Tipografia Damasceno: lugar vivo da criação em Coimbra
(© Ana Rajado)
Entre o chumbo e a memória: uma oficina que nasce do encontro e da persistência
No coração de Coimbra, entre o som metálico das máquinas e o cheiro persistente da tinta, sobrevive uma oficina que é muito mais do que um espaço de trabalho. A Tipografia Damasceno é um lugar de memória, de resistência e de criação contínua. Fundada, há mais de cinquenta anos, por João Damasceno e Odete Paixão, ambos tipógrafos, a oficina nasceu de um encontro precoce e improvável. Conheceram-se ainda crianças, com onze ou doze anos, na antiga Gráfica de Coimbra, onde aprenderam o ofício e se apaixonaram – pela tipografia e um pelo outro.

Esse gesto fundador permanece inscrito no espaço. Depois de experiências partilhadas com outros sócios, João Damasceno decidiu criar a sua própria tipografia. Assim nasceu a Damasceno, que atravessou décadas de profundas transformações tecnológicas e económicas, resistindo ao desaparecimento de muitas oficinas semelhantes. Hoje, é Rui Damasceno, filho dos fundadores, quem mantém viva a tipografia, preservando o espaço praticamente intacto desde a sua origem.
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Um espaço que resiste ao tempo
Entrar na Tipografia Damasceno é entrar noutra temporalidade. Nada ali foi reorganizado para responder às exigências da produção contemporânea. As máquinas, os tipos móveis de madeira e de chumbo, as caixas tipográficas e os instrumentos de composição mantêm-se dispostos como se o tempo tivesse decidido abrandar naquele lugar. Todas as máquinas funcionam. Nada está ali apenas para ser visto: tudo existe para ser usado.
Essa fidelidade ao funcionamento original não é um gesto nostálgico, mas um acto de resistência. Manter uma tipografia tradicional em actividade, num espaço arrendado, com custos fixos elevados e um mercado cada vez mais reduzido, é um exercício diário de perseverança. Rui Damasceno trabalha sozinho, assegura alguns clientes fixos e mantém activa uma máquina de offset, conciliando o trabalho comercial com a preservação do património material e imaterial da oficina.
Ao longo dos anos, chegaram a trabalhar ali onze pessoas em simultâneo. Hoje, a realidade é outra. A tipografia continua aberta, mas depende sobretudo da dedicação pessoal do Rui, da sua capacidade de adaptação e da rede informal de pessoas que orbitam em torno do espaço.
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O encontro entre tradição e criação contemporânea
É neste contexto que surge a relação de Joana Monteiro com a Tipografia Damasceno. Designer gráfica, com formação em Design e Comunicação, Joana conheceu Rui Damasceno antes de partir para Londres, numa apresentação breve feita por João Bicker. O contacto ficou em suspenso até ao seu regresso a Portugal, depois de uma experiência marcante no Reino Unido.
Em Londres, Joana Monteiro trabalhou e estudou em instituições como o Royal College of Art e o Camberwell College of Art, onde a tipografia tradicional faz parte integrante do ensino artístico. Nas escolas inglesas, as oficinas tipográficas coexistem naturalmente com os meios digitais. Não são espaços museológicos, mas laboratórios vivos, muitas vezes caóticos, habitados por técnicos, artistas, DJs e estudantes. Essa vivência marcou profundamente a sua forma de pensar o design e a criação.

O contacto directo com a experimentação, com o erro e com a materialidade do processo contaminou o seu trabalho. Quando regressou a Coimbra, foi quase inevitável procurar a Tipografia Damasceno e propor a Rui a criação de dinâmicas de oficinas e partilha de conhecimento.
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O Clube dos Tipos e a construção de uma comunidade
Dessa vontade nasceu o Clube dos Tipos, um projecto criado por Joana Monteiro em colaboração com Paulo Hardman. Mais do que uma estrutura formal, o Clube dos Tipos funciona como uma ideia de comunidade, uma rede aberta a todos os interessados na tipografia tradicional. É, como a própria Joana descreve, uma “gaveta” do seu universo criativo onde cabem oficinas, encontros, livros e colaborações.

O objectivo nunca foi formar tipógrafos no sentido técnico clássico, mas criar pontes entre a prática contemporânea do design e a compreensão dos fundamentos da tipografia. Essa necessidade tornou-se evidente quando Joana percebeu a ausência de materiais pedagógicos adaptados aos criadores actuais. Daí nasceu o “Manual Prático do Tipógrafo”, desenvolvido em conjunto com Rúben Dias e impresso integralmente na Tipografia Damasceno.
O manual, apoiado pela Semana Cultural, foi concebido como um instrumento de mediação: explica a nomenclatura, os materiais e os processos básicos, permitindo que os participantes das oficinas entrem em diálogo informado com o espaço, com as máquinas e com Rui Damasceno.

