Tocou outra vez o alarme do PISA!
(Créditos fotográficos: Timur Shakerzianov – Unsplash)
Não sei se algum dos leitores se recorda de uma entrevista dada ao Expresso, em 27/06/2025, pelo poeta, escritor, professor universitário de Português e de Literatura Portuguesa, António Cortez Vaz. Nessa entrevista, ele dizia que “nos últimos 25 anos se instalou um modelo de docência inimigo do paradigma histórico-crítico” e defendeu a necessidade de um regresso ao ensino que teria de ser devidamente ancorado na leitura, na escrita e na exigência. E disse também, com algum exagero, mas fino humor, que “atirámos um pau ao ar no 25 de Abril e caiu-nos um telemóvel, falta o livro pelo meio”.
Descontemos o exagero da afirmação, pois temos de considerar, em primeiro lugar, tudo o que de bom nos trouxe a Revolução de Abril no campo educativo. E foi muito. A realidade portuguesa de hoje, em termos de desenvolvimento educativo, não tem comparação com “o tempo da outra senhora”.

Evoco aqui a entrevista, arquivada no meu PC, e recordei-me dela porque, entre nós, tocou outra vez o alarme por causa dos resultados dos nossos alunos no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), conhecidos a 8 de Setembro de 2026. O PISA é um programa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), considerado o maior estudo internacional da Educação e que envolveu mais de 760 mil alunos de 91 países.
É muito natural que, em Portugal, ninguém tenha gostado dos resultados, porque os dados divulgados dizem-nos que os jovens de 15 anos, os quais tinham 10 anos no período da pandemia de COVID-19, e que foram avaliados no ano passado, voltaram a piorar em Matemática, em Leitura e em Ciências. Informa o estudo que os resultados dos 6945 alunos de 225 escolas portuguesas “regressaram a valores próximos dos observados em 2006 nas três disciplinas, revertendo completamente os ganhos anteriores”.

Parece, pois, ser legítima a pergunta: então, em vez de progredir, estamos a regredir?
Devemos recordar que Portugal participou pela primeira vez no PISA em 2000 e, nessa altura, os alunos portugueses surgiam entre os piores e muito abaixo da média da OCDE.
Em 2025, os nossos alunos tiveram um desempenho na Leitura que foi pior do que em 2000 e na Matemática obtiveram um resultado próximo ao dos colegas que fizeram a prova em 2003. Apesar de tudo, Ciências foi a disciplina com a descida menos acentuada, mantendo-se em linha com a média da OCDE, com 482 pontos.
Perante este panorama, há quem grite que esta triste realidade registada não aconteceu só em Portugal e, por isso, são citados os casos da Espanha, da França, da Alemanha e da Itália, que também desceram os seus resultados. Salvaram-se a Estónia, o Reino Unido, a Finlândia e a Irlanda, que tiveram os melhores resultados da Europa. Mas não deixa de ser curioso, ainda, que os resultados dos países nórdicos, normalmente bem colocados nestes rankings, tenham todos descido, com excepção da Finlândia.

Dizem outros, como atenuante, que, apesar de tudo, continuamos estatisticamente perto da média da OCDE. Porém, temos de registar que são poucos os alunos de excelência: Apenas 6% estão no topo em Ciências (a média da OCDE é de 7%), 6% a Matemática (8% na OCDE) e só 3% em Leitura (metade da OCDE, que é de 6%).
Em termos de ranking, no PISA 2025, numa comparação entre os 90 países envolvidos, Portugal ocupa o 29.º lugar a Ciências, é 26.º na Leitura e é 30.º na Matemática.
Sem qualquer pretensão de explicar estes resultados, tarefa que será sempre complexa, e dependente de vários factores, vamos, no entanto, deixar aqui um conjunto de tópicos que nos podem ajudar a analisar e a contextualizar o problema .

A primeira questão que devemos colocar pode ser esta: provavelmente, não investimos o suficiente na recuperação das aprendizagens destas crianças que tinham 10 anos na altura da pandemia. Recordemos que, nessa altura, tivemos largo tempo em que as escolas se encontravam fechadas e o ensino foi feito à distância.
Teremos outros factores. Um dos mais graves poderá ser o facto de faltarem professores em 44% das escolas em Portugal. Também sabemos que 64% dos nossos alunos estudam em escolas em que os directores dizem que têm falta de pessoal auxiliar.
Constatamos, igualmente, que a falta de acompanhamento dos pais é cada vez maior e só 53% discute semanalmente com os filhos os problemas da escola.
Registemos que ainda temos 14% de alunos que dizem ser vítimas de bullying, e até devemos considerar que esta percentagem é maior noutros países.

É também preocupante que 56% dos alunos em Portugal cheguem atrasados à escola e daí as consequentes perdas de algumas aprendizagens. Mas muito mais grave será a desigualdade socioeconómica que leva a que 25% dos alunos favorecidos tenham, em média, mais 92 pontos em Ciências do que os mais desfavorecidos.
Preocupante é também o facto de 31% dos alunos dizerem que os seus colegas ocupam demasiado tempo com dispositivos digitais e não dão importância à Leitura. Sabemos que, em Portugal, 25% dos alunos estudam em escolas onde os telemóveis não são permitidos nas instalações, contra 49% na média da OCDE. O dado ganha alguma relevância num contexto em que a própria avaliação identifica a distracção digital como um factor associado a piores resultados.

Não deixa de ser curioso, também, que, apesar das desigualdades sociais, 11% dos estudantes portugueses socioeconomicamente desfavorecidos estão entre os 25% com melhores resultados em Ciências.
O Governo actual rejeitou responsabilidades políticas por estes maus resultados. No entanto, o secretário de Estado do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), já tenha declarado: “Isto não significa que o Governo não se sinta responsável por encontrar soluções.” E, entre as medidas em curso, apontou o investimento em bibliotecas para o 1.º ciclo.
Entretanto, o ministro Fernando Alexandre, certamente também preocupado com estes resultados, falou do regresso dos Exames Nacionais no Ensino Básico, convicto de que trarão maior exigência; e de que poderão ajudar a fazer uma avaliação diagnóstica precoce. Disse também que podemos ter a fusão dos dois primeiros ciclos do Ensino Básico. Todavia, aguardemos e veremos se esta medida se concretiza e que efeitos poderá ter.
Quanto a nós, o foco principal tem de ser colocado na resolução do problema de falta de professores nas escolas, na melhoria das condições de trabalho de professores e de alunos, na restrição ao uso de telemóveis e no uso excessivo de ecrãs e outros aplicativos digitais em contexto escolar, que são importantes quando usados com propriedade, mas que impedem, quantas vezes, a leitura – que continua a ser a melhor forma de aprendizagem, como defendemos noutros artigos.

Recordemos ainda que, na entrevista inicialmente mencionada, António Cortez Vaz defende o mesmo, observando que, hoje, temos um processo global de empobrecimento intelectual impulsionado pelo utilitarismo pedagógico e pela substituição da cultura do livro pela dependência digital. Nessa mesma entrevista, o autor critica o facilitismo pedagógico e o desmantelamento das Humanidades na educação, alertando que a ignorância generalizada constitui a antecâmara do autoritarismo.
Seria bom que, todos juntos, fôssemos capazes de ajudar a resolver o problema. E oxalá não o transformemos em guerra partidária, a ver quem tem ou teve mais culpas no cartório!
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01/10/2026