607 páginas para a gaveta

 607 páginas para a gaveta

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Sendo esta uma rubrica dedicada à atualidade noticiosa, mas entendendo o seu signatário que há matérias cuja complexidade e especificidade desaconselham a ligeireza de quem neles não é especialista, fomos mantendo alguma distância do debate em torno da Segurança Social. Assim, previa continuar, pelo menos uns minutos antes de ensaiar estas palavras. Ocorreu-me, porém, que, permanecendo a Segurança Social um domínio cuja densidade não me autoriza grandes incursões, talvez seja possível abordá-la por uma via que me é mais familiar: a da ciência.

(Créditos fotográficos: Rafik Wahba – Unsplash)
(Créditos fotográficos: Sasun Bughdaryan – Unsplash)

Nem sempre nem nunca, mas, hoje, cá vai: parabéns ao Governo por uma excelente decisão! Quando está em causa dinheiro público, entendo que a decisão política deve assentar, tanto quanto possível, em dados sólidos e evidência robusta. Sublinhe-se o “tanto quanto possível” – em lugar de um eventual “exclusivamente” –, uma vez que a ciência tem, entre as suas virtudes e os seus limites, um tempo nem sempre compatível com o ritmo supersónico a que a realidade se transforma. E a realidade, como bem sabemos, não suspende o seu curso enquanto aguarda pacientemente que a ciência reúna, trate e lhe devolva a evidência necessária. Os responsáveis políticos parecem partilhar deste entendimento; de outro modo, dificilmente se compreenderia que tivessem mobilizado recursos públicos para encomendar um estudo sobre a sustentabilidade da Segurança Social.

Os resultados do estudo, divulgados no passado mês de agosto, estão longe de oferecer motivos para tranquilidade. O diagnóstico traçado pelo grupo de trabalho – constituído em janeiro de 2025 e coordenado pelo insuspeito Jorge Bravo – é suficientemente expressivo: consideradas em conjunto, a Segurança Social e a Caixa Geral de Aposentações, o sistema previdencial português encerrou 2025 com um saldo negativo de aproximadamente 1,94 mil milhões de euros.

(Créditos fotográficos: David Sinclair – Unsplash)

Aqui chegados, começam as divergências em relação ao que poderia ter sido uma iniciativa meritória e inteiramente digna de aplauso – tanto mais quando o diagnóstico alcançado recomenda preocupação e alguma urgência. Se reconhecemos à ciência o facto de produzir conhecimento necessariamente circunscrito no tempo, incapaz de conservar indefinidamente a mesma capacidade explicativa perante uma realidade em permanente transformação, é razoável esperarmos que o conhecimento agora produzido encontre correspondência no momento político presente. Sobretudo quando, para o obter, foram mobilizados recursos públicos – infelizmente, não sabemos quantos. Das duas, uma: ou os resultados do estudo possuem relevância suficiente para fundamentar alterações ao quadro da Segurança Social, e o momento para as discutir é aquele em que a evidência se encontra disponível e atualizada; ou se reconhece maior força aos argumentos daqueles que, de forma igualmente clara e fundamentada, e num invulgar coro que atravessou a esquerda e a direita, vieram contestar as conclusões alcançadas. O que dificilmente se compreende é uma terceira possibilidade: encomendar conhecimento para informar a decisão política e, uma vez recebido, remetê-lo para uma espécie de antecâmara indefinida da decisão.

É, no essencial, esta a posição assumida pelo Executivo. O estudo é apresentado como um contributo estritamente técnico; as suas 607 páginas destinam-se, segundo o Governo, a alimentar o “debate público”; o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social sublinha a separação entre o trabalho técnico realizado e as decisões que pertencem à esfera política. E fica, desde já, afastada, pelo menos até 2029, qualquer alteração estrutural ou decisão de corte no sistema de pensões. Não tendo o Governo colocado em causa, a validade científica das conclusões do relatório, que considera pertinente e idóneo, torna-se difícil compreender por que razão não age em conformidade com os dados que ele próprio mandou apurar. Mais complicado ainda é perceber por que motivo, uma vez incendiado o debate – como poderia suceder de outra forma, perante a dimensão dos números apresentados? –, opta por remeter o estudo para uma gaveta, onde permanecerá à espera de que o tempo faça aquilo que o Executivo não fez.

É o zeitgeist: investe-se na produção de conhecimento científico destinado a sustentar a decisão pública, mas hesita-se em fazer uso dele, quando chega o momento de decidir. Se estivéssemos diante de um jogo de PlayStation, diria que tantos botões acabaram por baralhar quem segurava o comando; como está em causa a governação do país, resta-me levar as mãos à cabeça.

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03/09/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestre em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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