dois dias antes de ser publicada, o que não é habitual. A manhã está fria e muito chuvosa, sob os ímpetos da depressão Ingrid, que deixa o País em estado de alerta nas próximas horas. O meu cão esconde-se debaixo da secretária do escritório com medo dos trovões. Mesmo assim, a rotina instala-se ao som de uma guitarra que me tranquiliza e faz pensar na importância da vida e de um percurso cheio de altos e baixos e muitos ziguezagues. Nisso não serei muito diferente da maioria das pessoas que conheço e com quem convivo.

(Créditos fotográficos: rob walsh – Unsplash)

Recordo a reserva de esperança que me legaram os meus pais – gente simples e sem grandes exigências materiais para si. Gostaria de a reforçar para as minhas filhas, garantindo-lhes um futuro que elas próprias edificam e que seja digno de se viver. É, provavelmente, um trabalho árduo o das novas gerações, quando pressagiam um mundo ainda mais hostil e com modernizadas formas de escravatura. Num contexto polarizado e desinformado, os processos democráticos estão a sofrer recuos em diversas geografias e nas mentalidades de todos os que não exigem regras sem batota aos que administram os territórios e dirigem as comunidades.

(Créditos fotográficos: Raimond Klavins – Unsplash)

Pilotar um navio ou outras embarcações, sobretudo de grande porte, obriga a um vasto conhecimento técnico e de marinhagem, além da capacidade de ler as cartas náuticas e de saber interpretar os ventos e as marés. Mas a iliteracia predomina e já não surpreende. Por isso, recorrendo à metáfora e à tradição marítima, devemos, sim, escrutinar quem nos leva numa navegação de cabotagem (próxima da nossa costa e em águas interiores) ou costeira internacional. Quer as viagens sejam curtas ou transoceânicas, importa, sem dúvida, o sentido de responsabilidade social e emocional nesta ideia de querer conduzir os destinos colectivos. Há oportunidades únicas que, como o nascer do Sol, não devemos desperdiçar.

Nunca tinha entrado no universo literário do escritor e dramaturgo Jon Fosse, um ano mais velho do que eu. Li a sua novela “Manhã e Noite” (“Morgon og kveld”, no original norueguês, mas traduzido a partir de uma versão inglesa, por Manuel Alberto Vieira). A obra espelha um estilo minimalista de quem sabe aproveitar o silêncio que abre portas à introspecção, que dá voz ao indizível e que, assim, reflecte as tecituras do amor, da solidão, da passagem do tempo e da morte, essa temida condição humana.

(novoslivros.pt)

Em pouco mais de cem páginas, Jon Fosse (vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2023) oferece-nos um livro que aprofunda os ciclos da vida e da morte, cuja narrativa avança com o nascimento de Johannes (na manhã de um destino) e se completa com o falecimento do, então, envelhecido e viúvo pescador que – na perspectiva de que a alma paira sobre o corpo logo após o óbito – revisita os momentos essenciais da sua existência. Ou seja, a segunda parte do livro explora, também de forma repetitiva e quase sem pontuação, a aceitação da noite, numa prosa descomplicada, embora rica poeticamente e capaz de transmitir a verdade mística do velho e solitário Johannes, o qual,  sentindo o corpo hirto e dorido, se deixou “ficar longamente na cama do quarto contíguo à divisão principal atrás de uma cortina”.

Conta-nos ainda Jon Fosse: “[…] embora consciente de que por aquela altura já deveria ter-se levantado, deixou-se ficar na cama, pois lá fora pusera-se mais um dia cinzento, tinha a certeza disso, chovia e sopravam rajadas de vento e o céu estava cinzento, fazia um frio de rachar como em todos os outros dias nesta altura do ano, e o que tinha ele hoje para fazer?”

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 25 de Janeiro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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26/01/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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