11 de Setembro…

 11 de Setembro…

(Imagem criada por IA – chatgpt.com)

Para os americanos da América do Norte, passaram 25 anos desde o ataque às Torres Gémeas, sem dúvida, uma data que marcou as vidas daqueles que viveram o acontecimento e, também, daqueles que não viveram essa experiência e que nasceram numa América mais defensiva, mais agressiva e mais isolada no contexto da paz e das nações do Mundo.

O voo 175 da United Airlines colidiu contra a torre sul do complexo do World Trade Center na cidade de Nova Iorque durante os ataques de 11 de Setembro de 2001. (pt.wikipedia.org)

Sob o lema “God Bless America”, todos os discursos do passado dia 11 de Setembro de 2026, aos quais assisti, repetem a palavra “nação” e a palavra “God”, numa fórmula simples: América é a nação eleita e abençoada por Deus!

Em nenhum momento parece haver o instante (ainda que minúsculo) para o pensamento, para reflectir: porque nos aconteceu isto (?), ou mesmo: que fizemos para merecer isto (?). Bastaria olhar para os números das imensas vezes que os Estados Unidos da América (EUA) intervieram na política global mundial como “polícias” do Mundo, consultar a lista é, neste momento, fácil, basta visitar a Internet e encontramos a extensa minuta, na qual se destacam, muito cedo, a guerra do México, a guerra de Cuba, mais tarde, a da Coreia e a do Vietname. Esta última, manifestamente, a mais traumática para os norte-americanos, aquela que foi transmitida diariamente pela televisão, e a mais mostrada no cinema, com obras de destaque artístico e documental.

O outro 11 de Setembro, e que a mim e aos meus compatriotas nos toca ainda profundamente, foi há 53 anos: o Golpe Militar das Forças Armadas e dos Carabineiros chilenos contra o Governo democraticamente eleito do presidente socialista Salvador Allende.

Em 11 de Setembro de 1973, no Chile, as forças que promoveram um golpe militar no país derrubaram o governo de Salvador Allende e instauraram um regime ditatorial comandado por Augusto Pinochet. (mundoeducacao.uol.com.br)
(facebook.com/canalmynews)

Consultando também as fontes que se encontram na Internet, os números são assustadores: durante a ditadura de Pinochet, no Chile, mais de 3200 pessoas foram mortas ou desaparecidas; e, pelo menos, 40 mil foram torturadas. Um relatório mais recente elevou o número total de vítimas para 40280, incluindo executados, desaparecidos e torturados. A ditadura, que durou de 1973 a 1990, foi marcada por violações sistemáticas dos direitos humanos e repressão intensa.

As pessoas ainda desaparecidas; um total de 3225 dadas como mortas. Um novo relatório oficial sobre a ditadura de Augusto Pinochet, o terceiro em 20 anos de democracia, eleva para mais de 40 mil as vítimas desse regime, entre elas 3225 mortos ou desaparecidos1.

E sobre o exílio, outra das chagas que se seguiram ao levantamento militar: o exílio político foi a expatriação em massa, de forma forçada ou voluntária (autoexílio), de pessoas afins ou militantes de esquerda e das suas famílias, ocorrida entre 1973 e 1990, para países que lhes concederam asilo político. Com mais de 200 mil exilados no total, foi um dos principais motivos da emigração chilena durante o século XX e um dos maiores movimentos migratórios para o exterior na História nacional, num processo semelhante ao dos regimes autoritários militares no Paraguai, na Argentina, no Brasil e no Uruguai2.

Mulheres da Associação de Familiares de Desaparecidos protestam em frente ao Palácio do Governo durante o regime militar de Pinochet. (Fotografia de Kena Lorenzini doada ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos.pt.wikipedia.org)

Sobre o milagre económico da ditadura (1973/1990), retomando a informação da Internet: damos conta da implementação do neoliberalismo no país, com a ajuda de economistas como Milton Friedman, que resultou numa série de reformas que visavam a estabilização económica e a redução da inflação, transformando o Chile num dos maiores laboratórios de experiências económicas neoliberais. Com políticas de “choque” económico, pretendia-se combater a inflação e promover a estabilidade financeira, provocando uma série de mudanças sociais e políticas de impacto profundo.

