Mensagens no escuro: o sussurro final das sondas Voyager no oceano cósmico

 Mensagens no escuro: o sussurro final das sondas Voyager no oceano cósmico

Nave espacial contra um fundo preto. Representação artística de uma sonda Voyager. (Créditos da imagem: NASA / JPL – space.com)

As duas espaçonaves da série Mariner da NASA, Voyager 1 e 2, foram as
primeiras da série a serem enviadas para explorar o Sistema Solar exterior.
(lasp.colorado.edu)

Há quase meio século, em 1977, a Humanidade lançou duas sondas no oceano do cosmos. As sondas gémeas Voyager 1 e Voyager 2 nasceram com a missão modesta de revelar os segredos dos gigantes gasosos. Revelaram-nos ou mostraram os anéis trançados de Saturno, a fúria vulcânica da lua Io e os ventos azulados de Neptuno.

Hoje, afastadas da casa que as viu nascer, elas já não navegam pelo Sistema Solar familiar, mas pelo verdadeiro oceano interestelar: o espaço entre as estrelas. São os objetos feitos pelo ser humano mais distantes de nós. Continuam vivas, pulsando como corações antigos no escuro absoluto.

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O limiar do tempo: a marcar um “dia-luz” de distância

A Voyager 1 aproxima-se de um marco poético e científico histórico: tornar-se o primeiro objeto humano a estar a um dia-luz de distância da Terra.

Quando os engenheiros da NASA enviam um comando de rádio para a nave, o sinal cruza o vácuo à velocidade da luz. O sinal leva 24 horas consecutivas para alcançar as antenas da Voyager 1. Depois, o seu eco de resposta demora mais um dia inteiro a regressar ao nosso planeta.

  • Conversa em câmara lenta: Uma simples pergunta e resposta entre a NASA e a Voyager dura 48 horas.
  • Distância monumental: Significa que a sonda se encontra a cerca de 25,9 mil milhões de quilómetros da Terra.

Nenhum artefacto construído por mãos humanas esteve tão longe de nós.

Fotografia da NASA de uma das duas sondas espaciais idênticas Voyager 1 e Voyager 2, lançadas em 1977. (pt.wikipedia.org)

Engenharia de sobrevivência: o milagre do último watt

Manter máquinas dos anos 70 a funcionar no espaço profundo exige uma mestria técnica comparável à arte antiga. A fonte de energia das sondas, geradores térmicos movidos pelo decaimento de plutónio, enfraquece a cada ano que passa.

Para evitar o apagão definitivo, a equipa de engenharia no Jet Propulsion Laboratory (JPL) tem tomado decisões dramáticas:

  • Desligar para resistir: Instrumentos científicos não essenciais e aquecedores foram desligados de forma calculada. Cada watt (unidade de medida padrão de potência, equivalente a um joule por segundo) poupado compra mais uns meses de vida.
  • Manobras de energia: Engenheiros adaptaram o sistema elétrico para contornar oscilações de voltagem, mantendo os instrumentos de plasma e campos magnéticos a recolher dados do meio interestelar até ao limite absoluto.
  • Cirurgia de memória a milhares de milhões de quilómetros: Em episódios recentes de falhas de memória nos computadores de bordo, a equipa reescreveu trechos de código para isolar “chips” danificados e restaurar a comunicação.
Uma das sondas Voyager em fase de testes no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, em abril de 1977. (Créditos fotográficos: NASA/JPL-Caltech – .skyatnightmagazine.com)

O disco de ouro: um bilhete de identidade cósmico

Preso à estrutura de cada sonda vai o lendário Golden Record (Disco de Ouro). Concebido por Carl Sagan e pela sua equipa, este disco de cobre banhado a ouro funciona como uma mensagem dentro de uma garrafa.

Contém saudações em 55 línguas humanas, cantos de baleias, o som do vento e da chuva, obras de Bach, de Mozart e de Chuck Berry, além de imagens codificadas das nossas Arquitetura, Biologia e Cultura. É o nosso testemunho para o cosmos: “Esta foi a nossa civilização. Aqui vivemos, amámos e sonhámos.”

O Disco de Ouro e a sua capa, mostrando informações sobre como ele deve ser tocado, bem como ilustrações que revelam a localização do Sistema Solar. (Créditos fotográficos: NASA/JPL-Caltech – .skyatnightmagazine.com)

O que aguarda as exploradoras silenciosas?

Nos próximos anos, o plutónio no coração das Voyager esgotar-se-á inevitavelmente. Os seus transmissores de rádio calar-se-ão e os seus instrumentos adormecerão para sempre.

As Voyager foram criadas, inicialmente, para estudar os planetas mais afastados da Terra. (bbc.com)

Contudo, o seu fim operacional não será o seu fim físico. No vácuo calmo do espaço, sem ar nem água para corroer o metal, as Voyager flutuarão intocadas durante centenas de milhares de anos. Viajarão em órbita do centro da Via Láctea, muito depois de os transmissores da Terra terem mudado. Continuarão o seu percurso como monumentos silenciosos da curiosidade humana, levando o nosso som e a nossa memória pelas estrelas.

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03/09/2026

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António Piedade

Bioquímico e comunicador de Ciência. Publicou centenas de artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de diversos livros de divulgação de Ciência, entre os quais se destacam “Íris Científica” (Mar da Palavra, 2005 – Plano Nacional de Leitura), ”Caminhos de Ciência”, com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011) e “Diálogos com Ciência” (Trinta Por Uma Linha, 2019 – Plano Nacional de Leitura), também prefaciado por Carlos Fiolhais. Organiza regularmente ciclos de palestras de divulgação científica, a exemplo do já muito popular “Ciência às Seis”, no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Profere regularmente palestras de divulgação científica em escolas e outras instituições.

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