Todas as condições reunidas para uma grande cheia no Mondego
(© Ana Rajado)
A geógrafa Isabel Paiva alerta para solos saturados, precipitação persistente e pressão extrema sobre a bacia hidrográfica do Mondego.
A bacia hidrográfica do Mondego reúne, neste momento, todas as condições naturais para a ocorrência de uma grande cheia deste rio com inundação significativa da sua planície aluvial, a partir de Coimbra. O alerta é feito pela geógrafa física Isabel Paiva, que descreve um cenário de elevada complexidade, marcado por solos saturados, por elevada precipitação acumulada e rios ainda por regularizar, particularmente no troço entre a barragem da Aguieira e a cidade de Coimbra. A precipitação, que se prevê vá continuar nos próximos dias, agravará ainda este cenário, introduzindo ainda mais água no sistema natural.

Segundo Isabel Paiva, a localização geográfica da região, associada à configuração da bacia hidrográfica, torna inevitável a concentração de grandes volumes de água no vale do Mondego. “Geograficamente, estão reunidas todas as condições para termos uma grande cheia com inundação”, afirma, sublinhando que a situação não depende apenas da gestão da barragem da Aguieira, embora esta tenha um papel fundamental no controlo dos caudais que chegam a Coimbra.
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Solos saturados e incapacidade de infiltração
Um dos factores mais preocupantes identificados pela geógrafa é o estado de saturação dos solos em grande parte do região. Isabel Paiva explica que os dados disponíveis no portal do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) confirmam que os solos se encontram já totalmente saturados, não apenas nesta região, mas em vastas áreas do País. Isto significa que a água da precipitação deixa de se infiltrar no solo, passando a escoar directamente para as linhas de água.
“Os solos já têm um nível de humidade extremamente elevado, estão completamente saturados”, explica Isabel Paiva. “Continuando a chover, a água já não entra no solo; transforma-se imediatamente em escoamento superficial, aumentando os caudais dos rios.” Este fenómeno agrava-se quando a precipitação se mantém durante longos períodos, como tem acontecido, criando condições propícias a cheias progressivas e de grande duração.

Além disso, a geógrafa salienta que os solos não só deixaram de absorver água como começaram a libertá-la. “Os solos já estão a drenar”, diz, referindo-se à contribuição simultânea da água subterrânea para os cursos de água à superfície.
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A pressão conjunta dos afluentes
Isabel Paiva chama também a atenção para o papel de vários rios e ribeiras que desaguam no Mondego entre a Aguieira e Coimbra e que não estão regularizados. Para além do rio Ceira, existem diversos afluentes e linhas de água de menor dimensão que, em conjunto, contribuem para um aumento significativo do caudal.
Outro dos casos relevantes é o do rio Arunca. “O Arunca traz imensa água”, refere a geógrafa, explicando que este afluente acrescenta uma pressão adicional ao Baixo Mondego, já por si sobrecarregado. Todo este contributo converge para a planície aluvial do Mondego, uma zona naturalmente sujeita a inundações.

Isabel Paiva lembra que esta planície aluvial – que, naturalmente, seria inundada – alberga, hoje, numerosas construções localizadas em leito de cheia. “Estamos a falar de uma planície aluvial que tem ocupação humana em zonas que deveriam servir para a dissipação natural da água, em caso de cheias”, alerta.
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Cheias progressivas e não repentinas
Ao contrário das cheias rápidas e localizadas, provocadas por precipitação intensa num curto espaço de tempo, Isabel Paiva esclarece que o cenário actual corresponde a uma cheia progressiva, resultado de longos períodos de chuva persistente. “Não estamos a falar de uma cheia repentina”, observa, adiantando: “Estamos a falar de um sistema que, em termos hidrológicos, já não tem capacidade de absorver mais água.”
A água que, actualmente, circula no Mondego resulta não apenas da precipitação directa, mas também do contributo dos solos e das águas subterrâneas. “Está tudo a drenar para o rio”, declara a geógrafa, descrevendo um sistema em que todos os compartimentos hidrológicos estão, praticamente, no seu limite.

Neste contexto, a capacidade de encaixe da barragem da Aguieira torna-se determinante na gestão da quantidade de água que chega a Coimbra, podendo aliviar um pouco a situação ou agravá-la, como ocorreu em 2001.
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Gestão hidráulica e limites dos planos de emergência
A geógrafa recorda que existem mecanismos de gestão hidráulica destinados a reduzir o impacto das cheias, nomeadamente a abertura controlada de comportas para inundar campos agrícolas e aliviar a pressão das águas fluviais. No entanto, questiona se esses procedimentos estão a ser aplicados de forma eficaz e atempada, bem como deixa em aberto a existência ou não de manutenção dos diques.
“Já foi feita essa drenagem controlada?”, questiona Isabel Paiva, aludindo às estruturas concebidas para permitir o alagamento controlado dos campos do Baixo Mondego. “Tem havido a manutenção e a vigilância necessárias dos diques, que já se romperam noutras alturas?
Mesmo os sistemas de vigilância e de alerta de cheias, adverte a geógrafa, podem revelar-se insuficientes quando a precipitação ultrapassa os cenários previstos, num contexto como o actual. “Se a Aguieira não conseguir encaixar mais água, estando os solos já saturados, então as condições são claramente favoráveis à ocorrência de cheias de grande dimensão.”
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Um cenário hidrológico particularmente preocupante
Isabel Paiva não esconde a gravidade do cenário que descreve. A continuidade da precipitação funciona como um input constante na bacia hidrográfica, impedindo qualquer descida dos níveis de água. “Está a chover, a chover e a chover”, resume, salientando que cada novo episódio de chuva se soma a um sistema já em sobrecarga.

Uma cheia de longa duração
Caso as previsões meteorológicas se mantenham, Isabel Paiva antecipa uma cheia de manutenção prolongada, com níveis elevados durante vários dias ou mesmo semanas. “Vai ser uma grande cheia, com inundação prolongada”, expressa, explicando que este tipo de fenómeno provoca impactos cumulativos, tanto no território como nas populações.
A geógrafa conclui acentuando a importância de compreender que o risco não resulta de um único factor isolado, mas da conjugação de vários elementos: solos saturados, precipitação persistente, afluentes em carga máxima e uma planície aluvial altamente condicionada pela ocupação humana. Um cenário que, como avisa Isabel Paiva, exige atenção permanente e uma gestão rigorosa do risco hidrológico, ao que acrescem os problemas de ordenamento do território e o desconhecimento de alguns residentes sobre o historial de cheias, o que pode agravar a vulnerabilidade das populações.
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29/01/2026