No início de 1973, o Chile atravessava uma grave crise económica, com uma inflação de 606%, embora com uma taxa de desemprego de apenas 4,3 %. Em 1982, após uma década de reformas de mercado livre, ocorreu uma nova crise económica que levou a um desemprego de 23,7% e a uma diminuição do produto interno bruto em 14,3%. No fim da ditadura militar, a taxa de pobreza3 chegou a 40%.

Economistas neoliberais como Milton Friedman aplaudiram a ditadura de Augusto Pinochet. (jacobin.com.br)

Os dados são aquilo que são; depois de quase duas décadas de ditadura, a realidade é esta: uma brutal economia entregue ao capitalismo, um serviço de saúde fortemente privatizado, uma forte componente de privatização da educação do secundário/básico e do superior, uma municipalização que favorece os interesses privados, o desaparecimento das estruturas dos caminhos-de-ferro (que, numa época, foram motor da economia nacional) para entregar todo o transporte rodoviário aos privados. Os sucessivos governos da Concertação que se seguiram à Ditadura Militar trataram, com políticas sociais, de recuperar o tempo perdido e restituir direitos aos trabalhadores e à população em geral, com acções na educação, no trabalho e na habitação. Hoje, no Chile, governa a direita republicana, sob a Presidência de José Antonio Kast, que tem posições políticas próximas das correntes conservadoras latino-americanas e mantém afinidades políticas com Donald Trump.

Valparaíso, no Chile. (Créditos fotográficos: Loïc Mermilliod – Unsplash)

Não posso deixar de lembrar o leitor do papel dos EUA no Golpe Militar, comprovado pelo Senado norte-americano4.

Patricio Guzmán Lozanes foi um director (realizador) de
cinema chileno, especializado em documentários.
(pt.wikipedia.org)

O mês de Setembro é o Mês das Festas Nacionais; e é também o mês dedicado à Memória – várias são as actividades culturais que lutam pelo não esquecimento!

No dia 15 de Setembro, morreu, em Paris, o realizador Patricio Guzmán, homem do cinema documental. A sua obra é um dos mais importantes testemunhos cinematográficos sobre a época de Salvador Allende e da Unidade Popular. A sua trilogia, “La Batalla de Chile”, é um documento histórico ímpar. Mais duas outras realizações completam o seu olhar sobre o Chile pós-ditadura: “Nostalgia da Luz” (de 2010). No deserto de Atacama, astrónomos de todo o Mundo reúnem-se para observar as estrelas… A três mil metros de altitude, o calor do Sol mantém intactos restos humanos. Ao mesmo tempo que os astrónomos pesquisam as galáxias em busca de vida extraterrestre, mulheres procuram os seus parentes na terra do deserto.

“O Botão de Pérola” (de 2015) – A água, a maior fronteira no Chile, também retém o segredo de dois botões misteriosos que foram encontrados no fundo do seu oceano… Os primeiros marinheiros ingleses e os seus prisioneiros políticos. Alguns relatam que a água tem memória. Ambos, afortunadamente, passaram5 na RTP-2.

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Notas:

1 – Desaparecidos de Pinochet: as valas que a ditadura deixou – Nexo Jornal

2 – Ditadura militar chilena – Wikipédia, a enciclopédia livre

3 – Milagro de Chile – Wikipedia, la enciclopedia libre

4 – G1 > Mundo – NOTÍCIAS – O papel dos EUA no golpe de Estado de Pinochet no Chile

5 – O Botão de Pérola – Documentário 2015 – AdoroCinema

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24/09/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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