Uma cruz num papel

 Uma cruz num papel

Portland Place, em Londres. (Créditos fotográficos: N. Chadwick – en.wikipedia.org)

Consulado de Portugal em Londres.
(commons.wikimedia.org)

17 de janeiro de 2026, um sábado de inverno aparentemente normal em Londres. Sem chuva, mas com um céu cinzento que traz consigo a depressão sazonal e a pouca vontade de sair de casa ou fazer algo útil. Contudo, quem passou pelo número 3 de Portland Place, rua no coração da capital inglesa, terá reparado num aglomerado pouco habitual à frente do edifício de tijolos laranja. Quem vai chegando começa logo a arrebitar a orelha. “Será esta a minha gente?”, pensam enquanto caminham em direção à porta do consulado português. O segurança, de barrete negro na cabeça, não engana: “A Senhora é de onde? Albergaria! Olhe que eu também sou do Norte, sou de Braga!”

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(facebook.com/jornalexpresso)

As presidenciais têm uma vantagem inegável: o voto direto. Como emigrantes, nas locais não podemos votar e nas legislativas estamos limitados a uma representação de dois deputados, mas, para o Presidente da República, cada voto nasce igual. Pena que o alinhamento de candidatos não tenha sido particularmente interessante, um grupo pouco carismático. De candidatos “antissistema”, com campanha feita nos típicos ataques às minorias até uma esquerda fragmentada e sem grande inspiração, passando por um almirante sem grande rumo e uma tentativa de replicar o modelo de Marcelo Rebelo de Sousa. Enfim, um grupo pouco inspirado. Salvou-se Manuel João Vieira, o único que se candidatou por brincadeira. “Só me demito se for eleito”, foi o seu lema. Deviam ser todos assim.

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Uma cruz num papel. (© Marco Dias Roque)

Entrei no consulado e senti-me em Portugal. De certeza que – fora alguns restaurantes em Vauxhall e nos arredores – nunca se encontra tanto português por metro quadrado em Londres. Indicações na língua de Camões e cumprimentos bem-educados criam momentos de teletransporte. Sem grande fila, o meu voto depressa caiu na urna. Contei oito mesas de voto, cada uma equipada com um computador que lê cartões de cidadão que provam quem somos. “Senhor Roque”  (engraçado, até nisto se volta a casa, no estrangeiro costumo ser Dias) “é só ir colocar a cruz e depois trazer o papel”. Fui, olhei para os 14 candidatos e respetivas fotos, peguei na caneta. Na cabine do lado, uma mãe mostrava à filha como se vota. É bom que mesmo noutro país se ensine a cidadania de um sítio onde provavelmente nunca se vai viver. Importa na mesma. Lá rabisquei a cruz e levei à urna. “Obrigado, Senhor Marco”, foi a despedida. “Obrigado, eu!”

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(ffms.pt)

A democracia é cada vez mais difícil. Parte do problema são as sondagens – que deviam ser um termómetro da opinião pública e acabam por dar vergonha alheia com mudanças na liderança dependendo da encomenda. Perdão, da amostra. Uma corrida que nunca existiu, mas que criou tema de conversa. Também não me revejo na agenda mediática. É demasiada atenção dada à extrema-direita, às narrativas do ódio. Os liberais “surfaram” esta onda, subindo nas sondagens, mas quando tanta atenção desenterrou certas alegações, acabaram por cair da prancha. E o almirante independente – que, diga-se, não estivesse a fazer muito para ganhar – também perdeu todo o vapor depois de notícias à volta de uma investigação do Ministério Público.

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(Créditos fotográficos: Kristin Snippe – Unsplash)

Saio e vejo à frente do consulado os que ficam a trocar dois dedos de conversa, a ver quem vai e quem vem. Meses de campanha que acabam resumidos a uma cruz num papel. Um segundo a rabiscar e já está. Sabe a pouco, mas a acumulação dessas cruzes é a democracia. Ser cidadão é isto, e por uma vez senti-me parte dessa comunidade, um dos 5920 que votaram no Reino Unido, faltaram os outros 190 mil. Logo depois, num ”food court” perto do consulado, ouvia-se falar Português, eleições são uma boa oportunidade para rever amigos e pôr a conversa em dia. O cartaz com o nome da reserva traz-me de novo à realidade. “Ana Goncalves” foi o mais perto que o restaurante conseguiu. Os teclados ingleses não têm cedilhas, afinal de contas. Um bocadinho como a democracia, às vezes, estar perto do correto é suficiente.

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(cic.pt)

No estrangeiro as eleições duram mais, já que se pode votar sábado ou domingo. Portanto, lá dormiu o meu voto na urna até ser contado no dia seguinte. Dormi também, mas acordei com pouca confiança. Como muitos outros, deixei Portugal a convite de um primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, que aconselhou uma geração a “deixar a sua zona de conforto”. Uma liberdade que eu não teria tido noutros tempos. Portanto, as tendências antiliberdade que vivemos dão-me muito medo. Medo não dos movimentos políticos que defendem estes valores de forma mais ou menos aberta, mas do nicho de mercado que ocupam. Ninguém parece querer entender por que é que as pessoas deixaram de acreditar no sistema político e apoiam alternativas que não vão resolver nada, mas que, pelo menos, são diferentes. A procissão da democracia ainda vai no adro, vamos ver quando cai o andor.

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02/02/2026

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Marco Dias Roque

Jornalista convertido em “product manager”. Formado em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra, com uma passagem fugaz pelo jornalismo, seguida de uma experiência no mundo dos videojogos, acabou por aterrar no mundo da gestão de risco e “compliance”, onde gere produtos que ajudam a prevenir a lavagem de dinheiro e a evasão de sanções. Atualmente, vive em Londres, depois de passar por Madrid e Barcelona. Escreve sobre tudo o que passe pela cabeça de um emigrante, com um gosto especial pela política e as observações do dia a dia.

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