Verde ou negro?
(Imagem de domínio público gerada por IA)
Muito se tem falado durante a passada semana sobre o “apagão” que, no dia 28 de abril, afetou toda a Península Ibérica, e muito se continuará a falar nos próximos meses e, quem sabe, anos. Não é este o tema central do presente pequeno texto, embora eu não resista a observar que acho inconcebível – quer de um ponto de vista de engenharia quer de um ponto de vista estratégico – que a rede elétrica de um país seja tão vulnerável que um só evento, indeterminado e imprevisível, torne inoperacional todo o sistema de produção e distribuição de energia elétrica por um larguíssimo período. No entanto, agora que esta crise foi ultrapassada, várias são as entidades que se congratulam com a forma exemplar como o problema se resolveu a nível nacional, gabando a resiliência dos nossos complexos sistemas. Por outro lado, estou certo de que as auditorias já em curso encontrarão uma boa desculpa e justificarão com razões de natureza económica as soluções existentes no terreno, enquanto assegurarão que nada de semelhante se voltará a passar. Ou seja, em bom Português, tudo ficará igual.
Hoje, o tema de que quero falar é, porém, outro, concretamente o dos tão populares e apregoados painéis solares ou painéis fotovoltaicos. Os tais que, apesar de assegurarem já uma considerável percentagem da produção de energia do país, de nada serviram durante a crise que comecei por referir. Bem, prometi não fazer do “apagão” o tema central e vou cumprir. Falaremos de painéis solares na perspetiva das suas vantagens e desvantagens. Comecemos!
Quanto às vantagens, são tão conhecidas que é praticamente inútil falar delas. Utilizando células fotovoltaicas, a energia solar – que sustenta todos os ecossistemas do nosso planeta – pode ser convertida em energia elétrica, quer para utilização imediata quer para armazenamento em baterias. Ou seja, usando uma fonte de energia de custo zero (o Sol que, quando nasce, é para todos) pode gerar-se energia elétrica com um valor económico não nulo, sendo esse valor capaz de compensar, no médio prazo, o necessário investimento em painéis fotovoltaicos e respetivas estruturas. Por esta razão, a utilização de painéis solares é cada vez mais comum em telhados de edifícios, em coberturas de parques de estacionamento, em vedações e, até, entre carris de linhas férreas, dado tratar-se de superfícies de considerável extensão cuja ocupação por este tipo de painéis em nada compromete as estruturas subjacentes. O processo de geração de energia fotovoltaica não produz quaisquer resíduos, sendo, por isso, considerado ecológico.

Infelizmente, quando se passa de uma utilização pontual ou uma utilização em ambiente urbano para uma utilização em grandes superfícies rurais, abrangendo vários hectares – as chamadas quintas solares –, atinge-se um ponto em que, contrariamente ao que é crença generalizada, o caráter ecológico dos painéis solares se perde quase por completo. Neste caso, as vantagens dos painéis solares passam a ser essencialmente financeiras e o “selo” da ecologia passa a servir, meramente, para esconder as enormes desvantagens, que passarei a referir.
Em primeiro lugar, o impacto ambiental desse tipo de instalações é enorme e muito negativo, já que a sua instalação implica a eliminação de vastos habitats naturais, quer em termos de vegetação quer em termos de vida animal. Em muitos casos, cortam-se milhares de árvores – mesmo árvores protegidas por lei, como sobreiros – eliminam-se campos e plantações, desertifica-se o terreno, inviabilizando a vida de muitos insetos e de animais fundamentais para o equilíbrio ecológico. O solo tem de ser compactado para suportar as estruturas de suporte e evitar a erosão até aí impedida pela vegetação. Além disso, a necessidade de manter os painéis solares limpos leva ao consumo de vastas quantidades de água o que, nalgumas regiões e em certas estações do ano, tem um elevado custo ambiental e social.

Um outro aspeto a ter em consideração é o impacto visual. As grandes extensões de painéis solares – que, infelizmente, começamos a ver em muitos pontos deste nosso “jardim à beira-mar plantado” – revoltariam não apenas o nosso poeta, jornalista e político Tomás Ribeiro, que assim se referia a Portugal, mas todo e qualquer cidadão, nacional ou estrangeiro, que se desloque pelo país. Como é possível considerar como “tecnologia verde” vastas instalações que destroem habitats e paisagens, pintando de negro montes, vales e planícies, eliminando campos agrícolas, desfigurando comunidades e zonas com enorme significado natural, cultural e histórico?
As extensas quintas solares geram quantidades consideráveis de eletricidade que tem de ser levada até aos pontos de consumo. Isso implica, forçosamente, grandes infraestruturas de transporte de energia, perdas energéticas nesse transporte e, eventualmente, armazenamento de energia em baterias para suprir períodos sem sol. Todas essas instalações representam desafios técnicos e operacionais, com elevados custos ambientais, aos quais raramente se faz alusão.

Não menos importante é o impacto da produção de grandes quantidades de painéis solares, que envolve a extração e o processamento de matérias-primas como o silício, a prata e metais de terras raras, com elevado custo ambiental e social. Além disso, os processos de fabrico dos painéis fotovoltaicos requerem uma quantidade significativa de energia, muitas vezes, proveniente de fontes não renováveis. Refira-se ainda que estes painéis têm um tempo de vida de cerca de 25 anos, sendo necessário, no final desse período, lidar adequadamente com os materiais envolvidos, alguns dos quais de difícil ou impossível reciclagem.
Não é certo, por isso, que o balanço final da utilização de painéis solares em extensas instalações no meio rural, para produção de energia elétrica, seja favorável ao meio ambiente. É-o, sim, ao lucro financeiro, sendo essa a única motivação clara para a instalação dessas infraestruturas.
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05/05/2025