Em vez de ser comercializado, o manual foi inicialmente distribuído através de um sistema de trocas por outros materiais tipográficos, gesto que ampliou a rede do Clube dos Tipos para além de Portugal, chegando ao Brasil e a vários núcleos de tipografia tradicional.
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Livros, oficinas e práticas editoriais independentes

poéticos utilizando tipos móveis, reunindo posteriormente
essas composições num livro. (© Ana Rajado)
A partir desse impulso inicial, foram surgindo outros projectos editoriais. A criação da Editora dos Tipos permitiu consolidar um percurso que inclui, entre outros títulos, um livro comemorativo dos cinquenta anos da Tipografia Damasceno, obras desenvolvidas em colaboração com Ana Biscaia e publicações experimentais como “Uma Ode à Tipografia, a partir do poema de Pablo Neruda”, resultando de cinco anos de oficinas.
Neste último projecto, Joana Monteiro desafiou os participantes a compor excertos poéticos utilizando tipos móveis, reunindo posteriormente essas composições num livro que é simultaneamente registo e objecto artístico. A apresentação pública do livro realiza-se no próximo sábado (31 de Janeiro), no CAPC – Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, cruzando leitura encenada, performance e artes visuais, sublinhando a dimensão contemporânea e interdisciplinar do trabalho desenvolvido a partir da tipografia.
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Aprender fazendo: técnica, restrição e pensamento gráfico
Para Joana Monteiro, o contacto com a tipografia tradicional não é um exercício de saudosismo, mas uma ferramenta fundamental de aprendizagem. Trabalhar com tipos móveis permite compreender fisicamente conceitos que, hoje, habitam o vocabulário digital do design: entrelinhamento, espaçamento, grelha, hierarquia. Aquilo que nos programas informáticos surge como uma opção abstracta é, na tipografia, uma peça concreta que ocupa espaço e exige decisão.
A lentidão do processo impõe restrições, e são essas restrições que orientam a criação. Cada escolha tem consequências materiais e temporais. Não é possível experimentar infinitamente sem custo. Essa consciência aprofunda o entendimento do projecto gráfico e reforça a importância da planificação e da intenção.

Num tempo marcado pela rapidez e pela reprodução ilimitada, a tipografia tradicional devolve ao criador uma relação mais consciente com o fazer. Aprende-se fazendo, errando, ajustando. Aprende-se também a valorizar o espaço em branco, o que não imprime, mas constrói a composição.
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Um património em risco e a ideia de oficina-museu

objectos museológicos. (© Ana Rajado)
A Tipografia Damasceno é, hoje, simultaneamente oficina activa e património em risco. As máquinas são peças raras, muitas delas já consideradas objectos museológicos. A manutenção exige conhecimentos técnicos específicos e materiais difíceis de encontrar. Ainda assim, todas funcionam, graças à persistência de Rui Damasceno.
Consciente da fragilidade do futuro, o grupo informal que acompanha a tipografia – designers, artistas, antigos tipógrafos e investigadores – tem vindo a discutir a possibilidade de transformar o espaço numa oficina-museu. A ideia passa por garantir condições de preservação, apoio institucional e integração em redes patrimoniais, sem perder o carácter funcional do espaço.
Ainda não existe um projecto formal apresentado às entidades públicas, mas há diálogo com a Direcção Regional de Cultura do Centro e contactos preliminares com estruturas locais. A criação de uma associação surge como hipótese para viabilizar apoios e enquadramentos que uma empresa isolada dificilmente consegue.
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activa.(© Ana Rajado)
Um lugar vivo no presente
Apesar das incertezas, a Tipografia Damasceno continua a ser um lugar de criação activa. Joana Monteiro desenvolve ali projectos gráficos, materiais experimentais e colaborações que depois se expandem para outros contextos. O espaço funciona como laboratório, ponto de partida e lugar de regresso.
Num mundo dominado pelo virtual, a Tipografia Damasceno afirma a importância da matéria, do gesto e da memória. Não como relíquia, mas como ferramenta viva. Entre o chumbo e o papel, entre a máquina e o corpo, este espaço continua a provar que o passado pode ser um território fértil para pensar o presente e imaginar o futuro.
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29/01/2026